Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & MERCADO

A pergunta que não quer calar

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

MÍDIA & MERCADO

Luciano Martins Costa (*)

A questão que encerrava o artigo deste observador na edição passada [remissão abaixo] se referia aos números apresentados no último exercício pelo Jornal do Brasil, deixando no ar a dúvida: seria este um modelo sustentável? Basta enxugar a estrutura da empresa, estabelecendo normas de gestão realistas, e manter em seu organismo um número razoável de nomes admirados e respeitados pelos leitores que buscam qualidade, para garantir a sobrevivência de uma empresa jornalítica?

A julgar por manifestações recebidas de antigos leitores, quase todos jornalistas com mais de 40 anos de idade, não importa que o JB se apresente mais magro, quase esquálido em certos dias da semana, anêmico aos domingos se comparado ao seu principal competidor ? desde que subsistam em alguns de seus textos o brilho e o prazer da escrita, desde que em sua edição transpareça o desejo de manter o leitor atento à reflexão inteligente, à sacada original. "Um jornal onde haja pelo menos um jornalista que ainda saiba o que significa, em política, a expressão ?cristianizar?, ou onde exista um fotógrafo sobrevivente da geração Blow-up, ou que pelo menos saiba o que é isso", como dizia um desses leitores fiéis.

Mas as opiniões estão distantes da unanimidade. Outros jornalistas ? aqueles que trabalharam no Jornal do Brasil até a retirada da família Nascimento Brito ? têm algo a dizer em contrário. Diz um desses profissionais, que reclama na justiça uma década de parcelas do Fundo de Garantia não depositadas: "Qualquer jornal seria sustentável se não depositasse um tostão de FGTS desde 1991; se tivesse apenas trinta e cinco jornalistas profissionais contratados; se pagasse os salários em dia apenas quando lhe conviesse, como se os funcionários tivessem uma poupança inesgotável; se recorresse à criação de empresas de fachada para fugir ao pagamento de dívidas".

Outro desses profissionais, que não esconde uma relação de amor e ódio pelo jornal, afirma que não pode haver modelo sustentável montado em cima de pecados mortais contra o direito de funcionários. Lembra que a maioria de seus colegas foi coagida a se demitir e formar uma cooperativa, através da qual prestam os mesmos serviços que vinham prestando havia anos, agora com salários mais baixos, e ainda se consideram privilegiados, pois têm uma fonte de renda. Um terceiro jornalista, que na semana passada se empenhava em reunir antigos colegas da sucursal paulista do JB, calcula em mais de mil os processos trabalhistas enfrentados pela empresa, com a quase totalidade dos reclamantes alimentando parcas esperanças de "chegar a ver o dinheiro nesta encarnação". Ele conta às dezenas os casos de depressão, alcoolismo, cenas de desespero e histórias de famílias que se desagregaram ou tiveram uma queda vertical em sua qualidade de vida após os cortes feitos durante o processo de reestruturação do Jornal do Brasil.

O estrategista americano Gary Hammel, celebrizado entre executivos por seus estudos sobre empresas que evoluem, chegam ao auge e depois desaparecem, afirma que um modelo sustentável não pode ser construído sobre os cadáveres de funcionários ou acionistas minoritários. Hammel coleciona histórias de empresários que edificaram impérios fulgurantes mas de vida curta: alguns pontos em comum a todos eles são a imprevidência ? mal de que parecem sofrer nove entre dez empresas de comunicação no Brasil ? e a falta de princípios sólidos em todas as relações corporativas e entre a empresa e a sociedade.

O drama da sustentabilidade excede, obviamente, o caso do Jornal do Brasil. Busca-se em geral um modelo de negócio que interrompa o processo de desvalorização da imprensa, mas não apenas isso. A própria questão do valor percebido da informação já se coloca diante dos gestores como um enigma mortal para toda a comunidade dos negócios de mídia: quanto mais se sofistica a tecnologia de captação, processamento e entrega de informações, mais distantes ficam as empresas tradicionais dos melhores negócios.

O mercado corporativo, onde ainda existem recursos para a compra de informação de qualidade, está sendo invadido por atores que nada têm a ver com a matriz original do negócio de imprensa. Em São Paulo há duas vezes mais fontes de informações sobre finanças do que o número de jornais, emissoras de rádio e de TV. O crescente uso de serviços e mensagens curtas (SMS, sigla em inglês para short message service) para transmissão de informações é outro desafio a minar o interesse de potenciais leitores pelo conteúdo de jornais.

Nada disso, porém, parece representar ameaça maior do que a capacidade das empresas de comunicação de sabotar suas próprias chances de sobrevivência. Desde o deslumbramento com modismos de gestão que se revelaram mortais para grande número de empresas, como a reengenharia e a prática do downsizing (redução periódica da estrutura de produção e administração), uma sucessão de equívocos vem minando a capacidade das empresas de comunicação de desenvolver e reter os melhores recursos.

Código de conduta

É para lembrar a ocasião em que o falecido Júlio de Mesquita Neto avisou os editores do Estado de S.Paulo que precisavam cortar 10% da redação. Um dos editores protestou, pois com o caderno daquele tamanho não podia trabalhar com menos jornalistas. A resposta do então diretor-responsável do Estadão foi mortal: "Vocês não vivem elogiando essas empresas que enxugam a folha de pagamento? Pois vocês me convenceram".

A pergunta que não quer calar, nascida em histórias exemplares de irresponsabilidade e desvios de conduta, vai nos levar à própria questão do modelo de economia que queremos construir no Brasil. Envolve temas aparentemente tão diversos como os sistemas de financiamento da produção, a definição do tipo de indústria que queremos e que temos vocação para desenvolver, os limites do controle do Estado ou da sociedade sobre as empresas e até mesmo a criminalização ou não das drogas.

Neste último quesito, trata-se de considerarmos conveniente ou não ter entre as forças produtivas um tipo de empresário que vive da ampliação do contingente de cidadãos inabilitados pelo uso de drogas. A penúltima questão remete ao momentoso debate sobre o papel das agências reguladoras, colocado em pauta pelo aumento das tarifas de telecomunicações. Mas a questão que nos interessa, aos jornalistas e seus observadores, é a seguinte: que tipo de empresário queremos à frente dos negócios de comunicação? Se para dirigir uma corretora de valores exige-se do empresário um calhamaço de restrições, se um corretor de imóveis precisa jurar sobre um código de conduta, que espécie de garantia a sociedade poderia exigir de alguém que se habilita a controlar uma empresa de comunicação?

(*) Jornalista

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do mesmo na gestão da mídia
? L.M.C.

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