Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > THE NEW YORK TIMES

A primeira escolha do editor público

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

THE NEW YORK TIMES

O longo comentário "Você pode estar apoiado em princípios, e mesmo assim dar uma topada", primeiro texto crítico do primeiro ombudsman do NYT, Daniel Okrent, 55 anos (a coluna de estréia foi de apresentação), publicado no domingo 21/12, tratou da grande queixa dos personagens citados em jornal: a precariedade das instâncias de reclamação à redação.

Ele escolheu como exemplo destas dificuldades não um conflito da quinzena que passou, mas um antigo e intrincado caso entre o Times e a empresa Purdue Pharma. Avaliou tudo muito bem, ouviu todas as fontes possíveis, absolveu o NYT de muitos embaraços e, finalmente, colocou-se a favor da queixosa. Uma indústria farmacêutica! Não deve ter sido fácil contrariar a redação assim, na primeira coluna de crítica aos procedimentos internos do jornalão americano.

Mas Okrent é muito cuidadoso. Como ombudsman estreante mostrou-se de uma modéstia, estudou o caso tão a fundo, avaliou tantas possibilidades, ouviu tanta gente que o esforço provavelmente merecerá reconhecimento interno. Resta saber se os cães de guarda da mídia americana, que reservam especial atenção ao jornal da Rua 43, terão a mesma compreensão.

Ele começa apoiando as queixas sobre a falta de caminhos para reclamações.


"Você pode escrever uma carta ao editor, e se tiver uma sorte extraordinária ela vai se destacar num enorme palheiro (o Times recebe mais de 300 mil cartas e e-mails por ano) e ser publicada. Você pode pedir uma correção que, mesmo com publicação garantida, provavelmente não será vista pelo mesmo número de pessoas que leu a matéria original. Se você tem muito dinheiro e muito tempo, pode contratar um advogado."


Alguns queixosos têm vontade e recursos para sustentar uma guerra permanente, escreve. "Por minha experiência, os mais determinados são as corporações, que rezam pela cartilha de uma consultoria de Washington: ?A cultura do ataque permeia o atual mundo dos negócios?. Combatem fogo com fogo, alistam batalhões de advogados, de especialistas em relações públicas, de comandos de gerenciamento de crise. Às vezes combatem cinzas com fogo". Lembrou o caso da IBM, que em 1997 parou de anunciar na Fortune depois que a revista publicou o que qualquer leitor desinteressado, segundo ele, consideraria um perfil banal do executivo principal da companhia, Louis Gerstner. Só reencaminhou seus milhões de dólares &agraagrave; revista após a aposentadoria de Gerstner, em 2002.

Aqui começa o caso em questão ? um caso claro de conflito de interesse. O oponente, a Purdue Pharma, que fabrica o OxyContin, usado contra dores provocadas pelo câncer. O ano, 2001. Em 13 meses, o Times publicou 13 matérias, assinadas por Barry Meier, denunciando abusos no uso do medicamento, irresponsabilidade na prescrição e disputas do fabricante com as agências reguladoras. [Mais potente do que a morfina e outros opiáceos, como Percodan, Demerol etc., o OxyContin foi "descoberto" pelos usuários de drogas. Previsto nos planos de saúde, seu uso acabou popularizado nos EUA, para desespero dos médicos sérios do país.]

A empresa protestou, até visitou a redação ? que alega ter atendido muito bem seus representantes. Okrent considera que o trabalho de apuração de Meier foi transparente e preciso ? "mesmo que às vezes parecesse um cão especialmente feroz que tivesse cravado os dentes no tornozelo de alguém". Nos 18 meses seguintes Meier deixou a cobertura para escrever seu livro, o Times publicou mais duas matéria e uma nota sobre a Purdue Pharma e seu controvertido remédio. Então, em outubro de 2003, estourou o caso Rush Limbaugh.

Kennedy e Halberstam

Limbaugh, radialista tão popular quanto conservador, que se notabilizou, entre outras bandeiras, por condenar ao fogo do inferno usuários de drogas, confessou-se viciado em analgésicos, e se afastou por cinco semanas de seu programa, para tratamento. O livro de Meier fora lançado pouco antes. E o repórter convenceu seus editores, inclusive Allan Siegal (o chefe do comitê que analisou as falhas que permitiram o fenômeno Jayson Blair), de que poderia escrever a matéria a respeito. Conta Okrent que o próprio Meier observou em e-mail a Siegal: "Minha preocupação é que os críticos do Times, inclusive os fabricantes da droga que é central no meu livro, possam achar que estou usando o Times como plataforma para promover o livro". Siegal deu a Meier permissão para escrever a matéria para a Tuesday Science Times, seção de ciência publicada às terças-feiras. "Ele prometeu que a matéria seria apenas perifericamente relacionada ao OxyContin", contou Siegal a Okrent.

Meier cumpriu a promessa. Sua matéria, de 25 de novembro, só mencionou o OxyContin ou a Purdue Pharma no 11? parágrafo. Até a Purdue considerou a matéria "a mais transparente escrita por Barry [Meier]". Mas pediu seu afastamento da cobertura, pelo fato de que ter lançado um livro sobre o assunto originava um conflito de interesse.

Jornal e fabricante trocaram cartas, brigaram. Okrent comenta que quando o alvo de uma reportagem pede a cabeça de um repórter desafia a essência da auto-imagem de um jornal: sua integridade. "A menos que os editores percebam um caso claro de desvio ou conflito, eles tendem a reagir do mesmo jeito que usamos contra um insulto a um parente. Com indignação, e apoio ao ente querido", escreve.

Isso aconteceu em 1963, lembrou ele, quando o presidente Kennedy pediu a Arthur Ochs Sulzberger, publisher recém-nomeado, que retirasse o repórter David Halberstam do Vietnã. O NYT estava prestes a fazê-lo, num rodízio natural de correspondentes, mas o pedido de Kennedy levou Sulzberger e James Reston, da sucursal de Washington, a resistir.

Montanhas e montículos

Okrent passa então a enumerar os muitos "se" que envolveram a situação. No caso OxyContin, diz, os editores do Times instintivamente defenderam o princípio da integridade, mas talvez à custa da credibilidade. Mesmo se a matéria de Meier sobre Limbaugh mencionasse seu livro (o que não aconteceu); mesmo se foi publicada num momento que em Limbaugh estava nas manchetes (e ele já o estava havia cinco semanas, quando o NYT entrou no assunto); mesmo se a matéria tivesse sensacionalizado ou magnificado o tema (o que nem de longe aconteceu), é quase certo que Meier não seria beneficiado financeiramente: "a conexão funcional entre seu texto e seu livro era tão fina quanto a página que você está segurando agora". E ele acrescenta, entre parênteses: a resenha positiva do livro de Meier na quarta-feira passada [17/12] foi infinitamente mais valiosa, mas o complicado assunto das resenhas do Times de livros da equipe do Times terá que ser tema para outra coluna.

E mais uma seqüência de "mesmo-se": mesmo se Barry Meier não visse dólares pingando em função de seu livro sobre o OxyContin, e mesmo se ele fosse o repórter do Times que mais conhecesse analgésicos à base de opiáceos, e mesmo se o pedido da Purdue fosse percebido como um nada ingênuo esforço para intimidar o jornal alterando sua cobertura ? a despeito de tudo isso existiu a aparência de um conflito.

Um jornal não deve afastar um repórter a partir de queixas externas se não julgar tais queixas válidas. Mas um jornal também não deve defender este princípio automaticamente, se não se tratar de questão crítica. Meier não trabalhara no tema por 18 meses, e o jornal poderia ter destacado outro repórter para o caso Limbaugh. "A reputação do jornal seria certamente beneficiada ao remover-se a mais leve indicação de conflito."

Não se tratava de um presidente pressionando um jornal para interromper matérias de importância crítica, mas o núcleo do Times não percebeu a diferença. "Quando perguntei ao pessoal do jornal o que achava do episódio, alguns acharam que a Purdue Pharma pode ter transformado um montículo numa montanha".

O problema, diz Okrent, é que matérias cotidianas num jornal do tamanho do Times podem parecer montículos. Mas quando você está do outro lado do telescópio, como personagem da reportagem ? mesmo se você for uma indústria farmacêutica ?, cada matéria vai parecer um Everest. Repórteres e editores precisam colocar o leitor em algum lugar no meio, recomenda Okrent, e dar-lhes uma visão desobstruída, sem conflito, dos dois lados.

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