Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MARILENE FELINTO

A indignação necessária

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

MARILENE FELINTO

Isabel Rebelo Roque (*)


"Nota da Redação ? Marilene Felinto deixa de ser colunista do jornal em resultado de divergências contratuais." (Folha de S.Paulo, Painel do Leitor, edição de 17 de janeiro de 2003)


O texto acima acima foi tudo ? atenção, leitor: tudo ? o que disse a Folha de S.Paulo a seu público sobre a saída de Marilene Felinto de seu quadro de colunistas. E, mesmo assim, exatamente um mês após a data prometida para seu retorno. A coluna de Marilene, que saía às terças no caderno Cotidiano, não era mais publicada desde o início de novembro de 2002, substituída por um aviso de que voltaria no dia 17 de dezembro. Na edição daquele dia, o aviso mudou: a colunista "excepcionalmente" não escreveria. E assim foi, até que, um belo dia, deixou de aparecer qualquer tipo de nota.

A julgar pelo comportamento da Folha, a intenção parecia ser de que o rastro de Marilene fosse "sumindo na poeira" dos dias.

Aos que enviavam e-mails à colunista, em busca de esclarecimentos, a resposta-padrão:


"Caro leitor, cara leitora.

Meu estilo pessoal de escrever já não cabe na Folha de S.Paulo. Estava entrando em confronto com diretrizes do jornal. Por isso, achei por bem desligar-me do mesmo. Se eu passar a escrever em outro veículo, prometo avisar os interessados. Agradeço a carinhosa atenção que um dia me dispensaram e à qual eu nem mesmo tive tempo de responder. Marilene Felinto."


A verdade é que o estilo pessoal de Marilene nunca coube na Folha. Colunistas ferinos, os há, e muitos, mas ela ia um bocado além do que se possa chamar de ferino. Era freqüentemente chamada de cáustica, rancorosa, amarga, virulenta, racista, sexista. Muitas vezes, a única forma que encontravam de contestá-la era uma vaga acusação de que "falava do que não sabia" (o que equivale a dizer que metia o nariz onde não era chamada). Uma previsível arma usada contra o que ela bradava era insinuar supostos recalques que, no íntimo, carregaria (afinal, se estivesse de bem com a vida não teria por que reclamar tanto…). Um famoso filósofo certa vez referiu-se a ela como "criaturinha enfezada". Um publicitário a acusou de plagiar o artigo de uma colunista de outro jornal ? com base, apenas, na idéia de que duas mulheres, tendo opiniões contundentes ao mesmo tempo, "batata": uma copiou a outra.

Seus artigos costumavam levantar reações díspares: elogios rasgados ou ataques enraivecidos. Lembro-me especialmente de um em que analisava o efeito deformador da televisão sobre as pessoas ? e, o mais grave, sobre a cabeça de futuros jornalistas, fascinados com os ícones globais. Começava em Cabul e chegava a "uma espécie de congresso" a que fora convidada no Recife. O artigo provocou manifestações indignadas de estudantes de Jornalismo nordestinos, que a acusavam de agir como porta-voz do preconceito sulista contra o Nordeste… Ela, que nasceu no Recife.

Silêncio pusilânime

Noutro artigo, Marilene, na espera da ponte-aérea, passava a tecer considerações sobre o corte dos ternos masculinos e sua conveniência como sainhas a protegerem o seu símbolo de poder: o pênis.

Entre os artigos que escreveu em 2002, um em especial deu muito pano pra manga: reproduzia uma conversa com a faxineira, em que Marilene lhe dava toques sobre políticos populistas. E dá-lhe direito de resposta por parte deles, advertências da Folha etc. etc..

E assim ela ia costurando, em seus textos, crítica de comportamento, política, psicanálise. (E enfurecendo cada vez mais gente ? afinal, como no poema de Paulo Leminski, "raros olham para dentro"; olhar para dentro de si e enxergar as próprias mazelas é doloroso demais.) Ia construindo textos caudalosos, cheios de flancos estudadamente oferecidos ao contra-ataque das suscetibilidades feridas. Sua voz desestabilizava, sacudia, por isso era fundamental.

Marilene não é jornalista: é formada em Letras e é escritora. Em entrevista à Caros Amigos, disse claramente não gostar de jornalistas. Talvez por isso tenha sido sempre a estranha no ninho, o avesso, o outro lado, a doida esfarrapada a gritar impropérios aos passantes na rua.

Já muito se falou sobre a função catártica que exercem os loucos nas comunidades humanas. Desgraçadamente, parecemos estar em tempos em que só aos bufões é oferecido esse tipo de espaço ? os da Folha lá estão, nos "cadernos de cultura" e nas revistas dominicais, com espaço e prestígio garantidos. E, sem dúvida, merecem estar lá; cumprem sua função: falam de política, de sociedade, provocam o riso. Mas, a exemplo do velho humorístico de tevê, reeditam a história do "balança, mas não cai"… Não abalam nem ameaçam estruturas. São loucos mansos.

Àqueles a quem, de fato, a realidade enlouqueceu, de tão indigna e patética, aos loucos de pedra que soltam faíscas, aos que tentam acordar a cidade, parecem apenas haver restado as pedradas. E o silêncio pusilânime.

(*) Editora de livros didáticos

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