Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > **

A inside story ausente

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

NOTAS DE UM LEITOR

Luiz Weis

Rola há meses uma briga de foice no governo Lula sobre a
sua política para os transgênicos. Disso, o leitor
em geral sabe que:

** a ministra do Meio Ambiente Marina
Silva tem horror aos transgênicos e o ministro da Agricultura
Roberto Rodrigues não vê hora de sua liberação;

** um grupo de representantes de nove
ministérios chegou ao fim de suas discussões sobre
o assunto sem fechar um acordo;

** em conseqüência, Lula
dará a proverbial "palavra final" a respeito do
projeto que ficou de mandar para o Congresso para ser votado em
regime de urgência (45 dias);

** esse projeto era para seguir 30
dias depois da conversão em lei da medida provisória
de 26 de março passado que legalizou a soja transgênica
plantada clandestinamente, sobretudo no Rio Grande do Sul, com sementes
contrabandeadas da Argentina.

O leitor do Estado de S.Paulo sabe mais. É típico
do jornal quando tem posição vigorosa sobre um assunto
atual (a favor dos transgênicos, contra o MST, por exemplo)
cobri-lo obsessivamente.

Bom para o leitor, sempre que o noticiário seja confiável.

No caso dos transgênicos, o Estado deu um furo na
quinta-feira (21/8), com a matéria da repórter Fabíola
Salvador sobre a versão atual do projeto. "O texto,
que ainda está em discussão na Casa Civil", informa
a matéria, "libera o uso de produtos transgênicos,
mas cria regras específicas mais severas para a sua aprovação
e venda."

Para excitar o apetite

A grande notícia, a se confirmar, é que, por essas
regras, perde poder decisório a CTNBio (Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança), tida pelos desafetos como pró-transgênicos,
e entra em cena, sob o comando da Casa Civil do ministro José
Dirceu, um SINBio (Sistema Nacional de Biossegurança de Organismos
Geneticamente Modificados e Derivados), para executar a PNB (Política
Nacional de Biossegurança), também sob controle da
Casa Civil.

Quando se cobre o processo de decisões na administração
pública pode-se fazer uma coisa ou duas: noticiar o que foi,
está sendo ou provavelmente será decidido; contar
a história por trás da decisão, como se chegou,
ou se está chegando a ela, quem participou do processo em
aliança com quem ou em oposição a quem, qual
a influência das pressões e interesses externos devidamente
identificados e por aí.

Quando o que está em jogo é algo ao mesmo tempo controvertido
e importante, a alternativa mais trabalhosa é a certa, sem
desdouro para quem cumpre direito anterior, a exemplo da reportagem
citada.

Primeiro, obviamente, porque o leitor paga a mídia para
saber como são feitas "as leis e as salsichas"
? se possível a tempo, porque para depois existem os historiadores.
Segundo, porque feita com o fogão ainda aceso, a matéria
pode propiciar a participação da arquibancada. Terceiro,
porque, como se chama aquela revista, seria uma matéria superinteressante.

No conflito palaciano sobre os transgênicos, as partes não
se limitam a falar. Elas fazem coisas mais relevantes, envolvendo
o arranjo, no tabuleiro, das peças sobre as quais têm
controle. Puxam-se e estendem-se tapetes.

O leitor sairia ganhando se tomasse conhecimento do jogo de cadeiras
na CTNBio, envolvendo os representantes dos diversos ministérios
que a integram.

E já que o presidente dará a palavra final no caso,
não basta antecipar qual será essa palavra ? o
que já não é pouco ?, mas como foi que ele
chegou a ela.

O próprio Lula disse recentemente que foi contrário
aos transgênicos por motivos políticos (sem especificar)
e que agora, "cientificamente", tinha dúvidas.
Tradução: o presidente está mudando de posição.

A argamassa dessa mudança devia atiçar o apetite
dos jornalistas, em especial dos que cobrem o pedaço.

Um tira-gosto. Segundo uma versão, no Dia dos Namorados,
12 de junho, o presidente recebeu um grupo de especialistas, na
companhia do ministro José Dirceu. Depois de ouvi-los e sabatiná-los,
teria comentado: "Finalmente, alguém me explicou que
biotecnologia não é só Monsanto".

Alguém se anima a checar?

P.S. ? Materiola de uma coluna na Folha (22/8, página
B 8) informa: "Seis ministérios querem retirar poder
da CTNBio". Faltou dizer quais são.

 

Do Estado de 21/8, página A 14: "Um grupo de
cientistas da Universidade de Cambridge descobriu que a espécie
de verme Xenoturbella, que em latim significa "platelminto
pouco comum"?

 

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