Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > "WORK IN PROGRESS"

A ilógica do barro

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

"WORK IN PROGRESS"

Claudio Julio Tognolli (*)


"Assim amparado ouso enfrentar um tema que é o da minha própria vida, minha áspera fortuna, minha radiosa miséria, triste glória, fecundo opróbrio. Dos dezesseis anos em diante nunca fiz propriamente outra coisa que não estivesse direta ou indiretamente ligada ao jornalismo. Durante vinte e quatro horas fui vendedor de barro refratário. Tentei a advocacia, da qual saí a tempo depois de ganhar um jacá de galinhas e quinhentos cruzeiros e mais a absolvição de um infanticida, de três assassinos rurais que tremiam de febre palustre e de um ladrão que havia roubado duas colchas, um leque e um pacote de pregos em casa do promotor da comarca. Saí a tempo da advocacia propriamente dita, para não fazer aquilo que o general Dutra, referindo-se aos diplomas de bacharel que lhe vão entregando durante o seu mandato, discretamente chamou, num desabafo, "a sua coleção de canudos". Respeito a advocacia como respeito o barro refratário. Mas, se tenho os dois no jornalismo, para que procurá-los fora dele?" (Carlos Lacerda, A missão da imprensa, 1949, pág. 24)


Por puro destemor, ou irresponsabilidade consentida, a televisão de guerra, seja CNN ou Fox News, enveredou nas últimas semanas pelo novo caminho da pedra filosofal jornalística: a ilógica. O sacrossantíssimo terreno desta ilógica convocará os escrúpulos da ética, avassalará corações e mentes do consumidor de notícias ? e recairá, como uma bomba, sobre as capacidades específicas de cada um acreditar ou não no que escuta e vê.

O terreno da ilógica requer uma paciência mineral de quem a consome. Vamos dar nomes aos bois. No início dos anos 90, quando a mídia norte-americana se sofisticava na tarefa de copiar a televisão, quando a mídia autóctone brazuca, por sua vez, se sofisticava na tarefa de copiar a mídia dos EUA, que copiava a televisão, surgiu a febre dos infographics. E a conseqüente febre da televisão a superar-se a si mesma.

Se a mídia impressa virou televisão, restaria a esta uma única saída: superar o impasse do relógio, já que na cronometria jornalística o agora é o ápice do tempo. A saída começou a ser esboçada pelo Channel 7 News, de Miami, pelas mãos do apresentador Rick Sanchez, a partir de 1991. Que consistia em botar no ar notícias ainda em fase de apuração. O furo, ou breakstory, ou notícia jamais sequer pensada pelo consumidor de informações (as chamadas, nos EUA, cutting-edge stories) consistia em dar primeiro que ninguém a história, é claro, mas mesmo que fosse uma meia-verdade. O termo work in progress nunca foi tão produtivo. Reportagens que levariam dias para serem confeccionadas eram veiculadas na tevê. No outro dia ninguém, nos jornais, repicaria história, nada mais natural, já que uma notícia pela metade é uma noiva búlgara: ninguém sabe como é, apenas ouviu falar.

O que dizemos no jornal nem sempre se parece conosco, seria inatural afirmar o oposto. Mas o novo barato, o novo bag, agora, é mandar para frente fatos apurados pela metade, ou na melhor das hipóteses, algo que esperamos que de fato aconteça. É o chamado wishful thinking. Essa ilógica bizarra é a mais nova arma de guerra da mídia dos EUA, porque, antes de mais nada, ser americano, ou islâmico, tanto faz, virou um ato de fé. Foi assim nas últimas semanas, tanto na CNN quanto na Fox News. Vejamos o caso, por exemplo, de Major Garrett, correspondente da Fox no Pentágono. A ele são repassadas dicas (hints) do front de batalha, sempre pela metade. Sua postura tem sido a de, num gesto de paciência mineral, aguardar por confirmações que não chegam. Então o que resta? Noticiar a ilógica. Já que não há conteúdo, que venha a forma: expressada, é claro, num rosto ávido para que tudo se confirme. Num boletim, ao comentar informações de que os EUA teriam encontrado o Graal da guerra, provas de armas químicas, Garrett repetiu em três minutos e quarenta segundos, por cinco vezes, que "a informação não está confirmada mas pelo que pude apurar tudo leva a crer que isso seja verdade".

Companheiro de guerra

A ilógica tem outras vertentes. Há alguns anos, um grande jornal brasileiro investigava a suposta ligação de um empresário da noite paulista com a chamada máfia espanhola, de Madri. O processo era inexpugnável, em sigilo de Justiça, decretado por um então obscuro juiz madrilenho ? que anos mais tarde ganharia fama internacional por ter prendido Pinochet e querer mandar pro xilindró Harry Kissinger: o magistrado Baltazar Garzón. Para destecer o caso era imperativo o acesso aos autos. A assessoria de imprensa do empresário encaminha ao jornal a defesa do empresário, à qual anexava-se a capa de uma revista madrilenha, que o apontava como mafioso. Qual a saída do jornal? A ilógica: mandar pra frente a informação pela metade, com a linha fina: "Empresário de SP processa revista espanhola que o chamou de mafioso".

Desde que em física, no início do século, decretou-se o Princípio da Incerteza (Bohr, Planck, Heisenberg), voltou à moda a filosofia pré-socrática (Heráclito, Pirro, Zenão de Eléia, Protágoras) e o pensamento solipsista de David Hume e Ludwig Wittgenstein. Trocando em miúdos: eu ouvi falar, acho que vi, mas não tenho certeza de que tenha visto mesmo ou mesmo que tenha ouvido falar. Esse é o primado da ilógica: ouvimos o galo cantar. Mas não sabemos onde. Ou, como notava Heráclito: "O vínculo não-aparente é melhor do que o aparente".

No reino da ilógica, da ilógica jornalística, a busca pelo duplo da informação, vulgo "tenho de confirmar o inconfirmado, mesmo que não tenha a confirmação" é a bola da vez. Na história da literatura, a busca pelo duplo até que esclarece os fatos. O duplo foi lançado em 1796 por Jean-Paul Richter, sob a designação alemã de doppelganger, que pode ser traduzido como "aquele que tenho de lado" ou ainda "companheiro de estrada". Virou moda, em literatura: mas já estava no Plauto de Os menecmas (206 A.C.), no Shakespeare de Comédia de erros (1592), e veio para o Retrato de Dorian Gray, de Wilde (1891), e para o conto O outro, de Jorge Luís Borges (1975).

E agora, 2003, o companheiro de guerra, na mídia, tem sido a ilógica do barro. Com todas as suas duplicidades específicas e bem localizadas.

(*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, professor da ECA-USP e do Unifiam (SP), mestre em Psicanálise da Comunicação e doutor em Filosofia das Ciências

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