Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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A mídia prefere Davos (ou a força das aspas)

Por lgarcia em 05/07/1999 na edição 70


O DESCOMPASSO entre a importância de um fato e o destaque que merece da imprensa pode ser estudado através da cobertura da reunião dos chefes de Estado da América Latina, Caribe e União Européia. Porque na formatação das coberturas, na edição das matérias e, sobretudo, na pobreza das pautas patenteia-se um padrão jornalístico voltado para reproduzir declarações ou ciscar o fait divers.

O que hoje no Brasil leva o nome de jornalismo é, na verdade, uma simulação de jornalismo: um conjunto de informações fragmentadas, desprovidas de referências, teatralizadas por pronunciamientos e temperadas por pitadas de trivialidades.

Com tais paradigmas só é possível acompanhar situações, eventos e acontecimentos capazes de ser personalizados, visualizados por verbos fortes, quantificados por ordens de grandeza ou movimentados por aspas.

É por essa razão que os encontros anuais do Fórum Econômico em Davos, no Alpes suíços, costumam merecer uma trepidação mediática que não foi concedida à Cimeira do Rio. O que esta cobertura teve a mais foi o fato de realizar-se no Brasil, na mesma cidade onde se editam dois dos cinco jornais ditos nacionais e a 450 quilômetros de distância da sede dos outros três.

A Cimeira foi tratada como um fato localizado com personagens internacionais e, não, como o início de um processo histórico com profundas implicações em nosso sistema econômico e cultural. E porque foi visto como um evento carioca, os jornais cariocas criaram cadernos especiais e os editados em São Paulo, capital econômica do país, comportaram-se com distanciamento.

Como a Cimeira marcou o início de um processo histórico e político não foi capaz de produzir infográficos (a não ser para descrever as mudanças no trânsito do Rio). E, sem essas muletas visuais, nossas matérias não “fecham” – não resultam nem concluem. Ficam vagas e distantes.

Outra conclusão interessante: para Davos despacham-se as vedetes do jornalismo e para compensar o fabuloso “investimento” (passagem para a Europa, em geral sob permuta, diárias e hospedagem) convenciona-se que deverá haver um “retorno”: muita matéria e grandes manchetes de primeira página.

Os enviados para eventos como Davos são colunistas, em geral profissionais mais experimentados. Para um evento no Brasil, sobretudo numa cidade onde há uma grande sucursal ou é sede da redação central, prefere-se deixar os colunistas nas respectivas bases. Se quiserem, comentam de lá mesmo. Houve exceções que não chegaram a produzir grandes diferenças no resultado final.

O assunto merecia uma dissertação de mestrado ou tese de doutoramento – se houvesse pós-graduação em jornalismo mesmo (só há em “comunicação”, ciência de coisa nenhuma). Mas pode servir de inspiração para sociólogos ou politicólogos refletirem sobre uma sociedade que não consegue superar-se porque não dispõe de prismas capazes de revelá-la.

 



Figura 1: Edição nacional

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