Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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A little help from my friends

Por lgarcia em 05/04/1998 na edição 42

Mauro Malin

 

V

eja registrou, na faceciosa seção Gente (25/3/98), entre Stéphanie de Mônaco, Inocêncio Oliveira, Madonna e outros menos votados, a visita feita por Enéas Carneiro, aspirante a líder fascistóide brasileiro, ao programa de Ratinho (Carlos Massa). Veja esqueceu-se de comentar a felicidade e o orgulho com que Ratinho, na mesma semana em que recebeu Enéas e lhe prometeu acolhida sempre camarada, exibiu para a câmera sua foto na capa da edição anterior de Veja (18/3/98).

 


M.M.

 

A

reportagem de Ricardo Stefanelli que reconstituiu o massacre do Carandiru, publicada por Zero Hora entre os 18 e 22 de janeiro de 1998 e reproduzida neste OBSERVATÓRIO (ver remissão abaixo), é um caso singular.

Reconstitui competentemente um episódio narrado na época (outubro de 1992) de forma tumultuada.

Jornais e revistas paulistas não fizeram nada de parecido com a reportagem de Stefanelli. Curioso é que ele próprio tenha necessitado, como narrou o editor da Zero Hora, Marcelo Rech, romper os ligamentos do pé numa partida de futebol para se lembrar de entrevista em que uma promotora antecipava o fim da coleta de depoimentos relativos ao massacre – e dispor do tempo necessário para se debruçar sobre o processo no segundo cartório da Vara Criminal, na Vila Mariana, em São Paulo.

O repórter gaúcho de pé engessado foi a São Paulo ler as 8.230 páginas do processo com maior número de réus e vítimas da história brasileira, fez posteriormente dezenas de entrevistas, e revelou a verdade sobre alguns pontos cruciais:

Os oficiais que comandaram a invasão desprezaram uma estratégia planejada oitos anos antes especialmente para eventuais operações dentro do Carandiru. O comandante principal da ação militar não esteve interessado em negociar com os rebelados, como deu a entender. (….) A pontaria mostra a intenção de matar. Um cadáver, por exemplo, tinha 16 perfurações de armas de fogo pelo corpo. No total, 126 balas acertaram a cabeça dos mortos, 31 atingiram o pescoço e 17 feriram nádegas. Outros 223 tiros atingiram o tronco dos presidiários. (….) A tese do confronto e da legítima defesa, utilizada pela cúpula da PM, não encontra respaldo nos autos. O processo não comprova que os 13 revólveres apresentados pelo comando da operação estavam em poder dos presidiários. Não havia ordens superiores para matar – e muito menos para não matar.

A importância dessa clarificação fica evidente quando se lê declaração como a do deputado Jair Bolsonaro (da extrema-direita terrorista militar, hoje no PPB-RJ), entrevistado na revista Domingo, do Jornal do Brasil (22/3/98):

“Ou você tem uma PM bem armada, hierarquizada e militarizada ou não tem. Quando tem um problema qualquer, tipo o Carandiru, em que foi tentado tudo para tentar [sic] resolver o problema, só sei de uma coisa: preso para mim só tem direito a não ter direito, não tem direito de se amotinar. A PM matou pouco, já que entrou no pau para valer. Ali valia tudo, tinha que ter matado mais uns 900 para abrir vagas para outros presos.”

 

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A verdade sobre o Carandiru

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