Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > GALILEU

A mística da fotografia

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98


OFJOR CI?NCIA

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GALILEU

Rafael Evangelista (*)

Aproveitando o fato de setembro ser o mês de comemoração e protestos pelo Dia da Independência, a revista Galileu, em sua última edição, traz reportagem sobre o famoso quadro de Pedro Américo, "Independência ou Morte!", imagem-símbolo para a maioria dos brasileiros do Grito do Ipiranga. A reportagem da Galileu é bastante correta, mostrando como o quadro teve a clara intenção de glorificar o momento em D. Pedro I declarou a Independência do Brasil e como foi conscientemente concebido para isso, ressaltando também a importância política do contexto em que foi produzido. No entanto, para ressaltar essa construção deliberada de uma determinada imagem, a reportagem insiste na comparação com a fotografia. Em vários momentos é dito que, apesar do fato de "a cena equivaler quase a uma fotografia", ela "não é fiel à realidade". Ao desmitificar a imagem do Grito da Independência, reforça outro mito, o da fotografia como espelho da realidade.

A idéia de que a fotografia (e seu equivalente, o filme) seja reflexão simples e exata da realidade talvez seja uma das mais fortes dentro de nossa cultura. Em diversos momentos, ela é tida como prova fundamental da ocorrência de algum fato, como evidência incontestável de determinado acontecimento. Entretanto, quase todas as ciências humanas já discutiram, questionaram e relativizaram o uso da fotografia como evidência. A mídia televisiva é pródiga em nos mostrar como o caráter de um acontecimento (na maioria das vezes manifestações populares) pode ser apreendido de forma diferente por aqueles que estiveram presentes e por aqueles que acompanharam as imagens filmadas. Mesmo descartando qualquer tipo de manipulação da fotografia (ação mais freqüente do que se imagina), a fotografia (ou o filme) é sempre algo parcial, fragmentado, um olhar controlado por determinado observador (um câmera) que, mesmo buscando a isenção, é incapaz de captar a multiplicidade do real (que nós também somos incapazes de apreender em sua totalidade). Não se trata apenas de uma incapacidade técnica, os significados das imagens, mediados pela cultura, muitas vezes operam de maneira diferente nos sujeitos.

A reportagem da revista Galileu é eficiente quando mostra o processo de negociação política que ocorreu quando do planejamento do quadro. Também é eficiente quando isola diversos elementos do quadro num gráfico explicativo, descrevendo a intenção de Pedro Américo de atribuir certas qualidades ao imperador D. Pedro I e ao processo de Independência. Apesar de a desmistificação do quadro de Pedro Américo já ser um assunto corrente até mesmo para professoras de História do ensino fundamental, e de haver outros quadros representando o mesmo momento de maneira bem diferente (como a revista não deixa de mostrar), a reportagem tem o mérito de expor como governos ou grupos políticos escolhem conscientemente as representações que mais se adeqüem a seus propósitos para tornarem-se símbolos.

Contudo, o trabalho da Galileu ganharia muito mais em complexidade e relevância científica se, em vez de simplesmente mostrar que o quadro de Pedro Américo não é uma fotografia, servisse também para desconstruir a imagem fotográfica como espelho do real. Não faltam trabalhos científicos e acadêmicos sobre o assunto, de autores brasileiros e estrangeiros. Se, no entanto, a intenção era deter-se na data comemorativa, que não fosse a custo de reputar à fotografia uma característica que ela não tem.

(*) Antropólogo

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