Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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A paciência chega ao fim

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

Clayton Sales (*)

Tento insistentemente imaginar o cotidiano sufocante de uma revista do quilate de Veja, do alto da minha iniciante carreira de jornalista. Quase um milhão de assinantes, fora os compradores regulares, cifra que deve beirar outro quase milhão, fora os compradores ocasionais que, dependendo do impacto da reportagem de capa, devem resvalar na casa de alguns muitos milhares. Acredito não ser uma tarefa simples conviver com tamanha rotina de trabalho, mesmo em se tratando de uma publicação semanal. A responsabilidade de atender à sociedade com um jornalismo genuíno (ou próximo dele) deveria ser o pilar dessa labuta diária em busca das melhores pautas, aquelas que realmente contemplem o interesse público. As pressões dentro da redação dessa publicação podem ser comparadas a uma panela a ponto de explodir e distribuir estilhaços de alumínio e o que tiver dentro para todos os lados.

O profissional que lá ganha seu pão, creio eu, é um agraciado pelo talento, o destino, a sorte ou outro tipo de valor, talvez de caráter questionável. Tem o status de trabalhar na Veja, a mais concorrida revista semanal do país (por enquanto). Como se não bastassem as intempéries cotidianas do jornalismo, manter um convívio saudável com as aberrações que eu, como assinante há seis anos, acompanho, fere os brios e os orgulhos de qualquer cidadão que escolheu essa maravilhosa opção de trabalho e foi afortunado com um emprego nas hostes do senhor imperador Roberto Civita.

Como deve ser para um trabalhador sério que atue na redação de Veja encontrar amigos, conhecidos, desconhecidos, intelectuais, professores, advogados, família, a parcela da sociedade que costuma ser atenta à leitura, questionar por que uma mídia do calibre e a tradição de Veja se presta a jogos baixos, medíocres e ridículos, como plantar, nas suas chamativas capas, montagens caricaturizadas de João Pedro Stédile portando uma pistola de James Bond? Ou do governador Itamar Franco traduzido num traço grotesco assemelhando-o a Napoleão Bonaparte? Ou de reportagens nocivas e perniciosas, como aquela sobre a seita União Vegetal?

Lealdade ameaçada

A revista Veja, e estou me referindo à sua cúpula, ao grupo que normalmente deve tomar as decisões editoriais que tanto frustram leitores com senso crítico, consegue transferir para o imaginário de seus apreciadores a impressão de uma desesperada decadência, vestida no manto rompível da falsa sapiência, do ilusório domínio das verdadeiras informações, de uma pseudo-égide da formação de opinião com isenção. Matérias que infringem os preceitos básicos do jornalismo, como ouvir todos os lados e versões do fato, não atribuir juízos de valor, evitar adjetivações pejorativas, não omitir informações relevantes, não deturpar depoimentos inserindo-os em contextos totalmente adversos ao que realmente integram e outros são o reflexo perfeito de que há interesses muito maiores do que servir à população. Muitas vezes, a manifestação disso tudo se faz em textos arrogantes e de péssimo gosto, de nada servindo ao bem social.

Não escrevo como um profissional de jornalismo, mas como um assinante já considerado tarimbado, um leitor fiel, que se sente atraiçoado pela leitura semanal preferida (por enquanto). Pergunto-me o porquê de cada vez mais páginas de Veja estarem ocupadas por anúncios publicitários. Será que seu tão festejado quinhão de leitores está deixando de ser numerosamente avantajado? Deve existir jornalistas na redação dessa revista que concordem com sua linha, mas prefiro acreditar que a maioria se sente encurralada e amordaçada sob pena de ter o emprego em risco.

Compreensível. Essa é a relação patrão-empregado. Também passo por isso.

Espero apenas duas coisas: que esses cidadãos nunca desistam desta fantástica profissão chamada jornalismo, defendendo-a, na medida do possível, com o orgulho que ela merece. E, finalmente, que a revista Veja reavalie sua conduta – o que, sinceramente, acho difícil de acontecer – para não perder leitores leais como eu. Leitores que estão gradativamente preferindo o respeito a uma lealdade que ainda se sustenta na cegueira de tantos outros apreciadores dessa importante publicação. Por enquanto.

(*) Jornalista, Campo Grande, MS; e-mail <claytonsales@uol.com.br>

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