Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES > INDÚSTRIA DA CONSCIÊNCIA

A mídia e a luta do Bem contra o Mal

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

INDÚSTRIA DA CONSCIÊNCIA

Eugenio Celso Sanchez Vaquero (*)

Mudança mesmo, no mundo, não houve nenhuma. Talvez, mais um projeto de início explícito da oficialização do imoral.

Desde a carnificina do Setembro Bárbaro, a difusão de imagens e frases ? em que a essência está no televisor ? vem situando a luta entre o bem e o mal, como batalha entre mundo civilizado e terrorismo. O auto-rotulado mundo civilizado, no controle de agência de notícias, despejando uma seleção de acontecimentos, monta convicção da procedência dos ataques e inadiável necessidade de enfrentamento.

No nosso país, em outros tempos, contando com todas facilidades da época, a Casa Grande ? responsável por escravatura, açoite, mutilação, morte ? foi o mundo civilizado; em contraste com a Senzala, onde faltava escolaridade, sapatos, talheres ? e, gostava-se de dizer, sobrava selvageria e preguiça.

Antes, quando não existia possibilidade de globalização alguma, sem a imperiosidade, o índio não foi habituado e por isso, posteriormente, se negou a aumentar as horas de trabalho, para passar a carregar pessoas nas costas, enquanto lhe tomaram a terra; além de silvícola recebeu rótulo de vagabundo.

No globo, civilização é atributo de quem manda. Nada é feito, ainda mais em tal magnitude, sem que exista um objetivo.

Todo terrorismo só beneficia um lado, a extrema direita.

No país agredido, de imediato, o secretário de Justiça pressionou o Congresso, para aprovação em questão de dias, de medidas que lhe permitam grampear telefones e computadores. Um amplo pacote de legislação antiterrorismo a ser votado em regime de urgência, sem possibilitar avaliação de conseqüências para liberdades e direitos civis, tampouco se credenciou a garantir a segurança. Isto no interior da maior potência econômica e sistema legal mais justo e livre do mundo; em estágio seguinte poderá facilmente ser estendido a legisladores de povos dependentes.

Lá, podendo virem a ser incorporadas à legislação, práticas não-democráticas interessantes ao aumento do poder de corporações, que já estaria em curso desde o início dos anos 80. Aqui ? por exemplo ? ampliando as inclusões, na legislação, de mecanismos com potencial mutante de Estado e regime democrático oficial, para pura poesia.

Acesso variado ? para alguns

Quaisquer que venham a ser as conseqüências do ato terrorista, em curto ou em longo prazo, trarão alguma vantagem ao mundo não civilizado? E para quem manda no mundo, isso pode ser favorável?

Além das corporações midiáticas, fica com o mundo civilizado o controle das corporações financeiras, capazes de lavar dinheiro em quantidade: centenas de bilhões ou trilhão de dólares, do tráfico de drogas, do financiamento do terrorismo? Como de costume, no momento dos fatos, a imprensa mundial fica como uma máquina de inércia infinita.

Na esfera doméstica, a imprensa ainda cultua a si mesma pela enorme ousadia de apenas 30 anos depois, conseguir falar quase abertamente contra o truncamento das liberdades e direitos civis, estabelecido com o AI-5 em passado tão recente.

Mas, existem explanações feitas por pessoas (como os jornalistas Alberto Dines, Antonio Carlos Pereira, Mino Carta, Muniz Sodré, Juca Kfouri, José Arbex Jr., Washington Novaes, Lourival Sant?Anna; os professores João Almino, Nicolau Sevcenko; o frei Beto, o cardeal emérito Paulo Evaristo Arns; o sociólogo suíço Jean Ziegler ? é proposital deixar de citar, por exemplo, nomes mais ligados a representantes do povo nos poderes da República, o que sempre simplifica a descaracterização de conteúdo ?, que se permitem pensar em fatos que estão muito além de um jardim ou das imagens vomitadas torrencialmente por aparelhos de televisão, no interior das residências.

Os 6 milhões de brasileiros ? menos de 4% da população ? que têm esse acesso aumentam também suas possibilidades de conhecer o que é dito lá fora: Le Monde, The New York Times, The Boston Globe etc.

Economia de raciocínio

Com o salário mínimo recuando a menos de 70 dólares, quantos conseguem juntar a jornais, revistas, rádio, computador mais as contas de provedor e telefone; o televisor mais a conta reincidente da racionada energia elétrica, para canais de TV aberta, acrescidos da mensalidade para os canais pagos ? que serve principalmente como antena receptora dos primeiros ? para vir a conhecer outra modalidade de mesma rede de comunicação que viabiliza ao jornalista Chico Pinheiro a apresentação da impressionante explanação do professor Marcelo Guimarães, com formas de praticar democracia, para não perder soberania e atingir de fato a cidadania. Ou conhecer, na TV Câmara, o relato desse livro de 90 anos da história da humanidade chamado "Apolonio de Carvalho". Também poder ouvir, na TV Senado, o que tem a dizer a procuradora do estado Maria Dolores Maçano. Ou, na Rede Vida, entrar em contato com a experiência da juíza Denise Frossard.

Em contato com uma multiplicidade de opiniões, por vezes divergentes ? como deve propiciar a imprensa preocupada em bem informar ?, são adquiridos elementos para chegar a conclusões próprias, mesmo graduais, através do conhecimento pleno dos fatos e aprimoramento da congênita capacidade de pensar.

Em contraposição, há um sistema de comunicação ? em política, economia, futebol etc. ? generalizado na apresentação repetitiva de imagens e frases minuciosamente selecionadas, culminando com freqüência ? como se informação, raciocínio e conclusão coubessem em receitas ? no modelo entenda o caso, formulado em passos seqüenciais prontos, com economia de necessidade do raciocínio das pessoas.

Medo do monstro

Como vício em utilização de calculadoras, dispensando aprendizado de tabuada e fundamentos da aritmética, podendo levar pessoas à incapacidade para fazer contas fáceis, em momentos de ausência ou má programação das máquinas. Embora necessária, a atuação isolada de alguns ainda não foi suficiente para desemperrar a máquina, que prossegue golfando no interior das residências.

A pessoa ? que na maioria dos casos tem um primeiro contato com os fatos, via televisão, e em grande número de vezes este permanece sendo o único ? incapacitada de se livrar, e a seu lar, daquela torrente contínua, nauseada em meio a pedaços de tomate, rabanete, membro, víscera, tripa, e a sangue; não consegue deixar de considerar esquisitos os que chegarem a aventar, ainda que de forma remota, a possibilidade de que todo o problema da Civilização não advenha de Representantes Eleitos, Democracia, Idéia Liberal, Soberania Popular, Soberania da Nação, ou agora, de Bin Laden, Al Qaeda, Talibã, Jihad.

Com essa formação, sem noção precisa de direitos, com o dever do respeito ao poder que deve emanar do povo, mas cuja procedência nunca conseguirá compreender por si mesma, a criança cresce com a consciência de que a regra da vida é estar bem comportada, para nunca ser pega pelo Homem do Saco ou por Bin Laden.

(*) Email: <morpheusicaro@yahoo.com.br>

    
    
                     

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem