Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > REVOLTA DAS EDITORIAS

A indiferença dos mais letrados

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

DESAFIO AOS LINGÜISTAS

Amigos, dificilmente se reunirão, numa página de internet, exemplos melhores disso que os Lingüistas Para a Democracia, há eras, tentam mostrar ao Brasil: a arrogância e a indiferença dos mais letrados (pra cima dos menos letrados), o autismo social e político dos supermestres “das letras” e “das lingüísticas” no Brasil; o desespero dos pais de crianças e adolescentes; e o desespero de professores democráticos e democratizantes, de segundo grau, no Brasil. Tudo isso se encontra aqui, nesse debate. Infelizmente, contudo, apenas aqui nesse debate, e em nenhum outro fórum brasileiro, nem “acadêmico” nem pela imprensa, nem nenhum. Ponto pro Observatório.

Mas é claro que não basta o Sr. Sergio Rodrigues sair por aí declarando competências autoproclamadas. Pior, ainda, se a declaração vier pingando veneno e ironias arrogantes, pra cima de mães & pais de família preocupados com o destino do Brasil.

O que interessa ver e fazer ver é que há milhões de brasileiros, no Brasil, hoje, que não são bons leitores de coisa alguma. Quanto a essa evidência, desculpe, Sr. Sérgio Rodrigues, mas não interessam os seus saberes: só interessam os não-saberes dos 98,8% de brasileiros que foram formados como analfabetos funcionais, com a colaboração da universidade brasileira pré-nada dos anos de FHC-FMI (dentre outros anos igualmente arrasadores para a universidade brasileira).

Encontrar modos e meios, por menos bem-educados que tenham de ser, para fazer a lingüística brasileira olhar para o Brasil e pôr mãos à obra é a melhor sofisticação teórica democrática e democratizante de que todos os letrados e iletrados ? professores e alunos ? brasileiros precisamos: a sofisticação do empenho civil e do desejo democratizante de salvar o Brasil para todos e todos os brasileiros para o Brasil. O resto ou é arrogância ou é ignorância ou é safadeza, ou é um pouco de cada uma dessas misérias.

Quanto a legislar-se “sobre língua” ? que ainda se repete que “não existe senão para ortografia” (?!), apesar de todo o planeta já legislar sobre língua (sobre todo e qualquer aspecto de língua que se possa imaginar!), há séculos ?, quem somos nós, brasileiros pobres, para discutir com tamanho poder autoproclamado?!

Para informar-se melhor ? e ver se escapa do rebaixamento ?, visite, por favor, o Sr. Sérgio Rodrigues, a página <http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/, da Universidade Laval, no Québec ? a página chama-se “Legislação sobre línguas, no mundo”. Ali, de graça, todos pudemos aprender o que mais de 200 países têm decidido fazer de e para e pelos seus muitos idiomas locais, sejam nacionais, sejam tribais, sejam línguas históricas, étnicas etc. ? leis sobre língua, sim senhor! ?, no mundo inteiro, há séculos. A página ainda está em francês. Mas estamos trabalhando ? de graça! ? com a Universidade Laval, para traduzi-la para o português. (A tradução está quase pronta.)

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MÁRCIA GOLDSCHMIDT

Aconteceu no programa Hora da Verdade, da Marcia Goldschmidt (se é que se pode chamar aquilo de programa). A produção convidou uma protetora de animais de Ribeirão Pires (SP), Sra. Dolores, que tem 40 animais em casa, a falar sobre eles. No programa ela foi tratada como idiota, foi ridicularizada, seu microfone foi cortado. A Sra. Dolores contou, posteriormente, o que a produção fez com ela antes do programa (relato abaixo enviado pela Sra. Cida Lellis): tentou coagi-la a assinar um documento em que ela dizia ter 200 animais, e não 40. A imprensa coagindo e ridicularizando uma pessoa humilde, que a própria imprensa convidou.

Várias pessoas que assistiram ao programa enviaram cartas de protesto, e a produção mandou uma resposta-padrão (vide abaixo). Infelizmente, nosso povo se compraz com programas deste tipo, e uma parte da imprensa, inescrupulosa, que faz de tudo para aparecer, e as diretorias das emissoras e os patrocinadores, que pagam para que estes programas aconteçam, não se importam em coagir e ridicularizar pessoas.

O Observatório da Imprensa não poderia dar mais destaque à negatividade de programas como estes (Hora da verdade, Ratinho, João Kleber etc?


Alerta contra o programa

—– Original Message —–

From: “Clube dos Vira-Latas” <clubeviralatas@uol.com.br

To: <verdadeirosprotetores@yahoogrupos.com.br

Sent: Friday, December 13, 2002 9:33 AM

Subject: [VP] Hora da Verdade e a protetora Dolores

Gente, estamos indignados e pedimos a ajuda de todos para reclamar!A Dolores me ligou e fiquei pasma. Ela contou que foi pega de surpresa com aquela história dos 200 animais. Disse que antes do programa apresentaram a ela um documento que ela se recusou a assinar, pois era uma declaração em que ela declarava ter 200 animais, serem todos operados das cordas vocais e que os vizinhos todos reclamavam dos bichos. Ela disse que não ia assinar aquilo, porque não era verdade, e então eles corrigiram à caneta o papel, colocando 40 no lugar de 200 e rabiscando a parte que dizia que todos os animais eram operados. Até entrar no programa ela disse que um tal Nei, que parece ser o produtor, ficava tentando convencê-la a dizer que tinha mesmo os 200 animais, e insistindo para xingar os vizinhos no ar. Ela disse que percebia que o microfone dela era cortado toda hora, porque escutava o som da própria voz. Ou seja, só saía o que eles queriam. Ela disse estar recebendo dezenas de telefonemas de pessoas se solidarizando com ela, pois já a tinham visto no Goulart de Andrade e perceberam a diferença. Várias pessoas disseram que ligaram para o programa na hora, e seus telefonemas não foram ao ar. Ou seja, o programa mostrou ser mesmo extremamente tendencioso. Ela disse que ficou com tanta raiva que avisou que não sairia de lá antes de falar com o diretor e que horas depois, quando ele apareceu e ela disse uma porção de verdades a ele, ele pediu desculpas. Ela disse que chegou a passar mal lá dentro, de tanto nervoso. O e-mail do programa é <horadaverdade@band.com.br>. Cida Lellis

Resposta-padrão da produção aos protestos (ipsis litteris)

—– Original Message —–

From: Hora da Verdade

To: Beth Sarmento

Sent: Saturday, December 14, 2002 1:46 AM

Subject: Re: Entrevista com a apresentadora Marcia Goldschmidt

Caro telespectador(a), o caso da Dna. Dolores realmente comoveu a todos nós, só que infelismente, nosso programa é aberto para opiniões por telefone e platéia ao vivo e, algumas pessoas criticaram a atuação da Dna. Dolores. Nós realmente achamos maravilhoso o trabalho dela e ficamos mais felizes ainda por estarmos recebendo e-mails e ligações de várias pessoas querendo adotar animais e ajudar de alguma forma para que essa pessoa maravilhosa continue com esse trabalho lindo. De qualquer forma, nosso programa tem um grande trabalho “por trás das câmeras” e, com isso estamos e esperamos ajudar cada vez mais pessoas como a Dna. Dolores. Todas as opiniões são muito importantes para nosso crescimento. Muito Obrigado por ter entrado em contato com nosso programa. Produção Hora da Verdade

 


REVOLTA DAS EDITORIAS

Bem interessante o artigo. A monomania de assunto é que torna no Brasil todos os jornais e noticiários iguais. Em 1996 estive nos Estados Unidos, passei por diversas cidades da Costa Oeste. Em todas elas lia o jornal local (todas as cidades têm) e também o famoso US Today. O curioso é que nenhum jornal era igual ao outro e todos privilegiavam as notícias locais. Foi durante as Olimpíadas de Atlanta, mas esse tipo de notícia se confinava às páginas esportivas.

Regressando ao Brasil parecia que as Olimpíadas eram aqui. Rádio, TV e jornal só falavam disso da manhã à noite, ininterruptamente. Esportes como pólo aquático, arco e flecha, luta greco-romana, tiro ao alvo e muitos outros que jamais merecem uma linha no noticiário de repente ocupam páginas inteiras. E a cobertura das Olimpíadas de Inverno? Nos leva a crer que somos um país nórdico, coberto de neve por meses. Em compensação ficamos parados na estrada, passamos ao lado de um caminhão-tanque em chamas e ficamos sem a mínima idéia do que aconteceu ao ler o noticiário do dia seguinte.

E, nesse período, política, futebol, economia, cidades e educação, tudo some dos noticiários. Como se o país ficasse parado ruminando o mesmo assunto. Assim é sempre. Na época de eleição é só isso, na Copa é só Copa e agora, tão tradicional como o show de final de ano do Roberto Carlos na Globo, o noticiário sobre o natal e ano novo. Aliás, já sabemos até a pauta: os que comemoram as festas trabalhando, crianças com seus brinquedos novos no dia 25, o primeiro bebê do ano, reportagens educativas sobre os excessos de comida e bebida assim como os acidentes de carros na noite de ano novo.

A imprensa brasileira parece que não consegue se ocupar de vários assuntos simultaneamente. Daí a mesmice dos jornais, repetindo-se uns aos outros, que por sua vez repetem o assunto da noite anterior dos noticiários da televisão. Daí que talvez, os leitores parem de comprar os jornais, pois após o terceiro dia a interminável repetição do assunto atinge o ponto insuportável de saturação, no qual nenhuma novidade existe mais sobre aquele tema, mas que continua sendo repetido, repetido e repetido, como o fiasco do “bug do milênio”, que no fim, existiu só nos noticiários. Assim, a formação do leitor brasileiro é bíblica, pois passa necessariamente pela leitura do Livro de Jó. E talvez a distribuição desse livro como brinde pelos jornais servisse como substituto das panelas. Pelo menos formaria leitores em vez de cozinheiros.

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