Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > BALANÇO & PERSPECTIVAS

A nova velha imprensa, ano I

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

BALANÇO & PERSPECTIVAS

Luciano Martins Costa (*)

Inicia-se o ano de 2004, o 196? ano depois que Hipólito da Costa trouxe para o Brasil seu Correio Braziliense, impresso em Londres, momento histórico em que a imprensa brasileira prepara sua rendição, que se anunciará nas primeiras semanas do ano através do Diário Oficial da União. Nada mais lacônico, nada mais repetitivo depois que o português Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, príncipe regente do Brasil, concedeu ao país certa imprensa livre ao decretar, em 1821, o fim da censura prévia: mais uma vez, caberá ao Estado, desta vez por meio do seu Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, decretar a alforria dos meios informativos.

Nem tudo, porém, é celebração. Há quem diga, alto e claro, que não se trata da salvação da imprensa, mas de seu atrelamento aos interesses do Estado e seus eventuais gestores. Já o disse Octávio Frias de Oliveira, patriarca da família que possui um dos mais importantes diários do país, a Folha de S. Paulo [veja remissões abaixo].

Também não concordam com a solução, embora espreitem qualquer oportunidade de lançar mão de dinheiro barato, os donos de conglomerados de comunicação que se beneficiam do dinheiro catado miudamente, mas aos milhões, em sessões de exorcismo, e os empresários que emprestam concessões públicas de rádio e TV para a máfia do bingo se defender de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as ações do crime organizado.

Estruturas enxutas

Como se vê, há pelo menos duas possibilidades na afirmação de que se anuncia a rendição da imprensa nacional a partir de 2004: ela ressurge com o auxílio da mão redentora do governo, mas corre o risco de se render à mão que a resgata. A controvérsia, que freqüenta este Observatório há muitas semanas, não tem fim. O próprio presidente da República, talvez inadvertidamente, tratou de aquecê-la em um de seus pronunciamentos de final de ano [veja artigo "A notícia e o coração de mãe" (remissão abaixo), ao repetir o ditado cínico segundo o qual "Notícia é aquilo que não queremos que seja publicado. O resto é publicidade"].

Afora o mau hábito presidencial ? talvez adquirido no longo processo de aproximação do poder ? de fazer blague com temas sérios cujo alcance talvez lhe escape ?, há o risco adicional de sua suposta anedota vir a contribuir para tisnar a credibilidade dos veículos pertencentes a empresas que sejam beneficiadas pelo BNDES.

De qualquer modo, o simples anúncio da disposição governamental de socorrer as empresas de mídia tem sido suficiente para reverter processos de administração que haviam lançado no pântano da crise organizações tradicionais, algumas delas transformadas em corporações gigantescas e de múltiplos interesses. O anúncio formal da família Mesquita, retirando-se oficialmente da condução dos negócios do Grupo Estado, em 19/12/03, foi acompanhado pela celebração de um ajuste de caixa que vinha sendo perseguido há pelo menos três anos. Embora seja lícito duvidar que a família esteja de fato se afastando das atribuições profissionais de administração ? pela obviedade, aqui já observada, de que o corpo de gestores nomeado para seu lugar não tem o perfil de independência necessário a iniciativas realmente inovadoras ? é de se registrar que se trata de momento solene na história da imprensa nacional.

Da mesma forma, é razoável advertir que fazer um bom fluxo de caixa não representa motivo para grandes comemorações, dada a brutal distância que separa as práticas de gestão na maioria das empresas de comunicação nacional e aquilo que se convenciona chamar de governança transparente: a estrutura, os processos e os ativos de tecnologia predominantes nas empresas de mídia não representam salvaguardas suficientes contra malversações e desvios de rota capazes de botar a perder a saúde financeira tão duramente conquistada ? principalmente à custa de centenas de empregos e da implantação de um regime de terror e sobrecarga para os remanescentes. Aliás, é nas chamadas estruturas enxutas que proliferam as práticas da terceirização descontrolada, por baixo das quais se consolida o vício do superfaturamento e da remuneração dissimulada de acionistas, executivos ou simples apaniguados.

Lição única

Há quem considere um mal o remédio que se está para ministrar ao paciente. Representantes da chamada imprensa alternativa ? que de fato nunca se ofereceu como alternativa real à grande imprensa que o professor Bernardo Kucinski gosta de chamar de imprensa burguesa ? prefeririam ver a mídia dominante sucumbir até um ponto de não-retorno, que conduzisse ao obrigatório surgimento de novas estruturas empresariais e modelos de negócio mais transparentes e ao alcance do controle público. Mas essa inovação radical depende mais de tecnologia do que de vontade política. E haveremos de nos confrontar com a vertente segundo a qual "imprensa alternativa" não significa necessariamente "imprensa livre".

Desde que o periódico O Socialista da Província do Rio de Janeiro se lançou em Niterói, em 1845, com edições a cada três dias, poucas experiências do tipo fizeram uma história tão consistente como a do Coojornal, nascido na Rua Comendador Coruja, em Porto Alegre, em 1976. No entanto, o "jornal dos jornalistas" durou apenas oito anos e não sobreviveu à divisão das esquerdas, maldição histórica que se repetiu durante o processo de redemocratização do país.

Não se pode esperar que, com tantas dificuldades para cumprir promessas de campanha, o atual governo venha a se preocupar com a oportunidade de corrigir distorções históricas que fazem da imprensa brasileira uma instituição apenas formalmente democrática. Já ajudaria se, na mesma mala do dinheiro do BNDES, o governo acrescentasse a obrigatoriedade do cumprimento da legislação existente, especialmente no que se refere ao uso das concessões de serviço público de comunicações. Se o processo de solução da crise permitisse desestimular a apropriação da mídia por empresários portadores maus antecedentes, já estaríamos bem servidos. Da mesma forma, e em prazo mais longo, o governo poderia aproveitar a definição do padrão de transmissão digital de imagens e dados para colocar um pouco de ordem na barafunda de concessões.

Mas seria até cândido supor que, em pleno ano eleitoral, a coalizão no poder aceitaria correr o risco de se comprometer com exigências que, no mínimo, poderiam estremecer suas relações com a mídia. Por sua própria conta, a imprensa não é capaz de se reerguer independente e soberana. Se o ano nasce sob o signo do otimismo para as grandes empresas de comunicação, isso não significa necessariamente que passaremos a contar com uma imprensa mais voltada para os interesses da coletividade e menos atrelada à vontade de seus donos.

Por enquanto, a única lição que os empresários do setor demonstram ter aprendido é sobre como fazer o mesmo produto com menos jornalistas. Portanto, o que podemos esperar é uma nova velha imprensa, esperta o suficiente para mudar e continuar a mesma.

(*) Jornalista

Leia também

Octávio Frias: "O governo quer a mídia de joelhos" ? Jorge Felix

Octávio Frias: "Nunca vi a mídia tão endividada como hoje" ? J.F.

A notícia e o coração de mãe ? Alberto Dines

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