Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ROBERTO DRUMMOND (1933-2002)

A última valsa de Roberto Furacão

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

ROBERTO DRUMMOND (1933-2002)

André Azevedo (*)

O escritor Roberto Drummond, morto devido a um ataque cardíaco na madrugada de 21 de junho, esteve em Uberaba no dia 3 de maio. Participava do projeto Grandes Escritores, promovido pela empresa Tim e pelo jornal Estado de Minas, em parceria com os programas Pró-Ler e ArtEducação. Em entrevista exclusiva ao Revelação, jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba ? talvez a última de sua vida ? falou de jornalismo e das semelhanças entre ficção e realidade, tema sempre explorado em sua obra literária (a entrevista completa pode ser lida no site <http://www.intermega.com/andreazevedo>.

Drummond também refletiu sobre o imaginário popular, lembrando que todas as manifestações folclóricas e religiosas são tão verdadeiras quanto qualquer impressão pragmática que tenhamos da realidade. Disse também que há muita gente que se sensibiliza mais com personagens de ficção do que com pessoas reais. O escritor confessou que ele próprio foi vítima da síndrome: "Consegui mais o sim das mulheres do que de muitas frases", disse.

No bate-papo com os leitores, realizado no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM), Drummond foi, mais uma vez, cobrado sobre sua relação com Hilda Furacão. Bem-humorado, lembrou que, em certa ocasião, acabou vaiado quando declarou não ter transado com Hilda. O escritor tinha um prazer especial nessa ambigüidade criada em torno da existência da personagem. "Sei de pelos menos oito ou nove mulheres que têm certeza que Hilda foi inspirada nelas", deliciava-se.

Humor com Rolla

Entretanto, a discussão sobre um outro livro dele chamou a atenção. Sua primeira obra, A morte de D. J. em Paris, foi considerada um marco do pós-modernismo na literatura brasileira. Repleto de referências a ícones da cultura pop, a narrativa desconexa e sempre inconclusa convida o leitor a participar do texto de múltiplas possibilidades de interpretação. Drummond lembrou que, numa entrevista, sua visão sobre Dôia ? uma das personagens ? foi derrotada por outras explicações. O escritor contou um caso que se tornou folclórico: quando descobriu que seu livro seria fonte para perguntas de vestibular, decidiu fazer a prova. Tirou zero. Um sujeito que tirou boa nota duvidou que ele fosse o escritor. "Se você escreveu, então não leu", disse a Drummond.

O escritor lembrou também que a morte sempre esteve presente em suas obras, sobretudo nos títulos: A morte de D.J. em Paris, O dia que Ernest Hemingway morreu crucificado, Quando fui morto em Cuba, Inês é morta, O homem que subornou a morte. Na entrevista, contou que seu próximo romance seria Os mortos não dançam valsa. Segundo Drummond, este livro seria uma reflexão existencialista sobre as pequenas coisas que relegamos para depois, que deixamos de fazer na vida, até que a morte chega e esses sonhos morrem junto. Para a frustração de seus leitores, Drummond morreu sem concluir esse último pequeno sonho, sem dançar sua última valsa.

Roberto Drummond contou histórias de quando era um jovem repórter na ainda inocente Belo Horizonte, nos anos que antecederam o golpe de 64. Trabalhou em diversas redações, mas guardava um carinho especial pelo período em que integrou a equipe de um tablóide ousado e irreverente, cujo lema era "99% de independência e 1% de ligações suspeitas": o Binômio, fundado pelos jornalistas José Maria Rabelo e Luiz Arantes.

O nome desse jornal era uma gozação ao programa administrativo do então governador de Minas, Juscelino Kubitschek. O deboche aos políticos era total. Numa edição especial do aniversário de BH, governada por um prefeito que só tinha um olho, o Binômio disparou a manchete: "Um administrador de visão única". Outra manchete rendeu uma acusação de atentado ao pudor: "Juscelino vai pôr Rolla na Praça Raul Soares". A notícia referia-se ao empresário Joaquim Rolla, que construiria, na praça, um conjunto habitacional, hoje conhecido como JK. Esse empresário seria vítima de outras manchetes atrevidas, como "Juscelino foi a Araxá e levou Rolla". Rolla caíra como uma luva nas mãos dos jovens e anárquicos jornalistas para "complementar" a fama de Juscelino, tido como galante e conquistador. O jornal definitivamente escandalizava a Tradicional Família Mineira (TFM), instituição que dominava a capital interiorana e moralista da época.

Pasquim, o sucessor

Mas o Binômio também era combativo. Uma reportagem de Roberto Drummond e Antonio Cocenza, publicada no Binômio, rendeu ao jornal vários prêmios em 1950. A dupla foi investigar uma denúncia sobre tráfico de retirantes nordestinos que estariam sendo vendidos como escravos. Drummond e Cocenza passaram-se por filhos de fazendeiros e percorreram a rota desse comércio. Conseguiram abordar o "gerente" do pau-de-arara, compraram um casal ? Manoel e Francisca ? por 4 mil cruzeiros (cerca de 200 dólares) e ainda trouxeram recibo. Tudo registrado e fotografado. A matéria alcançou repercussão internacional. Foi notícia nas revistas Time e Paris Match e no jornal Le Monde. O casal libertado deu depoimento na Câmara dos Deputados e no Senado. Essa história está relatada em Hilda Furacão.

Em 1961, um episódio marcou a história desse tablóide atrevido. O jornal publicou reportagem revelando a simpatia do general-de-brigada João Punaro Bley pelo fascismo. Mostrou que, no Espírito Santo, fora interventor federal durante a ditadura do Estado Novo e chegara a organizar sua própria Gestapo para caçar comunistas. A manchete foi "Quem é Funaro Bley ? democrata hoje, fascista ontem". O general foi à redação e agarrou Rabelo pelo pescoço. Rabelo deu-lhe um soco daqueles de deixar olho roxo. Duas horas depois, 200 homens cercaram o quarteirão e destruíram o jornal. Mesmo assim, impresso no Rio de Janeiro, o Binômio funcionou até 29 de março de 1964. Não havia condições de continuar depois do golpe militar. Rabelo exilou-se na Bolívia e só voltou ao Brasil na anistia de 1979.

Ziraldo chegou a declarar que "o Binômio virou uma febre, só repetida, alguns anos depois, nas areias de Ipanema, com seu irmão carioca, o Pasquim" Foi Roberto Drummond, na época do Binômio, por exemplo, que "descobriu" o cartunista Henfil. Entretanto, certamente por não se localizar no eixo Rio-São Paulo, a importância do Binômio é sempre "esquecida" na história da imprensa alternativa.

(*) Estudante de Jornalismo na Universidade de Uberaba, MG

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