Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A morte do índio Leopoldo Crespo

Por lgarcia em 15/01/2003 na edição 207

MÍDIA & DESSERVIÇO PÚBLICO

Muniz Sodré (*)

Por mais que a consagrada técnica de construção da notícia propicie a reconstituição adequada de um acontecimento, a imprensa ainda não cunhou uma fórmula objetiva para transmitir ao leitor todo o material argumentativo necessário para que, ao lado da pura e simples informação, emerja a possibilidade crítica, senão o choque público necessário diante de determinados fatos.

A questão é também a de saber se isto é desejável. Em outras palavras, deve a notícia jornalística ater-se, sem modificações, à conquista histórica de sua técnica, que é a objetividade, ou experimentar fórmulas que, sem incorrer no subjetivismo literário de outrora, sejam suscetíveis a injunções de ordem ética, formativa? Há quem opte filosoficamente por tais experiências, considerando que a era da globalização e do multiculturalismo demanda aos meios de comunicação uma atitude mais socialmente comprometida no que diz respeito a práticas educacionais de alcance público.

Isto vem aqui a propósito do assassinato do índio caingangue Leopoldo Crespo, de 77 anos, em Miraguaí, no noroeste do Rio Grande do Sul.

Lendo, ouvindo ou assistindo à notícia, o cidadão permanece individualizado em sua emoção ou em sua responsabilidade de tomar qualquer posição sobre o acontecido. E não há, assim, como não se espantar com a recorrência do fato: não faz muito tempo, um pataxó foi também assassinado por rapazes numa rua de Brasília. Individualizado será também o sentimento do jornalista que redige ou edita a notícia. Esta é a fórmula clássica, consagrada, do jornalismo. A artigos, editoriais, crônicas e declarações esparsas em entrevistas, caberá alguma opinião pessoal.

Mas um exame atento às circunstâncias da morte de Leopoldo Crespo pode trazer à luz elementos novos para a reflexão jornalística. Primeiramente, o caingangue, assim como o pataxó, foi morto quando dormia na rua. É culturalmente compreensível que um velho indígena, habituado ao céu aberto, faça de sua cama a grama de um jardim ou a madeira de um banco público. Oriundo de uma economia de subsistência, sem maiores valores monetários nos bolsos, deve sentir-se a salvo da sanha de assaltantes.

Isto não faz dele nenhum desviante urbano. Muito pelo contrário, Leopoldo Crespo era um indivíduo a ser venerado em qualquer cidade civilizada do mundo. No meio da notícia de um jornal, havia a informação de que ele era a memória viva de sua aldeia. Isto significa que era o narrador das histórias da fundação de sua comunidade, o guardião das tradições que confirmam a singularidade de seu grupo, o orientador de ações futuras para assegurar a continuidade das gerações. Assim como o Estado protege em sua Biblioteca Nacional o exemplar valiosíssimo da Bíblia de Gutenberg, deveria ser olhado e protegido Leopoldo Crespo.

Onde a indignação?

Num jornalismo globalizante e multiculturalista, essas informações circunstanciais sobre o caingangue, o pataxó ou qualquer outra etnia à margem da visibilidade modernizadora deveriam importar mais do que o registro puro e simples do acontecimento que marcou como brusco ponto rítmico o cotidiano da cidadezinha gaúcha. O multiculturalismo não é mais um mero assunto acadêmico, e sim uma injunção histórica e política, como bem salienta o canadense Charles Taylor, um de seus pensadores. Para ele, trata-se de uma extensão lógica da política de respeito mútuo e da política de reconhecimento.

Taylor costuma distinguir duas tradições no interior da democracia liberal: (a) a política de dignidade mútua, segundo a qual todos os seres humanos são indistintamente tributários de respeito e direitos iguais e (b) a política da diferença, que prega o reconhecimento da singularidade cultural de indivíduos e grupos. Em princípio, seriam incompatíveis as duas tradições, já que uma preconiza a igualdade enquanto a outra bate-se pela diferença, mas Taylor as vê como derivadas da idéia de respeito mútuo. Argumenta ele que a identidade humana é criada pelo diálogo entre as diferenças.

Qualquer que seja a crítica a ser feita ao multiculturalismo, é inegável a sua importância educacional, tanto nos currículos escolares quanto no discurso formativo de uma imprensa que deseje comprometer-se com uma tolerância ativa e democrática no território nacional. Para toda uma nova geração de pensadores pragmatistas, a exemplo do italiano Gianni Vattimo ou do norte-americano Richard Rorty, a imprensa tem um papel novo e importante a desempenhar no cenário contemporâneo e futuro das sociedades multiculturalistas. Cabe-lhe assumir a pública informação educativa sobre o caráter imprescindível das diferenças. A atitude ética não parte mais hoje da consciência liberal privada, mas de um consenso público e democrático sobre as bases da nova sociabilidade humana.

Numa sociedade como a brasileira, mundialmente reconhecida como laboratório "natural" do transculturalismo interétnico, o assassinato desses indígenas, verdadeiras "bibliotecas" vivas, por adolescentes é um sintoma ou um sinal de alerta para o recrudescimento da violência e da crueldade dirigida à simples existência de uma diferença que se mexa.

O noticiário jornalístico deveria ter sido também multiculturalisticamente pedagógico, politicamente indignado. Alguma coisa de vigoroso deveria ser feito para que nenhum magistrado pudesse mais repetir a frase da autoridade gaúcha que liberou os assassinos para responder em liberdade pelo crime, segundo a qual eles estavam "brincando", queriam apenas acordar o índio a pontapés.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ

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