Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNAL PESSOAL

A liberdade em férias

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181

JORNAL PESSOAL

Angelo de Souza (*)

Julho no Pará é mês de recessos. O país ao sul curte o inverno, enquanto próximo ao Hemisfério Norte o verão impera. Quem pode, ?some? em direção às praias de rio e mar. Quem é procurado pode não ser encontrado.

Nesta sexta 12/7 circulou em Belém o número 289 ? o último ? do Jornal Pessoal, editado ininterruptamente pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto durante 14 anos e 10 meses. Nunca no Brasil uma publicação alternativa viveu tanto.

Redigido a duas mãos ? as de Lúcio, apenas ?, o JP era o jornal mais respeitável do Pará. Nele o dono exercia não só a liberdade de empresa, mas a de imprensa em seu mais alto grau.

O JP não trazia publicidade. A um empresário admirador que insistia em anunciar, Lúcio pediu que esperasse pelo número seguinte: nele, o empresário leria depois, vinha uma denúncia contra a anunciante potencial.

Os custos de impressão e distribuição do JP ? oito páginas em papel branco formato A4 ? eram cobertos pela venda em banca, por R$ 2 cada, dos 2 mil exemplares quinzenais. Eram: Lúcio Flávio já começava a ter prejuízo com a publicação.

O JP sai de cena sem deixar credores, só devedores. Poderosos, coleguinhas, estudantes, desafetos, leitores de toda espécie reconheciam no independente uma obrigatória fonte de informação e de formação de opinião. Fonte tanto mais necessária quanto menos confiáveis tornam-se os demais veículos, por onde o premiado Lúcio Flávio passou e deixou a marca do seu inconformismo, da sua inadaptação aos esquemas da informação- mercadoria.

Férias de julho?

Vai fazer falta nas bancas. Mas, nas bibliotecas e coleções particulares, continuará a ser consultado, por conter, em fascículos, a síntese histórica ? feita a quente, como é do bom jornalismo ? desta Amazônia de muitos para poucos.

Para levar aos amazônidas a notícia da região que os meios de comunicação locais regateiam, Lúcio abriu mão de uma carreira metropolitana e optou pelo Pará. Cabano descalço, aposta na libertação da colônia. Quixote fidalgo, luta contra moinhos de vento. Se não venceu, ainda não foi derrotado.

O profundo conhecimento das questões amazônicas, a memória prodigiosa, a capacidade analítica singular, o estilo inconfundível, tudo isso continua à disposição dos leitores na coluna de Lúcio Flávio Pinto na Agência Estado. Não é o mesmo que ler o JP, que não deverá voltar no formato em que se despede.

Foi o que Lúcio disse, em 9/7, a dois estudantes de Jornalismo da UFPA que foram entrevistá-lo, sem saber da decisão de encerrar o JP, e que receberam dele um exemplar recém-tirado da última edição. Foram os primeiros a lê-la, e os únicos a testemunhar a emoção contida do jornalista naquele momento. Como eles, torço para que Lúcio finalmente abrace a internet e retome o projeto em formato digital.

Como propôs o cronista e irmão Elias Ribeiro Pinto em sua coluna (Diário do Pará, 10/7), vamos fingir que o editor do Jornal Pessoal apenas está de férias de julho.

(*) Jornalista em Belém

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