Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A primeira a saber

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

JORNAL NACIONAL

Angelo de Souza (*)

Como brasileiro, trabalhador e ser humano, devo afirmar o orgulho que sinto pela vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial. Um cidadão com a história e as qualidades de Lula tem, antes do dever, o direito de nos surpreender. Surpreender a nós, povo, que finalmente lhe concedemos a chance de mostrar a que veio.

Mas surpreso mesmo, confesso, fiquei foi diante do Jornal Nacional desta segunda-feira (28/10), no qual o presidente eleito foi longamente interrogado por William Bonner e Fátima Bernardes ? espetáculo angustiante.

Bonner, o marido ideal, insistia em arrancar de Lula o nome, o perfil, a possível origem do futuro presidente do Banco Central. Como que para levar para casa, como troféu de caça para exibir à esposa exemplar. Lula falava em fome; Bonner queria um nome.

Em socorro do maridão, a esposa Fátima contorcia-se em novas formulações da pergunta, a ser feita sob medida para alguma resposta pré-editada. Não adiantou. O entrevistado não disse nem que sabia mas não queria dizer, nem que não sabia mas não queria admitir.

Ao interrogatório acoplavam-se reportagens, homenagens, massagens televisuais variadas. Um cerimonioso senta-levanta, por aqui, por favor. E o boa-noite do presidente eleito à nação boquiaberta.

Errado e esquecido

Boquiaberto estava eu de ver nossa utopia de duas décadas, de um século, de 500 anos, afinal cristalizada, absorvida, reverberada na tela da Globo, lugar onde tantos presidentes sentiram-se tão à vontade. Dos generais de 1964 ao príncipe dos sociólogos, todos brilharam na passarela global, e pagaram por isso em diferentes moedas.

Pois bem. Estupefato, vi e ouvi Lula prometer no ar: "Fátima, quando tiver o nome do presidente do Banco Central, direi aqui, para você, em primeira mão".

Não foram exatamente essas as palavras, mas assim elas soaram ? como uma amostra grátis do relacionamento privilegiado que, mais uma vez, um governante terá que cultivar com a mítica Globo. Relacionamento que Lula já cultiva, apesar do tratamento quase cínico (sim, porque a objetividade, a imparcialidade têm mais de cinismo do que de mitologia).

Nada errado em tratar bem a número 1. Só que uma regra básica de boas maneiras no tratamento com a imprensa é (ou deveria ser) não privilegiar veículos ou jornalistas em detrimento do maior número possível de canais entre o fato relevante e o público. Nós temos o direito, quase o dever, de saber. O profissional e o veículo, o dever, ou direito, de informar. E a fonte? A que se obriga perante a sociedade? Quais suas prerrogativas públicas?

No jantar de segunda-feira, foi o marido Bonner a se deleitar com a "caça" de Fátima ? uma promessa presidencial de exclusividade absoluta, com a maior audiência do país a testemunhar.

Como jornalista (melhor, como assessor de imprensa que já fui), acho que o presidente eleito podia ter ido dormir sem essa. Como brasileiro, penso no quanto isso pode nos custar, e em que moeda. Mas, como ser humano, sei o que é errar, e não se fala mais nisso.

(*) Jornalista, Belém

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