Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > COPA: O FIM DA FARRA

A imprensa de chuteiras

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

Lira Neto, ombudsman de O Povo (*)

“No futebol, quem ganha e quem perde as partidas é a alma”
Nélson Rodrigues, escritor e jornalista brasileiro

 

R

ecebo pelo correio eletrônico uma instigante mensagem de Jorn Seemann, alemão que vive há quatro anos no Brasil. Professor visitante da Universidade Estadual do Ceará, leitor do O Povo, ele recorre ao ombudsman para externar um certo desconforto, uma sensação de estranhamento. Um incômodo que experimenta ao ler os jornais brasileiros, pelo menos enquanto o assunto foi Copa do Mundo. Para Seemann, nossos jornalistas foram chauvinistas demais, passionais além da conta. Escreveram como se estivessem na arquibancada, coração na boca, camisa amarela estufada no peito.

“O jornalista deve escrever o que o leitor torcedor quer ler, mesmo com os dois olhos cegos?”, indagava Seemann. Onde o distanciamento necessário ao ofício, a crítica equilibrada, a informação objetiva? A seu favor, o professor alemão evoca palavrinhas mágicas, princípios básicos do jornalismo: imparcialidade, isenção, objetividade. A questão, por mais incômoda que nos pareça, nessa hora em que mergulhamos na tristeza da derrota na final, precisa ser levada em conta. Porque esse é também, exatamente, o momento de fazer o balanço da cobertura da imprensa brasileira sobre a Copa da França. Se analisarmos o noticiário esportivo da imprensa nacional durante o Mundial, constataremos que o tom adotado pelos jornalistas simplesmente tratou de acompanhar os humores da torcida, que por sua vez oscilou do pessimismo radical à euforia extrema. Fomos pautados, basicamente, pela emoção e por nossa imensa paixão à bola. Ao longo do torneio, por exemplo, construímos ídolos e elegemos mártires com a mesma facilidade e incontinência com que o torcedor da arquibancada aplaude e vaia esse ou aquele atleta.

Praticamente todos os jornais brasileiros publicaram cadernos especiais, diariamente, sobre a Copa do Mundo. O torneio foi longo demais e, portanto, a saturação era inevitável. Foi preciso preencher páginas e mais páginas, dia após dia. Muitos jornalistas enviados à França não eram especialistas em futebol, nem mesmo repórteres esportivos. Somado tudo isso, depois de mais de um mês de torneio, não é difícil constatar que toneladas de papel foram gastas, na maior parte das vezes, com impropriedades e irrelevâncias. Boa parte delas, por sinal, acabaram em destaque de primeira página: Suzana Werner na platéia. Denílson na montanha russa da Euro Disney. O brinco novo de Ronaldinho. No lugar da informação, a frivolidade. Em vez da notícia, o marketing pessoa e/ou empresarial.

Para um olhar estrangeiro, como o de Jorn Seeman, talvez seja mesmo difícil compreender o significado do futebol para o povo brasileiro. Indiscutivelmente, essa é a maior paixão nacional. Por causa dele, sonhamos, sofremos, pulamos, rimos, choramos, dançamos, escabelamo-nos e, a cada quatro anos, entramos em uma espécie de histeria coletiva.

Costuma-se dizer, sem exageros, que o futebol representa a própria alma de nosso povo. Não é à toa que, para Mário de Andrade, ao contrário do que sempre pensaram os ingleses, o futebol foi inventado por Macunaíma. Para todos nós, brasileiros, o futebol é a emoção em seu estado bruto. Símbolo sagrado de uma Nação. Difícil para nós, jornalistas, desvencilharmo-nos disso. A imprensa, aliás, tem a obrigação de retratar como essa paixão se manifesta. Mas sem fugir ao dever da ponderação, sem renunciar ao direito da análise crítica. Nisso, Seemann tem absoluta razão.

A propósito: quando o jornalista Juca Kfouri criticou a CBF, a Fifa quis negar-lhe a credencial para a Copa. Na semifinal, quando Pelé elogiou o time da Holanda, alguns jornalistas brasileiros quase quiseram esquartejá-lo publicamente, sob a acusação de crime de lesa-pátria.

Antes de redigir esta coluna, convoquei um time de meia dúzia de jornalistas para tentar enriquecer o debate. Três retornos chegaram a tempo de serem escalados para a publicação. O jornalista Alberto Dines, do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, foi o primeiro a se manifestar. Dines, que considera a cobertura brasileira do Mundial uma verdadeira “Farra da Copa”, relacionou o assunto aos gordos patrocínios publicitários. “As grandes e médias empresas jornalísticas querem faturar o evento, vendem a cobertura de forma descarada (anúncios no meio da matéria etc) e para garantir um retorno do investimento, esgoelam-se no berreiro”, escreveu Dines. Renata Lo Prete, ombudsman da Folha de S. Paulo, ponderou: “Se a plena objetividade é uma ilusão, o diagnóstico se aplica ainda mais à cobertura esportiva, e especialmente à relação única entre o público brasileiro e sua seleção de futebol. Essa constatação, a meu ver, não exime o jornalista sério da obrigação de manter o equilíbrio. Nada o impede de traduzir a emoção do esporte, mas ele não pode simplesmente se comportar como torcedor”.

Mário Vítor Santos, ex-ombudsman da Folha, também condenou o ufanismo da cobertura esportiva: “Muitos jornalistas cedem à pressão cultural e comercial de vestir a camisa canarinho. O que mais me desagrada nisso é a uniformização (sem trocadilho) das coberturas. O leitor fica sem referências críticas, imparciais, distanciadas, jornalísticas. O exercício do jornalismo demanda atenção e salvaguardas especiais. Isso é válido até quando o país está em guerra, mais ainda quando o assunto é apenas uma competição esportiva”. Convidei oficialmente, através de comentário interno à Redação na quinta-feira passada, o editor de Esportes do O Povo, Luís Pedro Neto, a dar a sua opinião sobre o tema. Infelizmente, não obtive retorno.

Respeitadas as devidas proporções, O Povo repetiu, basicamente, os mesmos acertos e erros cometidos pela imprensa brasileira na cobertura da Copa. O saldo, porém, pode ser considerado positivo: o jornal, mesmo com as limitações inerentes à imprensa regional, compreendeu a importância de deslocar uma equipe própria para a França, apresentando assim um diferencial decisivo em relação à concorrência local. Enquanto os jornalões do Rio e São Paulo mandaram batalhões de repórteres para a Copa, Egídio Serpa, Arthur Ferraz e Jarbas Oliveira tiveram que dar conta do recado, sozinhos, com uma estrutura mínima à sua disposição. Porém, duas tentativas de dar um sotaque ainda mais genuinamente cearense ao caderno Copa 98 naufragaram em suas intenções. Primeiro, as histórias desenhadas por Roberto Munhoz, que pecaram pela ausência de roteiros melhor definidos e pela evidente dificuldade de explorar com mais propriedade a sintaxe típica dos quadrinhos. Depois, a coluna de Raimundo Fagner, que, além da periodicidade indefinida, foi comprometida pelos constantes erros de linguagem e pela insistente auto-referenciação. Ao longo do torneio, os leitores que ligaram para o ombudsman para comentar sobre a coluna “Batuquê de Bola” foram unânimes: Fagner falava mais de si próprio de que da Copa do Mundo.

PS: Agora que a Copa acabou, pode ser que a imprensa lembre que a seca no Nordeste continua.

(*) Copyright O Povo, 13/7/98.

 

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