Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A lambança do New York Times

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

Se quisesse, o democrata Al Gore poderia agora deitar e rolar com este erro do New York Times. Na fase crucial da crise, o então pré-candidato republicano George W. Bush aderiu ao coro conservador. A política do presidente Clinton para a China, disse, é "um fracasso". E foi além: "A China é nossa rival, e uma rival que não partilha nossos valores, mas infelizmente partilha muitos de nossos segredos nucleares". Humilhado várias vezes pela mídia por sua economia de conhecimento nas questões internacionais, Bush falou demais. O vice-presidente Gore disse na época à CNN que o roubo de segredos nucleares, se ocorreu, foi em governos anteriores, e que Clinton não mudaria sua política de cooperação com Pequim, "a melhor via para democratizar a China e abrir seus mercados".

Segredos de polichinelo

As conseqüências portanto da matéria do NYT não foram poucas. As desculpas do jornal no editorial de 26/9 nem de longe levam em conta tais estragos. Parecem contritas, mas limitam-se ao desastre pessoal sofrido pelo cientista Wen Ho Lee. "Esta confusão – e os riscos envolvidos, a liberdade e a reputação de um homem – nos convenceu de que uma prestação de contas é necessária", disse o jornal. Garantiu que verificou exaustivamente as informações da matéria, com múltiplas fontes criteriosamente avaliadas, "apesar dos enormes obstáculos impostos pelo silêncio oficial e os esforços do governo para identificar as fontes do Times". Curioso: o editorial critica esses "enormes obstáculos impostos pelo silêncio oficial", mas em 24/9 a porta-voz do jornal, Kathy Park, recusou-se a dar a Sérgio Dávila, da Folha de S.Paulo em Nova York, informações sobre a posição delicada do Times após a libertação do cientista. Ela disse que o jornal falaria, se falasse, em suas próprias páginas. Dois dias depois, saiu o editorial.

Chama atenção a interpretação quase generosa, neste editorial, do "tom" da matéria de Jeff Gerth – 23 anos de Times, um Pulitzer na bagagem –, conhecido "caçador" dos Clinton. Foi ele que deu repercussão nacional, também no NYT, mas em 1992, ao caso Whitewater, sobre falcatruas imobiliárias de Bill e Hillary Clinton no Arkansas, processo arquivado em setembro por falta de provas. "Ocasionalmente usamos linguagem no mesmo tom alarmista de alguns relatórios oficiais", disse candidamente o editorial. "Embora esta caracterização tenha sido acuradamente atribuída a ‘funcionários e congressistas, especialmente republicanos’, tais observações deveriam ter sido, no mínimo, contrabalançadas com visões mais céticas dos que duvidavam das acusações contra o Dr. Lee." Trecho bonito…

Feia, no entanto, foi a explicação sobre a principal fonte de Gerth na matéria. Faltou, disse o texto, "um olhar mais atento sobre Notra Trulock, o funcionário da inteligência no Departamento de Energia que fez soar os alarmes mais estridentes sobre a espionagem chinesa; e uma exploração dos vários suspeitos que os investigadores federais deixaram de lado em favor do Dr. Lee". Trulock não era um funcionário. Era o chefe do serviço de inteligência do Departamento de Energia. Que por acaso cultivava ódio antigo aos chineses. Então o Times precisava de um "olhar mais atento" para perceber o perigo de tal fonte?

A China, embora prejudicada em seus objetivos comerciais mais urgentes, tratou tudo com desprezo. "Essa tecnologia tão secreta está disponível para qualquer interessado, livremente publicada nos Estados Unidos", disse o porta-voz do governo chinês, Zhao Quizheng. "O poder destruidor, as dimensões e outros detalhes de sete tipos de armas nucleares são abertos para consulta em bibliotecas dos EUA e na internet; não há qualquer segredo, logo não há o que roubar." E citou nominalmente entre os tais sete tipos a mais sofisticada ogiva nuclear americana, a W-88 – cujos segredos, segundo o NYT, Lee teria roubado nos anos 80, tendo sido descoberto apenas em 1995. A George W. Bush, o sempre sarcástico Zhao pediu juízo no trato das questões internacionais. Ouvido então pelo Washington Post, John E. Meredith, diretor-gerente da Hutchison Whampoa, afirmou secamente que não havia chineses entre os 500 empregados já contratados para operar a partir de janeiro os dois terminais do Canal do Panamá. "Somos uma empresa comercial que responde apenas aos acionistas", afirmou. "Cooperamos com governos no mundo inteiro, mas não servimos como frente ou ferramenta de qualquer um deles."

Futuro do pretérito

É bom que fique claro não há mocinho nesta história. O bom convívio entre as duas principais potências militares do mundo é um anseio de qualquer cidadão sensato. Para muitos analistas, o relacionamento EUA-China será o ponto nevrálgico da agenda internacional no próximo século. Afinal, a China tem 1,3 bilhão de habitantes e uma economia fadada ao crescimento – para não mencionar seu poderio militar, por enquanto obsoleto, mas em processo de modernização. Credenciais suficientes para poder competir com os Estados Unidos – e melhor que seja no comércio e outras perfumarias. Chega a espantar que os diplomatas americanos, normalmente portas insensíveis, tenham recomendado esta "parceria estratégica construtiva". E é preocupante que um jornal sério como o Times tenha tentado retardá-la.

Pelo menos é o que se depreende da "revisão interna" confessada no editorial de 26/9. "Encontramos coisas que, se tivéssemos feito de modo diferente durante a cobertura do caso, teriam dado ao Sr. Lee o completo benefício da dúvida. Deveríamos ter alertado sobre as debilidades das acusações do FBI contra Lee." Por fim, o crème de la crème das desculpas: "Enviamos uma equipe de repórteres, incluindo os que revelaram o caso, para novas reportagens, com base em fontes e documentos que não foram previamente avaliados. Nossa cobertura sobre este caso não está encerrada".

Quer dizer que depois do estrago o New York Times vai apurar a matéria? Igualzinho a qualquer pasquim do Terceiro Mundo? Citando Alberto Dines em "Teoria e prática do denuncismo" [ver remissão abaixo], cabe perguntar: a função do jornalismo é fazer barulho ou esclarecer? Aqui, erros da imprensa têm prejudicado pessoas e carreiras. Mas é óbvio que quanto maior o prestígio do jornal, maior o poder de destruição. Na principal potência do planeta, o Washington Post fez tudo certinho e derrubou um presidente. O Times poderia ter provocado pelo menos umas duas guerras.

Ainda bem que esbarramos num futuro do pretérito.

Leia também

Teoria e prática do denuncismo – Alberto Dines

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