Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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… a linguagem nem tanto

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

A REVISTA É VIP

Deonísio da Silva (*)

"Velcro. Entenda as entendidas e realize o sonho de transar com uma." A revista Exame/VIP, que vem com o subtítulo "o prazer de ser homem", traz na edição de fevereiro um artigo de Juliana Pereira cujo tema é uma das sexualidades tidas em outros tempos por ilegítimas ou heréticas, o lesbianismo. Ainda na abertura, uma conversa com o leitor: "Ela se parece muito com você. Aliás, até demais. Ela também gosta de mulher". Mais adiante, adverte a leitora: "Se você for uma lésbica e estiver lendo este artigo, lembre que a VIP tem como slogan ?o prazer de ser homem?".

A autora continua seu artigo com uma grave questão. Qual a denominação a ser adotada para evitar os chulos "sapata" e "cola-velcro", por exemplo? Não demora e lá vem mais uma frase espantosa: "Os amigos dela são todos veados". Outra pérola de conselho em forma de interrogação: "Se ela quisesse um homem com H maiúsculo, não teria perereca, teria?"; "Se os amigos dela são veados, nunca fale mal dos veados"; "Hummm… você tem um amigo cabeleireiro, é?"

Penso que as amostras são suficientes. E lamento que uma revista graficamente
refinada como a VIP não consiga tratar de tema tão
cheio de sutis complexidades com a delicadeza requerida. Nenhuma
das vulgaridades que transcrevi foi apresentada como denúncia
sobre
a qual a autora fez incidir sua reflexão. Não. A autora
estende sobre todas elas o manto asfixiante do preconceito mais
atroz, misturado a uma profusão de conceitos equivocados
a respeito do que são as sexualidades. É atroz porque
concebe a mulher como produto de consumo no mercado voraz do sexo
que, reprimido, é impresso para ser vendido e destruído.
A lésbica aparece assim como uma variante de um item mercadológico
de alta demanda que os leitores da revista precisam aprender a consumir.

Não se pode ser pernóstico numa crítica. Mas algumas leituras são indispensáveis quando se quer escrever com propriedade sobre certos temas. Assim, sem nenhuma arrogância, o leitor de VIP que assina essas linhas gostaria que a revista contasse com um editor ou editora que ao ler previamente a matéria chamasse a autora e dissesse: "Está bem, minha filha, agora vá para casa, leia alguns livros e reescreva tudo de novo".

Quais livros? Poderia ser a História da Sexualidade, de Michel Foucault, cujos títulos já são uma boa profilaxia: "A vontade de saber", "O uso dos prazeres", "O cuidado de si". Quanto ao cuidado e ao respeito que fazem por merecer as liberdades, aí incluídas as diversas formas de cada um levar a vida sexual que quiser, em privado, livre das imposições de jornalistas quase ágrafos, surge pergunta desconcertante: qual o motivo da opção por estilo tão leviano e superficial com tema tão complexo, se a revista é VIP?

O prazer de ser homem não nos exime do dever de respeitar a condição feminina e aceitar suas agradáveis peculiaridades que exercem sobre nós um fascínio eterno. A mulher é a melhor parte da natureza humana. Artigos como o citado aviltam, não apenas nela, mas em nós também, uma de nossas energias mais fortes, a orgástica. Se a autora não quiser ler Foucault, procure Santa Teresa D?Ávila e São João da Cruz. Os místicos nos mostraram, mais do que ninguém, o que a sexualidade pode fazer por nós, para nosso aprimoramento, para nossa transcendência. De todo modo, ainda que a autora e editor não possam concordar com nossa crítica, que pelo menos reconsiderem: não fomos feitos para consumir e sermos consumidos.

E leitores de VIP talvez sejam ? como direi ? ? menos rudes, grosseiros e toscos do que supõem aqueles que escrevem para eles.

(*) Escritor e professor universitário, doutor em Letras pela USP. Livros mais recentes: De Onde Vêm as Palavras e Os Guerreiros do Campo.

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