Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A mão-de-obra superfaturada dos jornalistas

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

MAIS-VALIA DA MAIS-VALIA

Marinilda Carvalho

Os especialistas se esforçam na busca de soluções para a crise da mídia, como se tem visto nas últimas edições do Observatório [ver abaixo relação de links].As empresas de comunicação, entretanto, já encontraram sua própria saída ? por sinal, bem simples: a sobreposição de papéis e funções dos jornalistas.

A acumulação de tarefas não é novidade na imprensa: repórteres de jornal sempre escreveram, por um níquel a mais no contracheque (às vezes, nem isso), para as agências de notícias das empresas, para as rádios, depois para o sítio de internet. Mais recentemente, a TV Globo já vinha recrutando seus âncoras-substitutos (nos casos de férias, licença ou demissão) em seu braço cabeado, a Globo News. Repórteres da emissora-mãe há tempos fazem programas especiais para a emissora-filha. Além disso, correspondentes internacionais sempre se dividiram entre vários veículos. Dois exemplos atuais são Ariel Palácios, que de Buenos Aires trabalha para Estado de S. Paulo, Rádio Eldorado e Globo News, e Argemiro Ferreira, da Globo News e da Tribuna da Imprensa.

Mas agora o acúmulo de funções virou exercício oficial: especialmente na TV, mas não só, jornalistas estão em dupla função. Por quê? A primeira razão que vem à cabeça é a economia de custos. Certamente sai mais barato criar uma nova atração na grade de programação com um funcionário que já esteja na folha de pagamento da casa do que chamar alguém de fora. E, mais pragmática do que nunca nestes tempos de crise, a empresa de mídia convoca estrelas já consagradas pela audiência, pois pelo jeito ninguém pode se dar o luxo de testar novos valores.

A conta da crise

Alguns exemplos: o narrador Galvão Bueno, da Globo, faz agora o show de esportes Bem, amigos, da Globo News, e seu colega Cleber Machado conduz diariamente no mesmo canal a mesa-redonda esportiva Arena Sportv. Na Record, Milton Neves passou a apresentar diariamente o Cidade Alerta, mas manteve seu Terceiro Tempo aos domingos. A Bandeirantes, onde Jorge Kajuru durante a semana comanda duas edições do Esporte Total, planejava chamar o jornalista para um programa dominical estilo Faustão.

O Globo segue a prática à risca. Ao contratar a estrela do JB Artur Xexéo, o jornal levou não só o colunista, mas também seu novo editor do Segundo Caderno. Com a demissão de Hildegard Angel, assumiu o espaço diário Joaquim Ferreira dos Santos, que já escrevia uma coluna no jornal às segundas-feiras. Cora Rónai, editora do Informática Etc., agora escreve às quintas no Segundo Caderno. A mais recente iniciativa de “superfaturamento de mão-de-obra” no jornal da Rua Irineu Marinho: vários colunistas passaram a ter blogs.

Para os profissionais de jornalismo, um mercado estreito se estreita ainda mais, já que, embora haja muito trabalho a ser feito, eventuais vagas são preenchidas por gente “de casa”. Quem está “na casa” não ousa protestar, ou cai fora ? onde há sempre um desempregado disposto a cumprir dupla função. E sem reclamar. Para as empresas há uma inegável economia de gastos, sim, mas… compensa?

A resposta está com leitores e telespectadores. É bom ver o tempo todo as mesmas caras e vozes na TV? É bom encontrar nos jornais o mesmo estilo? Pelo jeito, a conta desta nova saída para a crise é paga pelo usuário de mídia.

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