Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A lógica do bumerangue (*)

Por lgarcia em 20/05/1998 na edição 45

Lira Neto, ombudsman de O Povo

 

N

a coluna da semana passada (“Somos todos corruptos?”), questionei o fato de alguns colegas jornalistas acumularem a dupla função de repórter e assessor de imprensa de políticos, empresas e instituições. Citei alguns exemplos no mínimo delicados, que podem ser constatados à luz do dia na imprensa cearense: o colunista – de um jornal concorrente – que trabalha também na assessoria de um pré-candidato a governador nas próximas eleições. Repórteres de polícia que são funcionários da Secretaria de Segurança Pública. Soube que aquela coluna do ombudsman provocou um oportuno debate interno na redação do O Povo. Recebi de lá, no meio da semana, algumas manifestações de apoio e outras tantas de discordância. Entre as reações, os telefonemas de dois colegas que queriam fazer um contraponto incisivo a meus comentários.

Um deles questionou inclusive o fato do próprio ombudsman ter recentemente ingressado na Universidade Federal do Ceará como professor substituto. Segundo o colega, isso comprometeria também a isenção e a imparcialidade do meu trabalho. Pela lógica do bumerangue, portanto, o ombudsman estaria também servindo a dois senhores: à Universidade e ao O Povo. E, assim, cometendo os mesmos pecados que denunciava na coluna da segunda-feira passada.

Nada me parece mais despropositado do que comparar o trabalho de assessoria de imprensa com o exercício da reflexão acadêmica. Mais que isso, sempre entendi que a função de ombudsman e o magistério, longe de se conflitarem, seriam complementares. Atividades, aliás, que se enriqueceriam mutuamente. Afinal, a Universidade é justamente a matriz da sistematização do conhecimento e da consciência crítica. Ingredientes absolutamente necessários à função de ombudsman, que tem, antes de qualquer coisa, uma motivação nitidamente pedagógica.

De qualquer modo, para que não pairasse nenhuma dúvida sobre os procedimentos e motivações do ombudsman, submeti à Chefia de Redação o pedido para que fosse feita uma apreciação formal em torno da discussão levantada pelo telefonema do colega. Pedi então uma posição oficial do jornal a respeito. Pouco tempo depois, recebi o retorno. Contrariando a minha argumentação, a Chefia de Redação compreendia que haveria “incompatibilidades” entre a tarefa do ombudsman e a atividade de professor substituto do Curso de Comunicação Social da UFC.

Mas, como o cargo de ombudsman é fruto de uma indicação direta da Presidência da Empresa Jornalística O Povo, recorri ao veredicto final de Demócrito Dummar, nosso presidente. A sugestão da consulta havia sido da própria Chefia de Redação, que, por uma questão de hierarquia, entendia ser realmente aquela a instância competente para analisar o caso. Fiz a consulta e fui informado pelo telefone, na última sexta-feira, feriado de Primeiro de Maio, que a Presidência do jornal julgava não haver qualquer impedimento legal ou ético no fato do ombudsman contribuir com a formação de futuros jornalistas, estudantes de Comunicação na Universidade Federal do Ceará.

No entanto, a Presidência do O Povo sugeria que seria fundamental o apoio e o exemplo pessoal do ombudsman à consolidação de uma política interna de exclusividade de nossos jornalistas. Uma política que estaria sendo implantada nos últimos dois anos, e que teria o objetivo de evitar que os repórteres contratados desde então mantivessem vínculos empregatícios com outras fontes. Já os casos antigos de duplo emprego na Redação “estariam sendo analisados caso a caso e, a partir disso, resolvidos a médio e longo prazos”.

Informei que, como funcionário do jornal, teria que acatar sem maiores problemas a indicação implícita na argumentação da Presidência. É assim que, nesta semana, estou comunicando à coordenação do Curso de Comunicação Social, da UFC, que renuncio oficialmente à vaga de professor substituto, conquistada por concurso há pouco mais de um mês. O jornal e os leitores terão pois exclusividade da parte do seu ombudsman, ainda que a própria Presidência reconheça que não há incompatibilidade ou qualquer impedimento ético no casamento do exercício do cargo com a atividade acadêmica.

Mas comuniquei também que me permitiria então cobrar aqui, publicamente, o compromisso de que todos os colegas em situações eticamente complicadas façam o mesmo em relação a suas assessorias de imprensa. E que os casos mais visíveis dentro da Redação do O Povo sejam analisados e resolvidos com toda urgência que a situação requer. Em tempo: o nosso Guia de Redação é taxativo. Ele diz que não é permitido a jornalistas do O Povo acumularem a função de assessores de imprensa de áreas afins a que atuam no jornal.

(*) Copyright O Povo, 4/5/98.

 


Lira Neto, ombudsman de O Povo

“O silêncio não fala, o silêncio significa”
(Eni Puccinelli Orlandi, em As Formas do Silêncio)

 

S

exta-feira passada, O Povo trazia pequena notícia sobre a prisão de três assaltantes pernambucanos em Fortaleza. A notícia, no entanto, silenciava sobre uma informação básica: o local da prisão dos três assaltantes. O que poderia parecer apenas uma falha técnica, chamou a atenção de alguns leitores pelo fato da prisão e da perseguição policial terem acontecido, na verdade, dentro de uma grande loja de departamentos, a Mesbla, em pleno shopping Iguatemi.

O leitor Paulo Alvarez, que se encontrava no interior da loja no momento da prisão dos assaltantes, foi testemunha do pânico que tomou conta dos clientes. Policiais armados perseguiam os bandidos, que, na fuga, atropelavam pessoas e derrubavam mercadorias pelo chão. No dia seguinte, depois de ler a matéria do O Povo, o leitor ligou para o ombudsman. Perguntava se o silêncio e a ausência de informações sobre as circunstâncias e o local do episódio teriam sido provocados por alguma espécie de “censura econômica”.

Não é a primeira vez que ocorrências policiais no Iguatemi deixam de ser noticiadas pela imprensa local. Como existiam precedentes, consultei a Chefia de Redação para saber os motivos da nova omissão. O comando da Redação afirma que não houve qualquer interferência para suprimir da notícia a informação sobre o local onde ocorreu o fato. Segundo a editora de Cidades, Tânia Alves, o texto já chegou às suas mãos, repassado diretamente pelo repórter, sem aquela informação.

Estaríamos portanto diante do pior tipo de cerceamento da informação: a autocensura. A técnica de supressão de informações é uma violência. Extrair da realidade apenas uma parte dela, sonegar a divulgação de fatos, maquiar a forma como eles irão ser repassados à sociedade, tudo isso significa manipular a opinião pública através do silêncio, tentar moldá-la a partir de intenções inconfessáveis. E, quando o jornalista trata de fazer o papel de censor do próprio texto, isso pode ser um sintoma de que a subserviência ao poder político e econômico está se institucionalizando.

Em tempo: os dois concorrentes locais do O Povo também não informaram que a prisão dos assaltantes pernambucanos ocorreu no Iguatemi. Um dos concorrentes fala apenas que o fato aconteceu em “um shopping”. O outro, nem isso.

A resposta da Redação

Peço a compreensão dos leitores por ter que reproduzir abaixo uma longa nota enviada pela Chefia de Redação, na última sexta-feira, ao ombudsman, com a solicitação expressa de que ela fosse publicada aqui, na íntegra. Diz a nota:
“Em sua última Coluna (4/05), o ombudsman do O Povo anunciou que renunciaria à vaga de professor substituto da UFC diante do fato de a Redação ver “incompatibilidades” entre as funções. Ele comentava que, embora a Presidência da empresa não visse impedimento legal, teria sugerido que o exemplo pessoal do ombudsman seria fundamental à consolidação de uma política de exclusividade dos jornalistas do O Povo. Sobre isso, a Chefia de Redação esclarece: O ombudsman deveria ter consultado a Presidência da empresa – já que sua indicação para a função é feita diretamente pelo presidente – antes mesmo de ter feito a inscrição no concurso da UFC. Afinal, há menos de dois anos, quando o atual ombudsman Lira Neto era um dos integrantes da Chefia de Redação, O Povo passou a adotar uma postura com o objetivo de evitar que profissionais da casa acumulassem funções de assessoria e outros trabalhos afins à função por eles desempenhada na empresa. A medida vem sendo efetivada através da análise dos casos já existentes e do bloqueio de possíveis novos casos. Na época, o atual ombudsman, então editor-assistente, participou de decisões para promover essas alterações. Os profissionais foram informados de que qualquer outra nova função fora da empresa somente seria assumida se antes avaliada pela chefia. A Redação, em nenhum momento, questiona o Magistério como atividade complementar, mas entende que, em determinadas funções de reflexão ou de estratégia, o profissional não deve servir a dois senhores. Exemplo: em caso de greve da UFC, como agora, o jornalista Lira Neto comentaria a cobertura deste jornal como ombudsman do O Povo ou como professor da UFC? Como, neste caso, separar um profissional do outro? O próprio ombudsman cita o Guia de Redação e Estilo na sua coluna da última semana para comentar o acúmulo de funções de jornalistas. Mas, não mencionou uma parte do verbete “Profissionais do O Povo“, da página 77. Diz o trecho: “Atividades acadêmicas e colaborações jornalísticas são admitidas, a juízo da Chefia de Redação, desde que possam ser compatibilizadas com o trabalho no O Povo”. No entendimento da Redação, como o ombudsman é profissional da empresa deveria adotar a mesma conduta prevista no Guia. Chefia de Redação do O Povo.

Inconsistência

As inconsistências da nota assinada pela Chefia de Redação são evidentes e falam por si. Mas vale dizer que, de fato, há cerca de dois anos, quando era editor-assistente, empenhei-me na tarefa de fazer com que nossos repórteres não “acumulassem funções de assessoria e outros trabalhos afins à função por eles desempenhada na empresa”. Justamente por isso, sinto-me absolutamente à vontade para continuar a fazê-lo agora, como ombudsman. A nota da Redação argumenta que “a medida vem sendo efetivada através da análise dos casos já existentes e do bloqueio de possíveis novos casos”. É incômodo constatar que, dois anos depois, apesar de tais “análises”, a Chefia de Redação ainda permite que os mesmíssimos casos continuem ocorrendo.

A nota é, além de tudo, contraditória. Surpreendentemente, diz agora que “a Redação, em nenhum momento, questiona o Magistério como atividade complementar”, mas continua sugerindo que, como professor do Curso de Comunicação da UFC, contribuindo com a formação ética e profissional de futuros jornalistas, o ombudsman estaria “servindo a dois senhores”.

Após o que expus na coluna da semana passada, considero esgotada a discussão sobre um suposto impedimento ético em relação ao fato de o ombudsman desempenhar a função simultânea de professor universitário. Como já afirmei, o exercício da reflexão acadêmica e o cargo de ombudsman não se excluem, na verdade se completam.

O exemplo dado pela nota é, no mínimo, capcioso. A Chefia de Redação indaga se, no caso da greve das universidades federais, eu comentaria a cobertura deste jornal como ombudsman do O Povo ou como professor da UFC. Repudio, com veemência, a insinuação embutida em tal exemplo. Não compete ao ombudsman manifestar opiniões sobre a greve, concordando ou não com ela. Uma análise técnica do ombudsman, em relação à cobertura do O Povo sobre o assunto, seria circunscrita aos procedimentos jornalísticos contidos no material publicado. Pelo mesmo raciocínio falacioso expresso na nota, o ombudsman então também estaria impedido de ser católico, torcer pelo Flamengo, possuir título de eleitor, ter convicções ideológicas próprias. Como separar o ombudsman de suas circunstâncias?

Lamento, por fim, que a Chefia de Redação tenha tangenciado as cobranças do ombudsman, quando o eixo central da discussão era o fato de alguns de nossos repórteres serem também assessores de imprensa de políticos, empresas e instituições. A Chefia de Redação perdeu uma excelente oportunidade de vir a público para anunciar atitudes concretas em relação ao verdadeiro problema, inclusive discutindo a questão sob o enfoque de uma política de salários compatíveis com a exigência da exclusividade profissional. Seria talvez o mínimo que os próprios repórteres da Redação poderiam esperar em tal situação. Assim, o ombudsman continuará cobrando do jornal uma solução imediata e definitiva para o caso. O que não pode é continuar valendo, na Redação do O Povo, uma regra de dois pesos e duas medidas.

(**) Copyright O Povo, 11/5/97

 


(***)

“Repito, logo provo”
(Técnica de persuasão citada pelo comunicólogo Lucien Sfez)

 

U

m dos vícios mais incorrigíveis da imprensa é o chamado “jornalismo declaratório”. Ele ocorre quando o repórter limita-se simplesmente a reproduzir, acriticamente, sem nenhum questionamento, as afirmações dos entrevistados. Assim, os jornais passam a ser simples caixas de ressonância de interesses particulares. O jornalista se deixa usar pelas fontes – oficiais ou não – muitas vezes para divulgar informações incompletas, índices estatísticos escorregadios, meros balões de ensaio.

É certo que a rotina das redações é estressante. O trabalho do jornalista é uma luta permanente contra o relógio. A pressa, eterna inimiga da perfeição, é justamente o maior fator de desgaste e o caminho mais curto para o erro e para a imprecisão. Na maioria das vezes, a falta de tempo é a principal responsável por matérias mal apuradas e, em última análise, pelo jornalismo declaratório. O que não deve servir de desculpa para que se institucionalize o comodismo e a ausência do senso crítico. É preciso tomar o cuidado de nunca baixar a guarda.

Pernas curtas

O leitor Lucas Júnior chama a atenção do ombudsman para o que ocorreu no O Povo, na quinta-feira que antecedeu o Dia das Mães. Um exemplo claro de jornalismo declaratório. Naquele dia, o jornal publicava uma matéria com o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Iran Ribeiro. Em pleno tempo de vacas magras no comércio varejista, o presidente da CDL afirmara ao O Povo que no sábado, dia 2 de maio, o número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) teria aumentado 30%. O jornal endossou a afirmação de que tal índice seria um indicativo de maior intenção de compra por parte do consumidor para aquele Dia das Mães.

Só que o repórter não trabalhou com dados concretos que comprovassem aquele otimismo expresso nos 30% de expectativa no aumento das vendas. Não solicitou à CDL – ou não publicou – os- números absolutos. Não se preocupou nem mesmo em informar o período a que se referia o índice.

Seriam 30% em relação ao Dia das Mães do ano passado? Em relação à última semana? Ao último mês? Ao sábado anterior? Na verdade, o repórter contentou-se em reproduzir a declaração do presidente da CDL, criando uma sinalização artificial no mercado. Fez jornalismo declaratório, encarnando o papel de mero porta-voz das expectativas da entidade lojista. O jornal engoliu a falha técnica e tratou de ampliá-la: a matéria foi manchete de página interna e acabou recebendo um bom destaque na primeira página. Passado o Dia das Mães, os números reais vieram à tona. Em vez do alardeado aumento de 30%, constatou-se a queda real de 31% nas vendas em relação ao ano passado.

O Povo alimentou uma ficção. Mas, nesse caso, o tal jornalismo declaratório mostrou que, às vezes, tem pernas bastante curtas.

Troca de gentilezas

Grandes empresas descobriram que não é preciso mais comprar espaços publicitários para ter seus produtos e lançamentos anunciados com destaque nos jornais. Atualmente, elas preferem utilizar uma outra tática. Basta pagar viagens para jornalistas, oferecer-lhes hospedagem durante poucos dias em hotéis de luxo, pagar-lhes todas as despesas com alimentação, empurrar-lhes alguns folhetos coloridos e pronto. É só esperar o retorno, líquido e certo.

Foi o que fez há poucos dias, por exemplo, a Peugeot do Brasil. A empresa pagou a viagem de um repórter do O Povo a São Paulo. Na segunda-feira da semana passada, dia 11 de maio, O Povo publicava uma matéria de meia página, com direito a manchete interna do caderno de Economia, que era uma verdadeira apologia à Peugeot. “Peugeot vai abrir concessionária no Ceará”, dizia o título da matéria, que, de tão entusiasmada, mais parecia um press-release. Mas nada sobre o número de empregos diretos e indiretos que seriam gerados pela suposta concessionária em Fortaleza, nenhuma linha sobre a estimativa da empresa em torno do mercado cearense. Nenhum jornalismo. O texto de abertura da generosa matéria-anúncio dizia que “a Peugeot promete instalar a primeira revendedora no Ceará”. Nem isso era verdade. No dia seguinte, o jornal teve que fazer uma retificação. Desde 1993 a marca francesa já possuía uma revendedora no Ceará, que por sinal havia acabado de fechar as portas. A retificação informava ainda que “a Peugeot do Brasil está em negociações com empresas cearenses do setor automobilístico objetivando ter uma nova revenda em Fortaleza”. Ficou evidente que a matéria do O Povo serviu como um empurrãozinho providencial para ajudar tais negociações.

Jornalismo acrítico

Há três semanas, o então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, Cláudio Pereira, declarou ao O Povo, no caderno Vida & Arte, que dinheiro não era problema para sua pasta. Na ocasião, Pereira descartou inclusive que a não-realização do tradicional Salão de Abril se devesse à falta de recursos. Pelo contrário, afirmou que estava recebendo todo o apoio financeiro da parte do prefeito Juraci Magalhães (PMDB).

O Povo recorreu, mais uma vez, ao jornalismo declaratório. Não pediu números a Pereira. Não cobrou o orçamento da pasta, não investigou quanto o prefeito destinara ao evento. Na semana passada, Cláudio Pereira renunciou à presidência da Fundação. Saiu alegando, justamente, falta de verbas. Disse, por exemplo, que dos 100 mil reais necessários à realização do Salão de Abril, a Prefeitura só tinha colocado 10 mil à sua disposição. Ao noticiar a renúncia de Pereira, na última terça-feira, dia 12 de maio, O Povo não se preocupou em confrontar os dois discursos do ex-presidente da Fundação Cultural de Fortaleza. Só o fez na quarta-feira, 13 de maio, depois de provocado por comentário interno do ombudsman.

(***) Copyright O Povo, 18/5/98.

 

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