Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CADERNO IDÉIAS

A mídia e o pensamento teórico

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181

CADERNO IDÉIAS

Ivo Lucchesi (*)

Seguramente, não será por falta de fontes acerca das relações entre a mídia e o imaginário social que o leitor haverá de ficar órfão quanto a tal matéria. Nesse particular, a edição do Jornal do Brasil de 13/7 traz no caderno Idéias farto leque de opções, entre títulos de publicações, resenhas e entrevista. É um número quase integralmente dedicado a focar teoricamente o campo da comunicação tanto impressa quanto eletrônica. Como não poderia deixar de ser, a surrada dicotomia entre apocalípticos e integrados, proposta, há décadas, por Umberto Eco, se faz presente.

Afora o destaque conferido à entrevista com Muniz Sodré, teórico sempre atento ao comportamento societário, e pronto a fornecer vislumbres criticamente rentáveis, pouco se tem, no conjunto da edição, a recolher como indicativo de um olhar propositivo, à altura de sinalizar novas percepções. É curioso, entretanto, observar os títulos das matérias. "A criança e os jogos da mídia", "Entre a magia e a informação", "Um blade runner pós-moderno" e "A nova era do jornalismo americano" compõem o elenco de sugestões.

Como bem se pode deduzir, os títulos oscilam entre a apoteose e a sinistrose, ou seja, como norma do atual jornalismo até o pensamento teórico e a respectiva produção acadêmica devem ser objeto de espetacularização, a exemplo do que já é de uso corrente no tocante a outras áreas de abordagem.

Paralelamente a tais resenhas originadas de recentes publicações, a edição ainda faz a indicação de mais seis ensaios a respeito da "territorialidade midiática". Ao centro, então, está contemplada a entrevista com Muniz Sodré, destacando a difusão da "cultura do grotesco", patrocinada pela mídia, tema com o qual o teórico há muito convive, desde a publicação, ainda nos anos 70, de A comunicação do grotesco que, agora, se soma a dois outros longos estudos transformados também em recentes livros (Antropológica do espelho e O império do grotesco ? este em parceria com Raquel Paiva).

O teórico, o formal e o grotesco

De início, cabe assinalar o que entendemos por "pensamento teórico" e "pensamento formal". Em linhas gerais, para atender o formato de um simples artigo, fixaremos a seguinte diferença: o pensamento "teórico" apreende o real com o intuito de desvendá-lo, oferecendo ao receptor substância com a qual seu olhar se sinta modificado pela força impositiva de um novo vislumbre, enquanto o pensamento "formal" propõe um recorte do real, subordinado a preceitos, preconceitos ou conceitos funcionais, sem produzir no receptor nenhuma ameaça quanto ao seu repertório anterior. Em outros termos, o pensamento "teórico" é, por excelência, propositivo e prospectivo; o pensamento "formal" é, na essência, constatativo e redundante.

Longe de ser um modo subliminar de divulgar as obras do autor citado, o que também não seria nenhum delito, dada a excelência de seu pensamento, a alusão explícita se justifica pelo fato de as idéias expostas pelo teórico, tanto na entrevista citada quanto nas publicações alentadas, com bastante clareza e objetividade, haverem detonado, frente às demais matérias e indicação de outras publicações, a motivação que redundou no tema deste artigo. Para tanto, indaguemos: que razão levará a mídia a divulgar tantos "produtos" e "discursos" aparentemente contra seus próprios interesses?

Obviamente, o fato não será movido por nenhuma pulsão masoquista da mídia. Pelo contrário, até a motivá-lo estará um impulso narcísico. Afinal, seja posta no banco dos réus, seja exaltada como grande "deusa", a mídia, em ambos os enredos, figura como protagonista. Conseqüentemente, no rol da importância, ela fatura na dupla cena.

Outra possibilidade de entendimento para o mesmo fato nos pode conduzir em diferente direção: transformar também em "grotesco" o pensamento crítico elaborado sobre o perfil midiático. Isto seria um mecanismo perverso usado, não necessariamente consciente, pela mesma mídia. Quero com isso destacar que nessa rede não estariam, pelo modo como engendram suas reflexões, Muniz Sodré nem o italiano (autor de Dialética do indivíduo) Massimo Canevacci, que acaba de merecer a edição brasileira de mais um de seus estudos: Antropologia da comunicação visual (obra também objeto de resenha na citada edição do Idéias).

Entre o atalho e a estrada

Mais se tornariam presas fáceis dessa malha perversa estudos, nem sempre dotados do suporte teórico-crítico que insinuam ter, cujo teor se nutre dessa oscilação entre a "apoteose" e a "sinistrose", conforme no limiar do artigo mencionamos. Ao exaltar (ou referendar) o pretenso pensamento teórico (na verdade, apenas "pensamento formal"), nada faz além de servir de alavanca publicitária para a mídia. Ao tentar satanizá-la, o não menos ingênuo "pensamento formal", travestido de "teórico", finda por apresentar-se como ilha desprotegida em luta perdida contra os inimigos cada vez mais poderosos e invasivos.

Em ambos os recortes, o "pensamento formal" se dá a ver como uma variante da expressão do "grotesco". Nessa configuração cabe, pois, a avalanche de publicações tematizadoras do universo midiático, cuja duração não ultrapassa nada além de seu curto tempo de exibição, a exemplo da torrente de publicações a inundar o mercado editorial americano, objeto de uma das matérias do Idéias, que parece encontrar igual parceria no mercado brasileiro. No varejo dessa oferta, entram antropólogos, comportamentalistas, psiquiatras (e derivados), críticos da cultura, estatísticos e, enfim, pesquisadores de toda ordem promovendo seus recortes no caldo da tagarelice "intelectual". Nada contra o fato de cada um buscar seu canal de expressão. A questão é de outra ordem. Ela envolve um "olhar estratégico". É nisso que a mídia se defende, gerando o efeito da neutralização. Ao conferir notoriedade ao varejo das publicações indiferenciadas, a mídia cria a falsa associação entre o autêntico "pensamento teórico" e o improdutivo "pensamento formal". É a mesma estratégia adotada pela mídia, quando ela cerca um "produto" eminentemente cultural ou crítico, com um lote de "produtos" banais.

Enfim, transitar pelas trilhas das territorialidades midiáticas pode ser uma experiência cativante e instigante. São todas atraentes e propiciam exposição pública. O difícil, porém, é saber distinguir entre o mero atalho para encurtar caminhos e a sinuosa estrada repleta de sutilezas, surpresas e dificuldades.

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV

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