Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A imprensa e o compromisso com o país

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

MÍDIA PASSIVA

Emerson Mathias Pinto (*)

Como cidadão brasileiro venho externar minha profunda indignação sobre a leitura que fiz do artigo "Ética e desenvolvimento", publicado na Folha de S. Paulo em 13/8/2003, de autoria da Sra. Eliane Cantanhêde.

Quero sugerir uma pauta: qual o compromisso da imprensa com uma postura política nesse país, "deitado eternamente em berço esplêndido", chamado Brasil? Até quando vamos ler artigos de jornais "de ponta" que se restringem a fazer releituras da realidade? Cadê o compromisso com essa realidade absurdamente indigna em que vivemos? Quem está na posição de reler o país não pode ficar repetindo "frases feitas" e "slogans". Cadê a vida inteligente desse país?

Creio que teremos que parar de ler jornais e começar a ler mais os clássicos brasileiros (Guimarães Rosa, Machado de Assis, entre outros) para melhor entender o que é o Brasil. Definitivamente, não somos mais brasileiros. Somos globais, seja lá o que isso venha a significar. E quem vive nas periferias e as classes médias "locais" que se virem para sobreviver, pois politicamente ninguém olha mais para os seus direitos. Todo mundo quer ser global. Está na moda e garante o emprego ? entre os poucos empregos que ainda restam.

Crítica enviada à Folha

Aos cuidados do ombudsman da Folha de S.Paulo, quero deixar o registro que fiz ao Observatório da Imprensa relativo a um de seus artigos. A questão que levantei é de crítica ao atual estado da imprensa nacional, e não se restringe apenas a esta Folha.

Não aguardo uma resposta polida do Sr. ombudsman, nem esclarecimentos, nem comparações com pautas de outros veículos de imprensa. É apenas uma reflexão, e não uma questão de mérito.

Não creio que seja saudável para a imprensa ficar defendendo o "ponto de vista do jornal", como já vi muitas vezes na coluna do ombudsman. (E por que uma palavra estrangeira para designar o papel de um observador "isento" de um jornal brasileiro?)

Conforme definido no próprio website da Folha:


"O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Ele não pode ser demitido durante o exercício do cargo e tem estabilidade por seis meses após o exercício da função. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva do leitor ? recebendo e verificando as reclamações que ele encaminha à Redação ? e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação."


Não sei se o ombudsman, nas atribuições acima definidas, pode colaborar com a pauta que sugeri a Alberto Dines.

O que eu sei é que os meios de comunicação não podem estar alheios aos urgentes problemas do país. Isenção para reportar? Tudo bem, compreensível nas matérias puramente descritivas de fatos, com nomes e datas pertinentes ao escopo da reportagem. Mas um importante articulista do jornal se colocar como mera "cópia" de um discurso importado, cujos interesses são questionáveis ao nosso país, bem, isso é passividade e omissão.

As elites se perguntam, ainda, por que o governo PT ganhou com ampla maioria as recentes eleições. Uma das respostas é que todos nós, cidadãos (inclusive das elites), cansamos de esperar pelas elites políticas na resolução de problemas sociais. O PSDB era uma face dessa elite esclarecida, como me parecem ser também os principais veículos de comunicação de massa do país (jornais, TVs). Um dia vamos jogar os jornais no lixo e vocês vão ficar se perguntando por quê. Então o pessoal de marketing vai propor aos diretores mil estratégias de comunicação para "fidelizar o consumidor" (já tem jornal que vende assinatura anual e dá "grátis" um MBA na FGV).

Ler jornal não é ato de consumo. Leitura é ato político. Jornal não deveria ter um fim em si mesmo, como um bem de consumo. Jornal é espaço aberto para refletir sobre a sociedade e nela atuar. Jornal não deveria ter marketing. Deveria ter uma proposta de leitura da sociedade em que atua. Jornal não deveria ter "donos das pautas", mas colaboradores, de toda a sociedade. Jornal não deveria ter que reportar "lucros", mas levantar bandeiras políticas e sociais de relevância para a sociedade em que se insere. Jornal não é fim, é meio. Meio de comunicação. Um povo que não se comunica, morre. Vejam as aldeias indígenas que abriram mão de seus costumes. Já não existem mais.

O povo brasileiro pode ter baixa escolaridade, mas não é diferente dos demais agrupamentos humanos do planeta. Queremos refletir sobre nossos problemas, coletivamente, e tratar de soluções conjuntas, para seguirmos vivos como nação.

Abaixo, o artigo "Ética e desenvolvimento" (publicado em 13/8/03 em http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult681u89.shtml) e, em seguida, meus comentários.


Ética e desenvolvimento

Eliane Cantanhêde

Quando se começa a ressuscitar a tese de "primeiro crescer o bolo para depois dividir", o diretor da Iniciativa de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Bernardo Kliksberg, dá um pulo e ensina o contrário: os países mais desenvolvidos do mundo fizeram o oposto, primeiro distribuíram a renda e depois o bolo cresceu que foi uma beleza. Essa, diz, é a melhor receita.

Argentino, 62 anos, o sociólogo e economista Kliksberg critica o neoliberalismo na América Latina, que só fez consolidar ou até aprofundar a desigualdade social. E destaca Uruguai e Costa Rica como melhores (ou únicos) exemplos de distribuição de renda no continente. Seu trabalho consiste, principalmente, em divulgar idéias. Autor de dezenas de livros, seis deles editados no Brasil, ele percorre o mundo tentando convencer que, sem justiça social e sem parceria do Estado com igrejas, empresas e todos os atores sociais, inclusive a imprensa, não há desenvolvimento. As vítimas são os cidadãos, principalmente os mais excluídos.

Aproveito este espaço para dar a palavra a Kliksberg, ao bom senso e à reflexão sobre um mundo melhor. Seguem trechos do que ele me disse, em longa e recente conversa em Brasília:

"Em nosso continente, houve enormes problemas de qualidade no debate sobre o desenvolvimento. Um dos mais graves foi a falta de associação da ética com a economia. Não se cuidou do valor moral e ético da conduta econômica. Na base disso tudo está a desigualdade, um problema econômico que exige um debate e uma visão ética."

"Por que Costa Rica e Uruguai têm menos desigualdade? Porque Costa Rica tem um projeto histórico, desde 1948, de investir muito fortemente nas pessoas. É um país pobre, sem muitos recursos naturais, sem petróleo, mas que investe tudo o que pode em gente, em educação e saúde. Ou seja, que mobiliza seu capital para o desenvolvimento humano. No Uruguai, há políticas públicas muito ativas voltadas para as pessoas, com uma sociedade civil muito mobilizada."

"Com a democracia, as proporções dos investimentos em saúde e educação subiram consideravelmente no continente em relação ao PIB, inclusive no Brasil. Mas continuam sendo muito menores do que o necessário. A simples volta da democracia não resolveu o problema. Estima-se que 44% da população da América Latina esteja abaixo da linha da pobreza, incluindo quase 60 milhões de crianças." "As empresas têm que assumir cada vez mais suas responsabilidades sociais. E as empresas que não poluem, que empregam mais gente, que especializam seus empregados e respeitam seus consumidores têm que ter um tratamento diferenciado do Estado. Delas dependem muito os investimentos internacionais num país, e eles são cada vez mais reduzidos e disputados."

"Os líderes mundiais sociais são Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Canadá, que são fortes e competitivos economicamente. Eles são o melhor exemplo de que a melhor receita não é crescer o bolo para depois dividir, mas ao contrário: dividir o bolo para depois crescer."

Quanta gente precisa ler, ouvir e principalmente entender tudo isso aqui no Brasil!

Eliane Cantanhêde é diretora da Sucursal de Brasília e colunista da Folha.


Comentários ao artigo

Com os trechos do artigo entre aspas, meus comentários:

** "Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID". Quem é o BID? Pelo fato de ser BID tem autoridade garantida no assunto? E o contraponto dos argumentos tomados como válidos, não se faz? "Primeiro distribuíram a renda e depois o bolo cresceu que foi uma beleza". Quem financiou a conta desse processo nesses países?

** "Critica o neoliberalismo na América Latina…". E a historia comum de caudilhos, que nos lançou as pré-condições para a dependência? Não era neoliberalismo.

** "Seu trabalho consiste, principalmente, em divulgar idéias". Idéias sem nenhum compromisso político com os países envolvidos? Típico de BID, FMI, Banco Mundial.

** "Parceria do Estado com igrejas, empresas e todos os atores sociais, inclusive a imprensa". E quem paga os juros da dívida externa? O FMI topa entrar na parceria, renegociando a dívida externa para liberar investimentos em recursos sociais?

** "Bom senso e à reflexão sobre um mundo melhor". As religiões já fazem isso há milênios, sem sucesso… "Seguem trechos do que ele me disse". Transcrever conversas sem assumir posições? Que imprensa é essa? Vocês acham que os cidadãos são uns "tapados" e têm que receber conselhos dos gurus do Primeiro Mundo? Típica postura de quem "aspira ao Primeiro Mundo, como se lá fosse o paraíso… e eles continuam cobrando aqueles juros exorbitantes da divida externa.

** "A falta de associação da ética com a economia". E a Enron? E a WorldCom? E a Andersen? Meu Deus! Não existe essa ética na economia lá no país deles! Quanta bravata para vender livros aos subdesenvolvidos. Francamente… isso é cinismo típico dos lideres de Primeiro Mundo. "Valor moral e ético da conduta econômica". E a guerra do Bush e do Blair por interesses econômicos? Quem pode se jactar de ser padrão de ética na política econômica?

** "A desigualdade, um problema econômico que exige um debate e uma visão ética". Que país do mundo fez isso, um debate e uma discussão ética para resolver a desigualdade? Teve o New Deal nos EUA, o Plano Marshall pós-Segunda Guerra, a unificação da Europa pós-Muro de Berlim, sob o financiamento do Banco Central Alemão, enfim, na história das grandes crises teve mais ação e senso de urgência do que blá-blá-blá.

** "Costa Rica tem um projeto histórico, desde 1948, de investir muito fortemente nas pessoas". Quem garante isso? Que leitura se fez da história da Costa Rica? Quantas pessoas vivem na Costa Rica? Qual a dimensão dos problemas econômico-sociais da Costa Rica? Não dá para comparar com um país-continente como o Brasil. "Investe tudo o que pode em gente, em educação e saúde". E eles (Costa Rica) têm outra alternativa? Aqui temos várias. O FMI cobra a conta sempre e exige os pacotes de ajuste, a cada novo governo!

** "A simples volta da democracia não resolveu o problema". Democracia não tem nada a ver com resolução de problemas econômicos. Democracia faz parte da vida em sociedade, sem um fim específico. Não se deve atribuir "performance" às democracias. Tem gente que usa esse argumento para justificar a volta do governo militar "mais eficaz" . Muitos jornalistas e lideranças populares mofaram nos calabouços do Dops e do DOI-Codi, enquanto o país crescia a 7% ao ano.

** "Empresas têm que assumir cada vez mais suas responsabilidades sociais". Bravata! Esse papel é do Estado democraticamente eleito. Empresa que não dá lucro fecha. Estado tem que cuidar da vida em sociedade. Sem Estado atuante não há espaço nem para as empresas. Veja o caos do Estado lá na Rússia e as conseqüências econômicas.

** "E as empresas que não poluem, que empregam mais gente, que especializam seus empregados e respeitam seus consumidores têm que ter um tratamento diferenciado do Estado". Um novo clientelismo do Estado com o setor privado? Nada democrático. Lei é para ser cumprida, e não premiada. "Delas dependem muito os investimentos internacionais num país, e eles são cada vez mais reduzidos e disputados". Questionável o critério de quem investe. Novamente, a voz dos "donos do capital". É a mesma lógica que justifica os spreads bancários elevadíssimos no Brasil, tão carente de créditos ao pequeno e médio empreendedor. Cadê o contraponto disso?

** "Líderes mundiais sociais são Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Canadá". Muito bom, numa análise bem simples e falaciosa. O Canadá depende dos EUA economicamente, o que já desqualifica o exemplo. Os demais são bloco à parte, dependentes do Tratado de Maastricht, tanto quanto o resto da Europa. Países satélites das maiores economias globais. "Bebem da mesma água". Por que não colocar a Índia e a África nessa comparação? Eles seguem as políticas de incentivos do Banco Mundial há muito tempo, bem como nós aqui junto ao BID. Retórica de resultados, sem compromissos.

** "Quanta gente precisa ler, ouvir e principalmente entender tudo isso aqui no Brasil". Se o jornalismo de ponta do Brasil se restringe a dar sermões e conselhos, vale mais comprar um livro de auto-ajuda. Precisamos de pensamento crítico, e não de "leituras sofisticadas da realidade". Somos (me incluo nisso) uma elite acomodada e vaidosa do nosso "saber globalizado". Absurdamente medíocres e incapazes de oferecer pautas que possam resultar em ações que justamente reduzam as injustiças sociais.

Somos campeões da retórica e fracassados na ação política-social. Nassif e Eliane, pelo bem do país: abram um espaço em jornais de ponta desse Brasil para elevar as discussões nesse nível crítico, não "consensual". Se o jornalismo não fizer isso, quem vai fazer? Temos que criar esse pacto pelo "compromisso social" com todos, leitores e jornalistas.

Sem pensamento crítico, vamos mofar nesse mar de incertezas e não agir em tempo, o que custará caro para as gerações futuras.

(*) Brasileiro, pai de 3 crianças entre 4 e 11 anos, economista, cidadão indignado com a postura de omissão política da imprensa nacional

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