Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & ACM

A imprensa caudatária

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

MÍDIA & ACM

Cláudio Weber Abramo

O senador Antonio Carlos Magalhães forma entre os mais hábeis manipuladores da imprensa que existem no país. Junto com alguns outros políticos e empresários experientes, ele é um excelente media watcher. Suas declarações viram notícia independentemente de serem ou não fundamentadas.

Contudo, como observou alguém nestes últimos dias, quem soube tratar com ele foi o sempre vilipendiado e nunca assaz reconhecido Itamar Franco: este, quando presidente da República, ao ler que Magalhães falava de corrupção no governo, convidou-o a visitá-lo no Palácio do Planalto munido da necessária documentação. Foi o bastante para esvaziar o senador baiano: era tudo gás.

A imprensa não tem conseguido sequer avançar além daquilo que grita em seu rosto todos os dias. Ficarei num único caso. ACM foi presidente do Senado durante quatro anos. Inventou a CPI do Judiciário. Do Judiciário propriamente dito foi o que essa CPI não foi, pois se limitou a casos individuais. ACM não usou o poder que tinha para de fato impulsionar as discussões sobre a reforma do Judiciário, em relação à qual existem diversos projetos no Congresso, todos engavetados há anos.

Todos sabem que o Judiciário é uma das piores, se não a pior, caixa preta brasileira. Não apenas é opaco, ineficiente e apodrecido por seculares práticas de cumpinchagem e nepotismo como, crescentemente, é alvo de inquietações quanto à corrupção interna.

Não é por acaso que setores empresariais passaram a advogar cada vez mais o recurso à arbitragem privada (fora, portanto, do aparelho de Estado). A administração da justiça é vista por muitos como inconfiável por receio de corrupção, tanto administrativa quanto judicante.

O Judiciário é muito difícil de abordar porque existe um receio generalizado de represálias – o que, por si só, reforça a necessidade de se aplicar a esse poder republicano um abridor de latas.

Contudo, a imprensa não chama ACM às falas por conta de seu imobilismo em relação à questão nem, sequer, emprega os foguetórios do ex-presidente do Senado como "gancho" para tratar sistematicamente dos problemas judiciários.

Assim como o Judiciário, outros temas arranhados por ACM ao longo dos últimos meses poderiam perfeitamente servir de deixa para que a imprensa de fato investigasse, informasse o leitor, ajudasse a lhe dar instrumentos para compreender a realidade brasileira.


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