Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL

A imprensa e o governo Marta Suplicy

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL

Rui Falcão (*) e Lino Bocchini (**)

Quando a prefeita Marta Suplicy assumiu a Prefeitura de São Paulo, herdando uma cidade devastada por oito anos de malufismo, não se esperava complacência da imprensa. Afinal, a despeito de quem governa, o papel da mídia não é o de enaltecer nem o de execrar. Cabe-lhe, sim, ao menos em tese, oferecer informação de qualidade, analisar os fatos cotidianos, acompanhar e fiscalizar as ações do poder público, apresentando o resultado de seu trabalho ao público, com isenção e objetividade possíveis.

Quando se trata da administração de uma metrópole como São Paulo, o rigor é mais profundo, sobretudo pelo fato de a maior e mais rica cidade do país ser administrada por uma mulher, petista, e que ainda por cima assumiu o posto a menos de dois anos da eleição presidencial. Trocando em miúdos, ninguém esperava uma lua-de-mel entre a gestão Marta e os jornais. Mas ao que se assistiu nos últimos dois anos nas páginas dos principais diários da capital paulista foi um total desrespeito às normas elementares da ética jornalística. Os flagrantes são diários e inúmeros. A seguir, um breve histórico de alguns casos mais emblemáticos.

Vamos começar com um exemplo recente. Em 10 de fevereiro passado, exatamente no primeiro dia de entrega de uniformes e material escolar grátis às 835 mil crianças e adolescentes da rede municipal, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo voltaram suas baterias contra a política de ensino da Prefeitura. A Folha ouviu dois ex-secretários de Educação e forçou a barra para afirmar que as ações na área de educação eram ditadas pelo marketing ("Ex-secretários criticam pressão e marketing").

Um dos ex-secretários ouvidos, Nélio Bizzo, enviou carta ao "Painel do Leitor" e ao ombudsman da Folha, esclarecendo: "Não concordei com o uso de meu nome na matéria, desvirtuando o que disse e invertendo meu posicionamento frente às políticas da Secretaria de Educação".

É fácil comprovar a artimanha do jornal, uma vez que a entrevista foi concedida via e-mail; logo, todo o diálogo está registrado. Com uma tese pronta, o repórter procurou Bizzo: "Como havia dito, a idéia da reportagem que estamos fazendo é levantar os pontos problemáticos da educação pública municipal". Em todas as respostas, fica absolutamente claro que Bizzo, mesmo tendo deixado a secretaria, concorda com a política educacional da gestão Marta. O ex-secretário finaliza da seguinte forma: "Considero suas políticas [da prefeita] corretas e sinceramente continuo torcendo para que os diversos programas surtam o efeito desejado". Realmente, é preciso muito "talento" para transformar esse depoimento em base para uma reportagem com o título "Ex-secretários criticam pressão e marketing".

Para completar, no dia seguinte (11/2/03), na suíte sobre o assunto, a Folha ouviu outra ex-secretária, Eny Maia, também com opinião francamente favorável à atual gestão. Resumindo, um título real para a reportagem seria algo como: "Mesmo fora do cargo, ex-secretários apóiam política educacional".

Já o Estadão publicou o editorial "As escolas de lata" (10/2/03), afirmando, pela quarta vez em menos de 10 dias, que a política educacional do município é ditada pelo Ministério Público Estadual (trataremos do caso do MPE mais adiante). O editorialista afirma, por exemplo, que o déficit de educação infantil, em São Paulo, é de 200 mil vagas, e não cita a fonte do suposto levantamento. A última aferição da Secretaria Municipal de Educação, em 2001, apontou 24 mil crianças matriculadas sem vagas (quase 10 vezes menos).

Taxa aprovada pelo Congresso vira "idéia da Marta"

A taxa de iluminação pública, outro caso recente, mobilizou os jornais entre o final do ano passado e o começo deste ano. A taxa em questão foi aprovada pelo Senado Federal em 16 de abril de 2002, e foi sancionada em seguida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Hoje, praticamente todas as prefeituras do Brasil já fazem a cobrança, embutida na conta de luz. Acontece que, em São Paulo, os jornais transformaram a taxa aprovada no Congresso Nacional em uma "invenção da Marta".

O editorial "Fúria arrecadatória" (Estado de S.Paulo, 26/12/02) afirma que "… a prefeita Marta Suplicy ainda acha pouco esse festival de alíquotas e multiplicação de impostos. Além de cobrar, pela iluminação pública, mensalmente, R$ 3 de cada residência…".

O editorial "A esperteza da prefeita" (Jornal da Tarde, 5/1/03) bate na mesma tecla: "O IPTU foi apenas o primeiro item do pacotaço de dona Marta, que atacou logo em seguida com as taxas de lixo, de iluminação…". O jornal segue na mesma linha no editorial em "Valores invertidos" (JT; 16/1/03): "… a cascata de taxas instituídas pela prefeita Marta Suplicy, como a de iluminação…"

Outro recurso muito usado, alternativo ao editorial, é o uso de cartas de leitores para exprimir a opinião do jornal. Um bom exemplo é o tal "Fórum de Debates", do Estado de S.Paulo. Quando o tema é o governo Marta Suplicy, de debate o fórum só tem o nome, já que fica todo mundo do mesmo lado ? o do jornal. É o caso da edição de 23/10/01, com 7 cartas, todas criticando a administração municipal. Voltando à taxa de iluminação, cartas e mais cartas foram publicadas atribuindo a criação do imposto à prefeita. É o caso da mensagem do leitor Sérgio Tannuri (Folha, 23/12/02): "É revoltante essa nova investida da prefeita Marta Suplicy … a taxa da iluminação pública…". Outro exemplo é a carta da leitora Satiko Motoie Simmio (JT, 2/1/03): "Marta Suplicy elogia a si mesma … recria a taxa da iluminação pública".

O curioso é que todos os jornais noticiaram a aprovação da taxa de iluminação pública pelo Senado para todo Brasil em suas edições de 19/12/2002 e a posterior sanção do presidente Fernando Henrique. Mesmo assim, publicaram uma série de cartas e editoriais atribuindo o tributo à prefeita Marta Suplicy, sem qualquer tipo de esclarecimento ou informação.

Investimento recorde em educação é ignorado

Foi enorme o destaque dado à taxa citada acima. Idêntico tratamento não foi dedicado, por exemplo, quando a Secretaria Municipal de Educação divulgou, em 29 de janeiro passado, por meio de release e pelo sítio da Prefeitura na internet, seu balanço de investimentos no setor. Em 2002, a Prefeitura de São Paulo investiu mais de R$ 2,47 bilhões em educação (mais de 32% da arrecadação municipal, quando a lei exige 31%). Esse valor supera o orçamento geral de boa parte dos Estados brasileiros, e é a maior soma já investida em educação na história do município de São Paulo. Na manhã seguinte à divulgação do resultado inédito, nenhum jornal publicou uma linha sequer registrando o feito.

Folha de S.Paulo: os dois maiores escândalos até agora

A Folha, ao contrário do Jornal da Tarde, dificilmente deixa transparecer nos editoriais sua postura de oposição à gestão Marta Suplicy. O jornal utiliza-se de outros expedientes, em geral matérias editorializadas e as chamadas "forçadas de barra". Só que a ânsia em atacar a administração petista é tanta que o jornal é o responsável, até agora, por dois dos erros mais grotescos já publicados acerca do governo petista.

O campeão, sem dúvida, é o já famoso "caso das palmeiras". A reportagem "Marta compra planta até cinco vezes mais cara", capa do caderno Cotidiano de 30/6/02, mereceu chamada destacada na primeira página, acima da dobra.

Uma boa forma de entender a gravidade da questão é conferir alguns trechos do texto "Marta não pagou mais por palmeiras" (4/jul/2002), publicado no mesmo Cotidiano, quatro dias depois, também com chamada de capa. Diz o sobretítulo desse texto: "Reportagem da Folha de domingo errou ao afirmar que prefeitura gastou acima de preços do mercado". Íntegra do primeiro parágrafo da reportagem: "A prefeita Marta Suplicy não pagou até cinco vezes mais do que os preços de mercado pelas palmeiras usadas nos projetos de paisagismo da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb). A Prefeitura pagou menos do que o previsto no edital de licitação, ao contrário do que afirmou reportagem publicada na edição do último domingo de Cotidiano".

E segue: "A reportagem errou ao adotar os valores previstos no edital como sendo o preço final de compra. Também houve engano ao se comparar os valores das palmeiras previstos no edital com os praticados pelo mercado, porque foi usado um critério equivocado de medição das plantas. No caso da av. Faria Lima, por exemplo, o governo Marta Suplicy conseguiu comprar palmeiras imperiais por um preço 41,5% inferior ao estabelecido no edital". E por aí vai…

Na mesma edição da admissão do erro, o jornal publicou uma extensa carta assinada por Maurício Faria, presidente da Emurb. Entre os números e argumentos desmentindo a reportagem original, Faria denuncia o comportamento do autor do texto: "Quando fomos ouvidos pelo jornal, a tese central, de sobrepreço, que daria título à reportagem, não nos foi lançada como tal. Se tivesse exposto seus questionamentos à Emurb, dando-nos um mínimo de tempo para checar seus dados e suas premissas técnicas, o jornal evitaria esses erros".

No domingo seguinte (7/jul/2002), o ombudsman da Folha Bernardo Ajzenberg, dedicou sua coluna inteira ao caso. A coluna informa que, segundo avaliação do editor de Cotidiano, o erro foi causado por "confiança extrema nas fontes, análise superficial da documentação e tratamento burocrático do outro lado". Comentário de Ajzenberg: "Perfeito ? com a ressalva de que parece incabível que tais equívocos possam ser cometidos por um jornal que se vangloria de estar na vanguarda, justamente, do cumprimento desses quesitos, em especial do respeito ao chamado outro lado". Também cabe perguntar que fontes são essas, que tanta confiança têm do jornal, e que tanto interesse têm em atacar a Prefeitura de São Paulo a qualquer custo.

Outro trecho da coluna:


"Ocorre que esse recurso [ouvir o outro lado], quando aplicado sem seriedade ou esquematicamente, serve apenas para ?lavar as mãos? e, em última instância, trair a verdadeira investigação jornalística. Constitui-se num auto-engano. Não basta ouvir ou procurar ouvir o outro lado e registrar burocraticamente a posição ou a tentativa de obtê-la. Não basta a um repórter sentir-se satisfeito e aliviado por poder preencher de qualquer forma aquele espaço azulzinho previsto pelo projeto gráfico. Menos válido ainda é o expediente, nada incomum, de ocultar da fonte acusada as idéias centrais da reportagem, destacar-lhe apenas o acessório, dar voltas, de modo a não lhe permitir, objetivamente, uma defesa real, não superficial ou ?burocrática?. Aqui, o feitiço pode se virar contra o feiticeiro". (…) Mais do que isso, como afirma o Manual da Folha: ?O outro lado também pode levar o jornalista a refazer sua apuração, ou mesmo abandonar a notícia, se trouxer uma informação procedente que desminta a perspectiva inicial da reportagem?. O caso das palmeiras é uma evidência de que a Folha maltratou esse princípio. Tivesse ele sido aplicado com clareza e com a devida profundidade, é óbvio que a investigação tomaria outro caminho."


Último comentário sobre o caso: alguém se lembra de outro caso envolvendo outra prefeitura, governo estadual ou federal em que tenha ocorrido "descuido" de tal proporção? Infelizmente, as críticas do ombudsman e as orientações do Manual cedem aos interesses de uma posição "partidária" enrustida e preconceituosa, conforme se verá em seguida.

Falso calote criado pela Folha derruba a bolsa

O segundo caso famoso envolvendo a Folha de S.Paulo é o escândalo do falso calote, que não apenas atingiu a administração Marta como tumultuou a economia nacional por dois dias. Chamada de capa da Folha em 6/11/02: "Prefeitura de SP deixa de pagar R$ 3 bi à União". O Jornal da Tarde foi na mesma linha, porém de forma menos explícita, e sem chamada de primeira página. Logo cedo, rádios e sites começaram a ler a reportagem da Folha e, a despeito dos sucessivos desmentidos da prefeita Marta Suplicy e do secretário de Finanças João Sayad, o dólar fechou em alta, a bolsa em baixa e o chamado risco-país subiu. No dia seguinte, toda a mídia corrigiu a informação, classificando-a de "mal-entendido" e "interpretação equivocada". Tarde demais.

O próprio secretário do Tesouro Nacional do então governo FHC, Eduardo Guardia, afirmou: "Não existe calote, o município de São Paulo está absolutamente em dia com os seus compromissos, e tem pago suas parcelas rigorosamente no prazo. O que a Prefeitura fez foi apenas uma opção prevista no contrato. Não existe nenhum descumprimento de contrato nem flexibilização. Qualquer comparação com o passado [moratória de Minas, em 1999] é descabida".

Nesse caso, o único veículo de comunicação que apontou de forma clara a origem do problema foi o Jornal do Brasil, logo na capa, no dia seguinte ao erro da Folha (7/11/02), sob o título "Boato sobre calote derruba mercado": "A Folha de S.Paulo classificou de calote a opção da prefeitura paulistana…", dizia o texto do JB. Já a manchete do Jornal da Tarde do mesmo dia atribuiu a turbulência à prefeita Marta Suplicy: "Marta dá um susto no Brasil. Foi um engano". O curioso é que a responsabilidade pelo "susto" é do próprio JT, que, ao lado da Folha, publicou texto totalmente equivocado sobre a questão…

Mais uma do ombudsman

A Folha de S.Paulo usou, durante meses, inclusive às vésperas da eleição, o chapéu "PT sob suspeita" sobre todo e qualquer noticiário negativo relacionado ao Partido dos Trabalhadores. Entretanto, no noticiário sobre o empresário Ricardo Sérgio não foi usado o chapéu "PSDB sob suspeita", nem as inúmeras reportagens sobre Maluf trouxeram algo como "PPB sob suspeita". Sobre essa diferença de tratamento, praxe da Folha, escreveu o ombudsman em sua crítica interna de 23/set/2002: "Está errado o título da chamada ?Contratos com PT dão R$ 70 mi a empresário?. Como mostram o texto e a reportagem, os contratos em questão foram feitos com administrações dirigidas pelo partido (São Paulo e Belém), o que, como se sabe, é algo bem diferente. A Folha costuma ser mais rigorosa em relação à precisão nos títulos, ainda mais em casos delicados".

Agora São Paulo: "primo pobre" da Folha segue mesmo caminho

O jornal Agora São Paulo, título do Grupo Folha que disputa o mercado editorial popular e recebe uma quantidade drasticamente inferior de recursos em relação à Folha, normalmente não produz reportagens de impacto sobre a Prefeitura, embora adote a mesma linha editorial do "primo rico". O Agora reproduz diariamente, de forma reduzida, os textos principais da Folha. Sendo assim, publicou também os textos do "caso das palmeiras" (e a respectiva reparação) e o falso calote.

O Agora chamou a atenção, certa vez, com a manchete "Subprefeituras de Marta deixam tudo como antes" (26/8/02). A reportagem, que teve um resumo publicado pela Folha de S.Paulo (invertendo a "ordem natural" dos jornais da família Frias), critica a administração municipal e a prefeita Marta Suplicy porque as subprefeituras, à época, segundo o jornal, apresentavam "os mesmos problemas" que as administrações regionais. Detalhe: a lei foi sancionada em 1? de agosto, ou seja, 26 dias antes da publicação do texto.

Estadão também cerra trincheiras na oposição

O Grupo Estado deixa para o Jornal da Tarde o "serviço sujo" da cobertura sobre a administração. Ou seja, cabe ao JT as matérias mais editorializadas, a marcação cerrada à vida pessoal da prefeita, os editoriais agressivos, as distorções mais sérias etc. Mas O Estado de S.Paulo também deixa claro que não simpatiza com a Prefeitura e, infelizmente, também se utiliza de informações incorretas e distorções para atacar a atual gestão municipal. Uma das práticas é o uso de cartas, conforme já citado anteriormente.

Editoriais forçando a barra para atacar a Prefeitura são comuns no carro chefe da família Mesquita, mas às vezes há erros graves. Por exemplo: no editorial "Um governo regular" (3/7/02), o jornal tece uma série de críticas à administração. Confira um trecho:


"De fato, uma das áreas mais bem avaliadas é a da limpeza urbana, justamente um dos piores serviços prestados pelo governo Celso Pitta. Naquela gestão, o setor foi um escoadouro de recursos públicos, dentro do esquema de corrupção montado na administração municipal. (…) Ao assumir a Prefeitura, Marta Suplicy dispensou o chamado cartel do lixo (…) depois, refez contratos de emergência, dividindo a cidade entre o cartel e duas empresas de fora do grupo. Até hoje a licitação para o serviço não foi realizada e o serviço prestado é apenas regular. Se fosse bom, a cidade não teria sofrido com as enchentes durante chuvas típicas de verão".


Atribuir as enchentes exclusivamente à limpeza das ruas é no mínimo um exagero, mas, de qualquer forma, o "deslize" mais sério foi apontado em carta do secretário de Comunicação, José Américo Dias (6/7/02): "Dizer que até hoje a licitação para o serviço de lixo não foi realizada é falta de conhecimento das ações da Prefeitura. A licitação teve início em 26/9/01 e a ordem de trabalho para as oito empresas vencedoras foi dada para o dia 13/4/02, fato que foi amplamente divulgado pela imprensa". O próprio Estado de S.Paulo publicou, em 16/4/01, a informação de que a licitação havia sido concluída, e até chegou a fazer um balanço dos primeiros dias de trabalho dos novos contratados (aliás, o resultado foi positivo, segundo o jornal).

Supervalorização do Ministério Público

Conforme o afirmado no começo deste artigo, nos últimos tempos O Estado de S.Paulo transformou o Ministério Público Estadual em um verdadeiro salvador da população das "garras" da administração municipal. Nos últimos dias, em quatro ocasiões o jornal colocou o Ministério Público como fiel da balança da administração de São Paulo, ditando políticas e "protegendo" a população. É claro que o MPE tem sua importância reconhecida pela Prefeitura, mas os acordos fechados entre os promotores e a Prefeitura foram utilizados pelo Estadão para insinuar que a Prefeitura não sabe governar. Vamos aos casos:

A reportagem "Acordo com o MPE leva mais 9 mil à pré-escola" (28/1/03) afirma:


"Um inquérito civil público movido no ano passado pelo Ministério Público Estadual levou a Prefeitura a acelerar o ritmo das obras de construção e ampliação de EMEIs (…) Antes da abertura do inquérito e do acordo posteriormente firmado com a secretaria, em abril de 2002, o ritmo de construção de EMEIs na cidade era outro. Em 2001, a Prefeitura havia erguido apenas duas escolas para crianças de 4 a 6 anos ? um acréscimo de menos de 2 mil vagas".


Nesse caso, o repórter tinha a informação, por exemplo, de que a Prefeitura construiu 60 unidades escolares nos dois primeiros anos de governo, quase o mesmo que Celso Pitta entregou em quatro anos ? 80 unidades. O leitor também não foi informado que, somente em 2001 ? ou seja, bem antes do acordo com o Ministério Público ? foram abertas mais de 40 mil novas vagas na rede municipal, sendo quase 13 mil para crianças de 4 a 6 anos.

No dia seguinte (29/1/03), o editorial "Pedagogia dos promotores" piorou a situação. O texto de opinião repetiu os erros da reportagem do dia anterior, e ainda afirmou que "o Ministério Público Estadual, depois de seguidas vitórias na Justiça, conseguiu finalmente obrigar a Prefeitura de São Paulo a cumprir a lei, oferecendo vagas em creches e pré-escolas às crianças". Como se isso não estivesse sendo feito antes, conforme o informado acima. O mesmo editorial diz ainda que "a gestão Marta Suplicy terminou 2001 com a alteração na Lei Orgânica do Município, que determinava aplicação de 30% do orçamento em Educação. O índice baixou para 25%…". Também já informamos nesse artigo, e em diversas cartas a todos os jornais, que o índice foi elevado de 30% para 31%, dado facilmente confirmado no texto da Lei Orgânica do Município.

No mesmo dia deste editorial, a reportagem "Morte expõe descaso com áreas de risco" (Estado de S.Paulo, 29/1/03) usa como gancho 8 mortes ocorridas em um deslizamento de terra no município vizinho de Taboão da Serra para criticar a Prefeitura de São Paulo. O texto afirma que o último levantamento sobre as áreas de risco municipais foi produzido cerca de 10 anos atrás, o que é real, mas afirma também que a Prefeitura, novamente, só se mexeu motivado pelo MPE, o que não é verdade. Diz o texto: "Mesmo assim, o levantamento só começou depois de a administração ter assinado acordo com o MPE…". Acontece que, nesse caso, o acordo foi proposto pela própria Prefeitura, no claro intuito de tornar público e transparente o problema e a discussão da solução para as famílias em situação de risco. Também não foi publicado que a atual gestão já realocou 3.500 famílias que moravam embaixo de viadutos e em outras áreas de risco, e tais remoções começaram em 2001, ou seja, novamente a Prefeitura agiu ? como é seu dever ? independentemente de qualquer iniciativa do Ministério Público.

Jornal da Tarde: o pequeno raivoso

Com a menor tiragem entre os jornais diários que circulam em São Paulo (menos de 50 mil exemplares/dia, segundo o IVC), o Jornal da Tarde é sem dúvida o que faz a mais agressiva e explícita oposição ao governo Marta Suplicy. Seus editoriais freqüentemente são permeados por erros, agressões, ironias e preconceitos contra a prefeita. É o caso de dois textos de opinião já citados acima ? "A esperteza de Marta" (5/1/03) e "Valores invertidos" (16/1/2003) ? e também, por exemplo, do editorial "O Ato Institucional de d. Marta" (8/1/2001), sobre o qual falaremos adiante.

Em geral, todas as reportagens do JT sobre a Prefeitura são editorializadas e acabam servindo de pauta ou "cozinha" para algumas emissões da mídia eletrônica. Há um texto clássico, até hoje motivo de piada entre jornalistas: "Gafes e acordos na visita do prefeito argentino" (5/10/2001), que trata da visita do prefeito argentino Aníbal Ibarra a São Paulo. A "sobremesa" do almoço da prefeita com Ibarra foi o "mau-humor" que o repórter diz ter visto. Em seguida foram à Zona Leste da cidade "passear de helicóptero", "ao invés de percorrer as esburacadas ruas da cidade". Quando a máquina levantou vôo, "Marta não viu a nuvem de pó e barro que deixou de ?presente? para os moradores". Fora essa inédita "nuvem de barro" (!), o mais curioso é que o repórter que assina o texto chegou atrasado ao evento, quando a prefeita já tinha deixado o local. Sobre os vários acordos de cooperação fechados entre as duas cidades, real motivo das visita de Ibarra, escassas linhas no final do texto.

"O Ato Institucional": editorial exemplar do JT

Um dos mais agressivos editoriais do Jornal da Tade foi publicado em 8/10/01, com o título "O Ato Institucional de d. Marta". O texto motivou veemente resposta do secretário do Governo do Município. Vale a reprodução de alguns trechos da carta do secretário:


"De todos os editoriais agressivos e mentirosos sobre a gestão Marta Suplicy, o ?O Ato Institucional de d. Marta? (8/10/01) é, até agora, o mais acintoso. A desinformação ? ou má-fé ? é tanta que seria melhor o jornal assumir logo sua motivação política de combate à atual administração. Como de praxe, também neste caso, os editorialistas do JT escrevem baseando-se em reportagens parciais, reproduzindo erros grosseiros. Vale lembrar que não é a primeira vez que isso ocorre. O editorial ?IPTU enganador? (27/9/01) baseava toda a argumentação na informação absurda de que o aumento na arrecadação do IPTU ?seria bancado pelos 200 maiores contribuintes da Capital?. O erro infantil havia sido publicado originalmente em reportagem de 25/9/01. Nesse caso, o número correto de contribuintes é de 200 mil.

(…) O editorial afirma que a administração quer baixar o percentual obrigatório de investimentos na Educação de 30% para 25%, o que não é verdade. Nunca nenhum membro dessa administração aventou essa possibilidade, e as emendas à Lei Orgânica também não o fazem…".


Agora, trecho da resposta da redação do jornal:


"O secretário do Governo tem razão ao reclamar do ?erro infantil? do editorial ?IPTU enganador?, que atribuiu a 200 contribuintes a cobertura da maior parte do aumento do IPTU. O número correto é realmente 200 mil. (…) O secretário também tem razão quando diz que explicitamente o artigo 131 da nova Lei Orgânica do Município não recria a taxa do lixo, a que se refere o editorial ?O ato institucional de d. Marta?. (…) A interpretação do artigo 208, feita pelo secretário do Governo da Prefeitura, não é consensual. (…) O tom com que foi vazada a carta de Rui Falcão confirma a conclusão do editorial de que o PT tem dificuldade de conviver com o contraditório, essencial na democracia. O JT não faz oposição à atual administração…"


Diário de S. Paulo é o mais isento

É justo registrar que, dos jornais diários de maior circulação na capital, o Diário de S.Paulo é o que tem a linha editorial mais isenta na cobertura das ações da gestão Marta Suplicy. Não que o jornal nunca tenha errado, distorcido informações ou criticado a prefeita em editoriais. É claro que já o fez , mas sempre com mais lucidez do que seus concorrentes, evitando assim desastres editoriais na mesma proporção dos enumerados acima.

Foi o Diário de S.Paulo que reproduziu, por exemplo, em 23 de janeiro último, trecho de uma edição do informativo Além da Notícia, análise diária da Secretaria do Governo municipal que já tratou de todos os textos citados neste artigo. A nota em questão evidencia as diferenças de rigor no tratamento por parte da imprensa frente a prefeita Marta Suplicy e, por exemplo, o governador Geraldo Alckmin. Veja a íntegra:


"Um só pedágio estadual banca as duas novas taxas

A imprensa transformou a taxa de Iluminação Pública e a do Lixo em um tremendo cavalo de batalha contra a gestão Marta Suplicy. Em meio a uma montanha de editoriais, matérias negativas e cartas agressivas, pouco foi dito sobre os motivos, benefícios e, tampouco, sobre o real impacto das medidas. Só para exemplificar: um pedágio da nova pista da Imigrantes custa R$ 9,60. O valor banca as duas novas taxas (R$ 3,50 da luz e R$ 6,14 do lixo). Por motivos óbvios, o governador recebeu tratamento diferenciado ao estipular tal valor. Mais um exemplo: de São Paulo até Indaiatuba (102 km da capital) são três pedágios, totalizando R$ 20 (ida e volta). Ou seja, para passar um final de semana na região do Circuito das Águas, o paulistano paga às concessionárias estaduais mais do que o equivalente a dois meses de duas taxas municipais."


As elites conservadoras locais (dos Mesquitas, Frias e cia.) sofreram um duro revés com a eleição de Marta. E no país todo foram novamente abaladas pela vitória histórica de Lula. Que agora busquem revanche em seus jornalões, entende-se. O que não se admite é fazê-lo de forma encoberta, mascarando seus interesses e utilizando jornalismo de péssima qualidade para tentar enganar o público.

(*) Jornalista, secretário do Governo do município de São Paulo

(**) Jornalista, assessor de imprensa da Secretaria do Governo do município de São Paulo

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