Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > TRÊS FILMES

A imprensa em tela grande

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

TRÊS FILMES

Norma Couri (*)

A imprensa, embora camuflada, é a personagem principal de três filmes recentes. A crítica da mídia está no cinema, para quem souber ver.

Dois desses filmes estão sendo exibidos pela primeira vez na 26? Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. O terceiro já está no circuito. É Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, no qual o narrador Buscapé vai mapeando a violência assustadora da favela, que aumenta na proporção exata da disputa pelo poder dos traficantes. É Zé Pequeno versus Cenoura. E a imprensa fora da favela.

Lá, uma vida não vale nada quando o menino Dadinho brinca de faroeste com uma arma maior do que ele na mão. Uma vida valeria menos que nada para Zé Pequeno se a seu lado não estivesse o moderador Bené. Mas Bené morre na pista de uma discoteca quando decide presentear Buscapé com a máquina fotográfica (naturalmente roubada) que ele sempre sonhou. Zé Pequeno fica solto, arrogante e autoritário. Perigosíssimo. Mas os jornalistas e fotógrafos continuam proibidos de entrar na favela. Até que Buscapé inaugura a carreira de contínuo no Jornal do Brasil e consegue de graça a revelação de filme feito na Cidade de Deus. Assim, quase por descuido, e à revelia de Buscapé, a foto da gang poderosa de Zé Pequeno sai estampada na capa do jornal.

Buscapé julga ter chegado ao fim de seus dias: viraria pó nas mãos de Zé Pequeno assim que pisasse na favela outra vez. Ao contrário, Zé Pequeno gosta da fama e pede mais. É assim que Buscapé registra um pega mortal entre a polícia e a gangue, capta o momento em que Zé Pequeno negocia com os policiais a sua fuga em troca de uma caixa de dinheiro para, em seguida, ser trucidado por um bando de meninos que queria desbancar o antigo líder.

Fatos inéditos registrados, Buscapé avalia seu próprio papel na história e seleciona para publicação a única foto que não o transformaria no próximo cadáver ? desta vez por vingança dos policiais corruptos: o jornal publica, na capa, apenas a foto Zé Pequeno morto. Só que o público ? e o leitor do livro de Paulo Lins ? agora sabe a verdade inteira. A meia verdade é o flashback da notícia veiculada na época por Sérgio Chapelein na televisão. Cidade de Deus deixa claro que a imprensa estampou uma parte da verdade. A outra estava nas entrelinhas, para quem soube ler ou ver.

Frente e verso

O segundo filme é o maior sucesso do cinema mexicano com a versão 2001 do romance do século 19, O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz. Dirigido por Carlos Carrera, o filme expõe a ligação da paróquia de Los Reyes com o narcotráfico, que financia o novo hospital. Está tudo nos seus lugares até que um jovem repórter é destacado para cobrir os escândalos da Igreja, e a história aparece no jornal. O bispo obriga padre Amaro (que tem a promessa do bispo de ir para Roma continuar seus estudos) a desmentir tudo por escrito. O bispo pede ainda a cabeça do repórter, que é generosamente entregue pelo editor. Há quem engole e quem não aceita o desmentido. Há os que sabem ler e os que não sabem ler jornal nas entrelinhas. O bispo consegue, sim, com a ajuda da reportagem, livrar-se do padre incômodo que trabalha numa comunidade rural pobre, aceitando a denúncia de que era um guerrilheiro. As relações sexuais dos padres e o crime decorrente desses encontros amorosos são devidamente ocultos, e solapados pelos fiéis.

O terceiro filme é Fale com Ela, produção mais recente de Pedro Almodóvar. A toureira Lydia termina seu romance com um toureiro famoso e, antes de dar uma entrevista na TV, combina com uma apresentadora tipo Hebe Camargo que não falará de sua vida pessoal. A apresentadora, durante a gravação ao vivo, desrespeita o combinado e expõe a toureira, que se nega a falar e ameaça sair do estúdio. A apresentadora agarra a entrevistada numa mímica cômica do que acontece muitas vezes nesses talk shows. E enquanto a toureira sai do foco da câmera, a apresentadora, de olho no Ibope, revela no ar tudo o que julga saber da vida íntima de Lydia.

A toureira acaba cedendo a um novo repórter do jornal El País que tem comportamento impecável e discreto quando Lydia nega-se a falar de sua vida pessoal. Num desfecho típico de Almodóvar, ela acaba não só revelando tudo como vai morar com o repórter bom caráter. Isso até o jogo virar, chegar o dia do touro e o repórter sair da berlinda. Mas esta é uma outra história.

Nos dois primeiros filmes, fica a lição de que a verdade da imprensa está, muitas vezes, oculta entre a frente e o verso da folha de jornal. Apenas para iniciados. No terceiro filme, que uma imprensa sensacionalista, além de destruir vidas ou pessoas, nem sempre traz a verdade, que deveria ser o objetivo de todo bom jornalista.

(*) Jornalista

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