Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ROBERTO DRUMMOND (1933-2002)

A morte de R.D. em Belo Horizonte

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ROBERTO DRUMMOND (1933-2002)

Deonísio da Silva (*)

Ano de 1994. Roberto Drummond estava preocupado com o presidente Fernando Henrique Cardoso. O signatário tem testemunhas do que vai narrar. O escritor mineiro propunha aos colegas brasileiros que estavam na Alemanha a convite da Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo) um documento que manifestasse a posição daquele grupo diante dos novos tempos. Afinal, um dos nossos ia para a presidência da República. Depois de uma seqüência de generais censores e do hiato de Fernando Collor, seguido do interstício de Itamar Franco, um autor proibido ia substituir o censor. Com efeito, Fernando Henrique Cardoso estava na lista dos autores proibidos no período pós-1964. O Brasil mudava de verdade! Será que o presidente, ou alguém por ele, lembrou-se de confortar a família e os amigos no ato final da vida do escritor mineiro que tanto fez pelo Brasil?

Roberto Drummond, dublê de jornalista e escritor, considerava missão o ato de escrever. Para ele, a função social do escritor ia além dos livros que escrevesse. Seu legado é dos mais ricos e complexos de nossas letras. Ao contrário de muitos de nós, ele procurou e alcançou o grande público. Não produziu apenas romances e contos. Buscou a crônica e nesse gênero o seu tema preferencial foi o futebol, o mais popular dos esportes no Brasil e no mundo. Quando intuiu as notórias dificuldades para alcançar o leitor, saiu tateando em busca de fazer o que fosse possível sem abdicar da qualidade do texto. E surgiu o que ele chamou de literatura pop, de que foi um dos pioneiros. A Morte de D. J. em Paris foi também A Morte de R.D. em Belo Horizonte. Por essas sutis complexidades do destino, essas ínvias trapaças que a fortuna nos prega, veio de uma escritora brasileira que vive dividida entre São Paulo e Paris um lamento por outra morte, a de Carlito Maia, que saíra correndo atrás de Roberto Drummond a caminho da eternidade.

Começo de invenção

Mas não tem nada, não. Apesar de para os familiares e amigos, o golpe da morte ser mais intenso, para os leitores é diferente. O escritor é para eles o que escreveu! E o que escreveu continua à disposição, ainda que todos lamentem que não jorre mais água nova da conhecida fonte que ora seca.

Para o signatário, além da obra de Roberto Drummond, ficam na memória seus gestos insólitos. Tomou um avião em Belo Horizonte para ir a Curitiba receber prestigioso prêmio literário. Morto de medo, desceu em São Paulo e seguiu de táxi. Assim, foi premiado também o taxista, que fez a maior corrida de sua vida: São Paulo-Curitiba-Belo Horizonte. Foi com ele que Roberto dividiu o prêmio! Ajoelhar-se diante de certa donzela alemã para dizer-lhe que era a mulher mais linda do mundo, muito mais bonita ainda do que Nossa Senhora das Dores. E a moça era protestante de carteirinha. Embevecido, olhando a paisagem fria de Frankfurt, entender mal o motorneiro que com uma manivela na mão advertia o escritor que ele estava muito perto do meio-fio e o espelho do bonde poderia arrancar-lhe uma das orelhas. Sem entender nada de alemão, Roberto saiu em disparada buscando abrigo entre os colegas e dizendo que um alemão queria matá-lo. E o alemão irritadíssimo, pensando que ele estava fazendo teatro para menosprezar o aviso. Em Havana, ao desembarcar teve certeza de que viveria ali o título de um de seus livros: Quando fui morto em Cuba. Como, aliás, lembrou o episódio o jornalista e crítico literário Geraldo Mayrink.

Assim era Roberto Drummond. Em tudo, exagerado. Exagerar é já um começo de invenção, estava escrito nos muros de Paris em maio de 1968. R. D. exagerava em tudo, mas principalmente no grande carinho que tinha pelos amigos. Uma de suas mais recentes aparições foi no Observatório da Imprensa, quando Alberto Dines fez programa antológico sobre a morte de Jorge Amado.

Enfim, todos algum dia partem. Mas pel?amor de Deus, precisam partir assim de supetão?

(*) Escritor e professor de literatura brasileira, autor de Os Guerreiros do Campo e De onde vêm as palavras

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