Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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A inteligência e os embustes virtuais

Por lgarcia em 05/06/2000 na edição 91


“A ameaça do ?buraco negro? da ciência e tecnologia”, copyright Valor, 31/5/00

Não é novidade o fato de que os EUA são hoje o maior pólo de produção científico-tecnológica do planeta e, como conseqüência, acabam atraindo os melhores talentos de todas as partes do mundo. Dotados de uma notável infra-estrutura de pesquisa nos setores público e privado, os EUA provocam no resto do mundo o fenômeno conhecido como brain drain: a ?drenagem? de gênios. Aspecto menos conhecido do grande público é o fato de que, além de serem o maior pólo de atração de grandes cérebros do globo, os Estados Unidos são também o país que mais capta investimentos estrangeiros em pesquisas e desenvolvimento (P&D). Há, portanto, no setor de ciência e tecnologia dos EUA, um duplo movimento: de atração de recursos humanos e de atração de capitais. A massa crítica e os recursos acumulados, combinados com a estrutura de pesquisa disponível e um gigantesco mercado interno, geram um extraordinário círculo virtuoso, que exponencia a produção de conhecimento e torna o país incontrastável em sua capacidade de inovar. É um verdadeiro ?buraco negro?, que atrai impiedosamente o melhor da ciência e da tecnologia de todas as partes.

Estudo publicado no ano passado pelo Departamento do Comércio mostra que os investimentos em P&D realizados por empresas estrangeiras nos EUA triplicaram entre 1987 e 1997. Ao final de 1998, essas empresas estrangeiras eram proprietárias de 715 centros destinados à P&D nos Estados Unidos. O Japão é o país com o maior número centros de P&D: 251 unidades em 1998, seguido pela Alemanha (107), Reino Unido (103) e França (44). Empresas estrangeiras conduzindo trabalhos de P&D nos Estados Unidos empregam hoje de 120.000 trabalhadores. A Suíça e Alemanha são os países que mais gastam com P&D nos EUA (US$ 3,3 bilhões de 1997), seguidos pelo Japão (US$ 3,2 bilhões) e Reino Unido (US$ 3,1 bilhões). O aumento súbito dos investimentos estrangeiros em P&D resultou das diversas aquisições por empresas estrangeiras de empresas norte-americanas dos setores farmacêuticos e biotecnologia com orçamentos altos para P&D. As indústrias estrangeiras com maior número de instalações de P&D nos Estados Unidos são as de medicamentos e biotecnologia (116), química e borracha (115), programas de computador (54), equipamentos médicos e instrumentação (53). As empresas japonesas possuem o maior número de centros de pesquisa nos setores automotriz e eletrônico. Em linhas gerais, as empresas estrangeiras promovem a realização dos investimentos em P&D nos EUA para (a) auxiliar as matrizes a se ajustar e atender as necessidades do consumidor norte- americano, (b) manter-se informadas sobre as inovações tecnológicas desenvolvidas no país, (c) ter acesso a cientistas e engenheiros norte-americanos e (d) cooperar com outras instituições norte-americanas de P&D.

Para países como o Brasil, que possuem uma comunidade e um parque científico respeitáveis , bem como um acervo de conquistas autônomas em áreas sensíveis como a biotecnológica e a aeroespacial, não há uma respostas unívoca aos desafios apresentados pela força centrípeta do ?buraco negro?. Trata-se, por um lado, de promover com afinco ? na linha das medidas recentes criadas pelo MCT e pelo MEC para a criação dos fundos setoriais ? as condições para o continuado florescimento da pesquisa científica no Brasil e, por outro, de buscar formas de interação e cooperação com os núcleos dinâmicos da pesquisa científica e tecnológica norte-americana. A tendência apontada pelo estudo é clara: o setor privado dos países desenvolvidos aplica recursos nos EUA em razão da racionalidade gerencial da operação, em termos de custos e de resultados. Há evidentemente ganhos para os que assim procedem.

Considerando a importância do mercado norte-americano para as exportações brasileiras, bem como o grau de sofisticação do setor produtivo brasileiro, é importante que o setor privado nacional tome conhecimento da tendência dos investimentos estrangeiros em P&D nos EUA para que a considere na formulação de suas estratégias de penetração em mercados internacionais. Oppenheimer declarou ao final da II Guerra Mundial que 90% dos sábios que a humanidade produziu estariam vivos, sendo que ao menos a metade deles se encontrava nos EUA. A alusão do cérebro físico evidencia que há uma inegável e indissociável relação entre poder e conhecimento. E, portanto, do ponto de vista de interesse público, não se pode acreditar numa suposta neutralidade do saber científico. Nesse momento histórico de mudança de paradigma tecnológico, em que as políticas públicas de ciência e tecnologia foram alçadas para o mesmo plano de prioridade das políticas econômicas, cabe aos agentes governamentais, em conjunto com a sociedade, refletir sobre as variáveis em jogo e decidir o melhor rumo para a definição de nosso interesse nacional. [Philip Yang é diplomata atualmente em missão na Embaixada do Brasil em Washington D.C.]”

 

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