Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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A Newsletter, do Labjor

Por lgarcia em 05/10/1999 na edição 76

 

Vera Silva (*)

Estava lendo artigo do professor Pedro Rezende, da UnB (“Com quantos dígitos se faz uma canoa?”, Caderno de Informática do Correio Braziliense, em 28/12/99) onde ele explica o quê e o porquê do que pode acontecer no primeiro momento do ano 2000. Em certo ponto do artigo, ele escreve: “A técnica para se escrever programas de computador ainda está em evolução. Mesmo quem os escreve não pode predizer completamente seu comportamento se os programas são relativamente complexos”.

Imediatamente comecei a imaginar os jornais, talvez do ano 2029, escrevendo sobre o bug dos transgênicos: a técnica para se prever as interações genéticas decorrentes das mudanças feitas em sementes ainda está em evolução; “mesmo quem as realiza não é capaz de predizer complemente estas interações porque são muito complexas”.

Os milhares de dólares que estão sendo gastos para nos livrar dos efeitos danosos do bug do ano 2000 poderão ser gastos, no futuro, em indenizações a famílias e/ou países cheios de vítimas das imprevisíveis interações genéticas geradas pelas manipulações genéticas.

Antes que você, leitor, me considere atrasada ou contrária ao progresso, quero lembrá-lo dos terríveis efeitos da Talidomida, que causou deformações em milhares de fetos.

Quero chamar a sua atenção para a necessidade de as mudanças desta magnitude exigirem de nós conhecimento e controle sobre todos os possíveis problemas que tal manipulação possa gerar, mesmo daqueles com menor probabilidade de acontecer. Cada povo tem o direito de examinar estes efeitos e decidir se quer ou não optar por isto.

Aquelas letrinhas nas bulas dos remédios, se estivessem escritas em grandes letras, será que a maioria das mães teria tomado a Talidomida?

Será que, consultada, a população do mundo teria optado por diminuir os custos do computador, usando somente dois dígitos para marcar as datas, mesmo sabendo que, no ano 2000, um aparelho de radiação, usado no tratamento do câncer, poderia liberar mais radiação do que a necessária por se enganar com a idade do princípio ativo?

Há muitos anos que estamos considerando que a história não importa, porque hoje é o dia da graça, amanhã quem sabe, carpe diem! Mas, mesmo que não estejamos mais aqui amanhã, nossos filhos, netos e bisnetos estarão, não é mesmo?

Assim, penso que este é o momento de intervirmos no curso desta história dos transgênicos. E a mídia é o nosso veículo de intervenção, ou deveria sê-lo. Não acho correto que a discussão se restrinja a meios científicos ou jornais a que a população em geral não tem acesso, ou porque é analfabeta ou porque não tem dinheiro para comprar jornal, ou mesmo porque se informa apenas pela TV.

A TV precisa imediatamente começar a discutir em horário nobre os alimentos transgênicos, assim como precisa discutir a violência. Se tivéssemos feito isto há 15 anos, quando o problema dos menores infratores, das crianças nas ruas e da miséria absoluta começou a preocupar, será que hoje teríamos que conviver com a violência em nossas vidas?

Gastar dinheiro e preocupação depois não vão resultar em retorno à boa situação de ontem. Não há tecla REW no tempo real.

(*) Psicóloga

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