Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > **

A objetividade crítica

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

NORBERTO BOBBIO (1909-2004)

Ivo Lucchesi (*)

Diferentemente do quase absoluto descaso com que a chamada "grande imprensa" tratou, em tempos anteriores, os falecimentos de outras personalidades da esfera intelectual, a exemplo de Guy Debord, Gilles Deleuze e Pierre Bourdieu, pelo menos a morte de Norberto Bobbio, ocorrida em 9/1/04, não ficou limitada ao registro dos obituários. Os jornais nacionais de maior expressão conferiram ao pensador italiano razoável destaque.

A trajetória de Bobbio, embora habitada por amplo leque temático, sempre procurou focar as possibilidades da sobrevivência do pensamento político e as suas possíveis parcerias com a tradição filosófica ocidental. Hobbes, Kant e Hegel costumeiramente desfilam pelas centenas de páginas da sua obra. Obviamente, a unanimidade jamais pode seguir os passos de nenhum intelectual, até porque a reatualização e a sobrevivência da obra dependem, em parte, da capacidade de agregarem-se em torno dela vozes de discordância e, até, de parciais incompreensões. Num ponto, todavia, a obra de Norberto Bobbio encontra o eco de uma voz de reconhecimento: o esforço de um pensador em entregar-se, como destinação de toda uma vida, ao projeto de refortalecimento do sentido e da aplicabilidade da democracia. Bobbio, sem dúvida, encarna o sentinela da liberdade, sem trair-se, no entanto, com a ingênua repetição de clichês que o tema, não raro, atrai.

A atitude intelectual de Bobbio distingue-o de muitos dos seus pares contemporâneos que, a despeito das boas intenções, tendem a cair na armadilha na qual há a perseguição pela conquista de platéias e seguidores, além de excessivas exposições à mídia, cuja conseqüência acaba por enfraquecer o vigor do pensamento para o qual se faz indispensável certo distanciamento. O perfil dessa atitude mais reservada ? que não se confunde com alheamento ? permitiu a construção de uma vasta obra que, em nenhum momento, teme contrariar expectativas, obrigando o pensamento dominante (ou da moda) a revisões e argumentações renovadas. Poderia afirmar que o conjunto da obra de Bobbio registra interessante dupla face: a mobilidade de um pensar atento às contínuas mudanças e o rigoroso centramento ético. A dupla face assim composta impede a presença de contradições ou posições que possam parecer duvidosas.

Não há como o leitor acompanhar a obra de Bobbio sem desarmar-se quanto às tentações em torno do sentido da "dúvida" e do "pessimismo". Na raiz da "dúvida", como categoria filosófica, reside a "mobilidade" à qual nos referimos, bem como no fundamento do pessimismo se aloja o centramento ético. Por saber que a vida exige a mobilidade, fruto de suas inevitáveis mutações, o pensador se ancora na dúvida. Por compreender as agruras armadas pela história como processo, em suas lutas e desigualdades contínuas, o pensador se afasta das convidativas adesões, oriundas muitas das vezes de enganosos pactos, firmando-se na rigidez de um pessimismo que, na verdade, é a arma contra a imobilidade dos desiludidos. Para harmonizar e perpetuar a dupla face de sua obra, Bobbio jamais se descartou de sua fiel e permanente companheira: o objetividade crítica.

Excertos selecionados

A título de homenagem e, ao mesmo tempo, como doação a leitores que porventura não tenham maior familiaridade com a obra de Bobbio, selecionamos algumas passagens, extraídas de diferentes obras. O critério a orientar a escolha levou em conta a capacidade de escritos de outras épocas se revelarem extremamente oportunos e adequados aos impasses presentes na vida contemporânea.


** "O pessimista teme o pior exatamente por desejar ardentemente o melhor. A bandeira do derrotista é ?quanto pior, melhor?. O pessimismo constata que as coisas vão mal e fica profundamente perturbado com isso; o derrotista constata que as coisas vão mal e fica alegre com isso. O primeiro tem medo porque espera; o segundo não tem medo porque já perdeu toda a esperança e porque se desespera." (As ideologias e o poder em crise, Edunb, 1994, p. 182).

** "Na verdade existe uma grande diferença entre ser pessimista e o dever de sê-lo. Quando me abandono aos impulsos de minha faculdade de desejar, sou otimista. O sentido de meu discurso era este: ainda que eu seja por temperamento ou por inclinação um otimista, na qualidade de homem que busca as coisas pela razão, procurando-lhes a raiz, devo ser pessimista. Devo ser pessimista se quiser aparar as arestas, porque a única maneira de apará-las é não lhes voltar as costas." (As ideologias e o poder em crise, p. 183)

** "Hoje em dia não existe mais ninguém que acredite que o problema da governabilidade foi resolvido só pelo fato de haver uma coligação de governo em vez de uma coligação de dois, três , quatro ou cinco partidos, ou pelo fato de o ministro de uma corrente ser substituído por um ministro de outra corrente. O segredo da governabilidade está na existência e na vitalidade do subgoverno. A floresta morre sem o húmus biológico das pequenas plantas." (As ideologias e o poder em crise, p. 206)

** "Sempre me considerei um homem de esquerda e, portanto, sempre destinei ao termo ?esquerda? uma conotação positiva, também agora que é cada vez mais recusada, e ao termo ?direita? uma conotação negativa, por hoje estar sendo revalorizada (reforçada)." (tradução nossa, extraída da publicação italiana Destra e sinistra: razões e significados de uma distinção política, Donzelli Editore, 1994, p. 86)

** "Os homens de cultura não devem ter a pretensão de concorrer com os homens políticos. (…) O dever do homem de cultura que não queira ficar indiferente ao drama do seu tempo, é o de fazer explodir as contradições, desvelar os paradoxos que nos põem diante de problemas sem uma solução aparente, indicar as estradas sem saída." (Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea, Unesp, 1997, p. 174)

** "(…), a dimensão coletiva é não só independente da individual, mas tem um caráter fundante em relação a ela: é sobre fundamento da dimensão coletiva que adquirem efetividade e verdade os aspectos e as determinações conceituais referentes à vida exterior e interior do indivíduo." (Sociedade e estado na filosofia política moderna, obra escrita em parceria com Michelangelo Bovero, Brasiliense, 1986, p. 116)

** "Quanto mais aumentam os poderes dos indivíduos, tanto mais diminuem as liberdades dos mesmos indivíduos." (A era dos direitos, Campus, 1992, p. 21)

** "(…) a oposição quase secular contra a introdução dos direitos sociais foi feita em nome do fundamento absoluto dos direitos de liberdade. O fundamento absoluto não é apenas uma ilusão; em alguns casos, é também um pretexto para defender posições conservadoras." (A era dos direitos, p. 22)

** "O problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-se de um problema não filosófico, mas político." (A era dos direitos, p. 24)

** "Tanto a história sagrada quanto a profana mais próxima de nós nascem ambas ? por um motivo sobre o qual especularam todos os intérpretes ? de um fratricídio." (A era dos direitos, p. 58)

** "Se por democracia moderna entende-se a democracia representativa, e se à democracia representativa é inerente a desvinculação do representante da nação com respeito ao singular indivíduo representado e aos seus interesses particularistas, então a democracia moderna pressupõe a atomização da nação e a sua recomposição num nível mais elevado e ao mesmo tempo mais restrito que é o das assembléias parlamentares." (Liberalismo e democracia, Brasiliense, 1988, p. 36)

** "(…), se devem existir limites ao poder dos governantes, eles não derivam da pressuposição extravagante de inexistentes e de modo algum demonstráveis direitos naturais do homem, mas da consideração objetiva de que os homens desejam o prazer e rejeitam a dor, e em conseqüência a melhor sociedade é a que consegue obter o máximo de felicidade para o maior número de seus componentes." (Liberalismo e democracia, p. 63)


(*) Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

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