Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > NOTICIÁRIO ALARMISTA

A mídia clama por sangue

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

NOTICIÁRIO ALARMISTA

Diego Cruz (*)

Um doente preso à cama de seu quarto, tendo apenas a mídia de intermediária com a realidade exterior, teria a nítida impressão de estarmos em plena Moscou, nos efervescentes dias de outubro de 1917. O clima de instabilidade social transpira nas páginas dos principais jornais e revistas, assim como nas rádios e na TV. E não se trata apenas do já tão comentado "alarmismo", mas também de uma postura militante do conjunto da grande imprensa na tentativa de criminalizar os movimentos sociais.

O jornalismo brasileiro espelhou-se na chamada "escola norte-americana", que forjou e pôs em prática os conceitos de objetividade e imparcialidade, ou seja, o relato fiel dos fatos. Em certos momentos, porém, pode-se observar claramente a falácia que recobre tais termos. Logo após o atentado de 11 de setembro, a imprensa norte-americana deu vazão à histeria patriótica que culminou na invasão ao Afeganistão e, mais recentemente, ao Iraque. O canal Fox News constituiu, literalmente, a linha de frente da propaganda bélica do governo Bush. Mais contida, porém não menos "imparcial", vem a CNN, grande difusora de notícias sobre a guerra para todo o planeta, tendo seu monopólio ameaçado somente pelo canal árabe al-Jazira. Os bombardeios americanos aos escritórios da agência árabe demonstram a estreita relação entre o exército e a imprensa, transformada em mera assessoria oficial do Estado.

No Brasil não poderia ser diferente. A grande mídia, percebendo uma maior atuação dos movimentos sociais, que até então hibernavam na expectativa do novo governo, desce rapidamente do palanque da objetividade e, contrariando os manuais, assume um lado. Um dos casos mais significativos foi o assassinato do fotógrafo da revista Época no terreno da Volkswagen ocupado por sem-teto em São Bernardo do Campo. A revista estampou o crime na capa, relacionando-o às recentes ocupações promovidas pelo movimento dos sem-terra e dos sem-teto. Em destaque, sob o fundo preto, a exigência "Chega!". Não havia ainda qualquer indício sobre os responsáveis pelo assassinato.

Farda czarista

O âncora da Rede Record, Boris Casoy, revivendo delírios da Guerra Fria, e pré-64, é enfático: "O objetivo destas ocupações é instaurar um regime comunista no país". O Jornal Nacional esmera-se em provar que os líderes das ocupações referenciam-se em ideologias socialistas (talvez pensassem que fossem keynesianos ou liberais!). No Bom dia Brasil, Alexandre Garcia exige do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que se cumpra a lei, enquanto este declara solenemente que resguardará o "Estado democrático de direito", aliás expressão bastante ouvida nos últimos dias.

É muito interessante observar que tal renhida exigência da imprensa nunca se fez ouvir em casos como o recorde de desemprego que registramos atualmente, por exemplo. A crescente horda de indigentes nunca foi mencionada como risco à estabilidade institucional, e a inconstitucionalidade do latifúndio improdutivo nunca recebeu importância proporcional a uma ocupação de sem-terra. Assim como uma declaração de Stedile a meia dúzia de sem-terra causa furor, a incitação ao armamento de fazendeiros feita pelo ministro da Agricultura, o ruralista Roberto Rodrigues, não é motivo para pânico.

O rei está nu. A grande imprensa despiu-se de sua fantasia de neutralidade, trocando-a pela farda czarista na defesa do Palácio de Inverno. Falta-nos um John Reed.

(*) Estudante de Jornalismo da Unesp-Bauru

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