Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A mídia entre perdas e danos – I

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

Ivo Lucchesi (*)

É inacreditável mas absolutamente verdadeiro. Não há registro anterior capaz de igualar-se na torrente de perdas de inteligência brasileira no exíguo tempo de uma semana. A manhã do domingo (17/8/) estampava nos noticiários a morte do inventivo Haroldo de Campos. Eis, porém, que o antigo adágio popular “Agosto, mês de desgosto” ainda guardava mais. Dia 19, o Brasil, em meio a imagens diretas, se via alvo de mais um ataque letal, levando consigo um valoroso e competente defensor da liberdade e autonomia dos povos: Sérgio Vieira de Mello.

Cada qual, Haroldo e Sérgio, em seus respectivos campos de atuação, reafirmava uma face brasileira não muito exibida e prestigiada por esses cambaleantes trópicos: conhecimento sofisticado, retidão ética e produção afirmativa. Ainda o país tentava habituar-se aos irremediáveis acontecimentos, quando, no dia 22, a ainda inexplicada explosão no Centro de Lançamento de Alcântara tragou as vidas de 19 técnicos habilitados em tecnologia de ponta e 2 fotógrafos especializados .

Para o presente artigo, respeitando a seqüência das perdas, dedicaremos o enfoque a Haroldo de Campos. Além do mais, as outras mortes estão inseridas em enredos para os quais é prudente mais distanciamento no tempo, a fim de se permitir apuração criteriosa.

O quase-nada da vergonha

É possível ? mas não tanto provável ? que as mortes de emblemáticas personalidades ainda venham a merecer homenagens e coberturas jornalísticas à altura do que foram em vida e que, para sempre, haverão de nela permanecer, em face do legado de suas obras. Todavia, a suspeita de que tal não ocorra tem lá seu fundamento. Nenhum deles era empresário poderoso, dentro e fora da comunicação. Menos ainda, algum deles tinha raízes mais próximas com o chamado “mundo midiático”.

Quanto ao poeta, ensaísta e tradutor Haroldo de Campos, o econômico tratamento dispensado ainda esbarrava numa questão “provinciana”. É de estarrecer que cadernos culturais dos dois principais jornais do Rio de Janeiro ? Prosa & Verso (O Globo) e Idéias (Jornal do Brasil) ? se tenham comportado de maneira tão displicente e omissa. No caso do primeiro, reservou-se parte da última página na qual ? para espanto maior ? há a reprodução de um texto do escritor exilado, Guillermo Cabrera Infante. O mencionado texto era uma homenagem à figura de Haroldo de Campos, por conta de um evento realizado na PUC de São Paulo, em 4 de outubro de 1996, conforme o crédito constante no rodapé da matéria. O registro, pífio em si mesmo, ainda conta com mais um agravante. Sequer a reprodução pode ser creditada a uma pesquisa editorial do jornal e sim à iniciativa de Heloísa Buarque de Hollanda, que, no sítio da editora Aeroplano (Aerograma), lá o colocou. No mais, ninguém (nenhum brasileiro) foi convidado pelos responsáveis do caderno a escreverem coisa alguma.

No segundo caso, ainda mais vergonhoso, nada. Silêncio absoluto. Nem a memória do próprio Jornal do Brasil foi respeitada, considerando que Haroldo de Campos teve presença ativa em vários momentos da vida cultural do país, em páginas do Caderno B, obviamente numa época em que o país ainda cultivava o sonho de produzir “Idéias”, característica nada presente no atual caderno Idéias.

Enfim, o que se pode dizer é que os editores dos respectivos “cadernos culturais” devem sentir-se acima de quaisquer interesses com a cultura literária. Contudo, em sendo verdade, modifiquem, pelo menos, os títulos de tais publicações. Para tanto, seguem algumas sugestões ou pedidos:

** Não nomeiem “idéias” o que não passa de “vendas”.

** Não distribuam “prosa e verso” com o que não passa de “prosaico e exibição”.

** Não contribuam com falsificações que tanto já naturalmente se multiplicam pelo país afora.

** Se não podem (ou não querem) colaborar, ao menos não conspirem.

** Senhores editores, exerçam seus cargos, mas não abandonem o estudo.

** Sejam presunçosos, mas não ignorantes.

Para ter-se alguma noção acerca da importância de Haroldo de Campos, sem levar-se em conta o significado, para o Brasil dos anos 50, do Concretismo, em parceria com Augusto de Campos, Décio Pignatari e outros, da ponte cultural a partir daí fixada com grupos estéticos e teóricos internacionais (Max Bense é um deles), o impulso criativo de Haroldo em tratar a tradução como mais um ato inventivo na direção da “transcriação”, o suporte dado a movimentos da cultura de massa, elevando-lhe o nível do qual o tropicalismo é um de seus herdeiros diretos.

Se nada disso houvesse existido, bastaria a publicação de Galáxias. O que há de invenção e reinvenção na obra, seja pela rearticulação da língua (como código cultural), seja pela sutil releitura estética, tanto em âmbito nacional quanto nos cruzamentos da cultura ocidental, é algo que deu continuidade radical a uma experiência que tivera início nas escritas de James Joyce e Guimarães Rosa.

Quem se forjou em algum conhecimento mais sólido sabe o alcance do vigor empreendido por Haroldo na obra citada. Somente uma inteligência aguda poderia ter concebido e escrito Galáxias, bem como somente outra em sintonia profunda poderia sobre a obra haver elaborado um estudo, a exemplo do que consta no capítulo final do livro A Aguarrás do tempo (Rocco, 1989), de Luiz Costa Lima.

Galáxias, na tímida referência deste breve escrito, promove o inventário do tanto que circula em difusas direções no infinito universo das palavras, ou como melhor define Costa Lima:

“O que era horizonte se transforma em presença imediata; o que era ameaça se transmuda em presença insuportável ou radiosa ao olho que pensa” (op. cit., pp. 338-339).

Por fim, o único proveito (se há algum e se assim se pode dizer) a extrair-se da morte de alguém da estatura intelectual de Haroldo de Campos é o de exatamente multiplicar o foco sobre o fato e, a pretexto dele, difundir valores, análises e matérias com as quais se pudesse alargar o horizonte histórico e cultural de um país portador de tão graves carências. Para tanto, porém, o complexo midiático precisaria ser um efetivo parceiro. Não é, infelizmente, esse o paradigma dominante. Que pena…

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) ? RJ.

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