Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A polêmica aparição na Globo

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ENTREVISTA / FÁTIMA PACHECO JORDÃO

Mauro Malin

[Terceira e última parte da entrevista de Fátima Pacheco Jordão. Clique em TEXTO ANTERIOR, no pé desta página, para ler a segunda parte da matéria]

"Lula ficou 1 hora e 15 minutos no Jornal Nacional respondendo a perguntas derivadas de reportagens e teve três minutos no final para fazer seu discurso. É um passo novo na maneira de relacionamento não da mídia com o futuro presidente, mas do futuro presidente com a mídia. Tratar a mídia não como cadeia de transmissão daquilo que ele quer dizer, mas usar a arena da mídia para se colocar, dentro do contexto da mídia.

"Haverá críticas -
hoje [31/10] o Estadão já sai com um editorial criticando a exclusividade ? ?o presidente tem que entender que há um ritual?-
, mas tenho a impressão de que esses são os primeiros sinais de uma maneira diferenciada de relacionamento entre mídia e poder daqui para a frente, em que não só a mídia cobre factualmente, jornalisticamente, como sempre foi o procedimento tradicional, mas o inverso: o governante se introduz no espaço da mídia de uma forma diferenciada.

"Quando se analisa o Fantástico do dia anterior, há duas leituras. Há a leitura tradicional, convencional, da mídia fazendo espetáculo, mas também a do presidente eleito que precisava dar recados muito rápidos num certo tipo de registro, de um presidente eleito que sabe que ele também foi votado devido a uma identificação -
operário etc. Ele quis reafirmar: aquela imagem em que vocês votaram, eu, eu estou aqui, sou eu, não é porque fui eleito que virei outro. Acho que ele vai fazer isso ao longo de pelo menos muitos meses, e vai reassegurar por esses gestos simbólicos que não trairá, não decepcionará.

"A mídia pensa que usa o presidente eleito, mas é também o presidente eleito que está usando a mídia.

"Está se instalando um novo tipo de relacionamento entre poder e mídia que passa por uma porção de coisas desse tipo, no qual a sociedade vai estar presente. Não só o ato e a ação do governante, mas também sua identidade. Essa eleição foi muito grande para ser apenas alguma coisa programática. Parte da possibilidade de Lula decepcionar é ele perder a identidade com a qual foi eleito. Certamente em algum tempo ele será ?enquadrado? ou usará os formatos tradicionais do ritual do poder, mas se ele fizer isso do dia para noite passará a ser um como qualquer outro. Ele tem que fazer isso como um mergulhador que volta aos poucos para a superfície.

"O PT mostrou ter feito todo um processo de aprendizado de comunicação. Ao contratar um Duda Mendonça, ao mudar seus símbolos -
não foi de hoje, não é desta campanha -
, o PT é o partido que melhor sabe usar a mídia, ou, senão usar, o que melhor sabe o significado desse espaço que é a mídia. Um espaço de fato de uma democracia de massas, uma arena legítima, não uma correia de transmissão.

"Os governantes anteriores detinham um certo poder sobre a mídia -
controlavam com propaganda, com isso e aquilo. O que o PT aprendeu foi como intrinsecamente atuar nessa arena. E não se trata de algo apenas eleitoral. O desempenho de Marta Suplicy em São Paulo é muito próximo disso. Ela tem uma cobertura extraordinária da mídia, sabe usar o espaço da mídia."

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