Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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PRIMEIRAS EDIçõES > TECNOLOGIA DE APURAÇÃO

A primeira estrela da guerra

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

TECNOLOGIA DE APURAÇÃO

Nelson Hoineff (*)

Lembro da cobertura da Copa de 74, na Alemanha. para a extinta Última Hora. A seleção treinava em Feldberg, na Floresta Negra, mas telex público, antes do início da competição, só havia na Suíça. A solução: voltar todos os dias do treino para Freiburg e de lá tomar um trem até Basel, redigindo o texto numa moderníssima Lettera 22, de ferro, sobre os joelhos. Em Basel, uma pequena corrida até chegar ao telégrafo, junto da estação. Um café enquanto o funcionário suíço rebatia tudo sem entender uma palavra de português; e tentar pegar o último trem de volta para a Alemanha, para reiniciar a rotina cedinho, no dia seguinte.

Nos vinte e tantos anos que se seguiram, o telex conseguiu escapar da indefectível fitinha perfurada, o que já era bom; depois veio o fax, que parecia mesmo coisa do demo; em seguida, a internet ? e o resto da história todo mundo já ouviu centenas de vezes.

O leitor, que podia esperar dois dias por uma informação, hoje reluta em esperar dois minutos. A tecnologia vai impondo mudanças nos hábitos de consumo, mas sobretudo determinando novos estilos de cobertura.

No início dos anos 80, dois conceitos ligados à cobertura de televisão foram criados quase ao mesmo tempo como resultado da revolução nos mecanismos de distribuição de sinais: os de redes internacionais e de redes de notícias.

Uma rede de notícias não é necessariamente internacional (veja-se as brasileiras) e uma rede internacional não é necessariamente de notícias. Mas quando elas se juntam (CNN International, Fox News International, BBC World), a necessidade de surfar na experimentação tecnológica cresce exponencialmente. É aí que estão nascendo as mais importantes evoluções recentes da cobertura telejornalística.

Como sempre, a guerra finca marcos referenciais. Em 1912, Lee de Forest era processado por divulgar uma invenção "sem qualquer propósito". No final da Primeira Guerra Mundial, milhares de receptores Westinghouse fabricados para as forças armadas americanas eram reaproveitados, dando início à exploração comercial do rádio, a tal invenção despropositada.

Baixo custo

Na guerra da vez, o divisor de águas é o videofone. É com ele que o repórter da CNN Nic Robertson, que está em Cabul, põe suas imagens no ar. Todo mundo, inclusive a Veja, registrou o fato.

O curioso é que o videofone, em si, não apresenta uma grande inovação. Ele é na verdade uma feliz integração de tecnologias já existentes, que convergem para esse aplicativo: captação de imagens com microcâmeras, streaming e, sobretudo, conexão telefônica via satélite.

A novidade havia sido anunciada, de forma ainda rudimentar, em maio de 1999, por uma companhia japonesa chamada Kyocera: o VisualPhone VP210 era capaz de transmitir e receber imagens em tempo real a uma velocidade de dois frames por segundo, quinze vezes menor do que a televisão convencional.

Exatamente dois anos depois, em 11 de abril de 2001, a CNN utilizou uma versão bem melhorada do equipamento ? fabricada pela 7E, de Londres ? para transmitir a saída da ilha de Hainan dos tripulantes do avião-espião dos EUA detidos na China. Era a primeira transmissão ao vivo de imagens não-autorizadas vindas de território chinês. Os competidores tiveram que ir a um centro de transmissão por satélite para levantar material semelhante. A qualidade era melhor, mas as imagens eram sujeitas à aprovação dos chineses e chegaram 25 minutos depois. Estava inaugurado um novo patamar para coberturas internacionais por redes de televisão.

A um custo de apenas 14 mil dólares (que inclui as unidades de transmissão e de recepção), a versão moderna do videofone foi desenvolvida apenas para mostrar a face do repórter no tipo de relato que geralmente é feito por telefone, com uma incômoda fotografia estampada na tela junto a um mapa do local. Por isso era chamada de talking head.

A CNN subverteu essa forma de utilização. "Usou o equipamento exatamente da forma que nós lhes dissemos para não fazer", disse, à época, Peter Beardow, presidente da 7E. Nos cinco meses que se seguiram, levou o videofone para o resgate de um médico chileno na Antártida e para o terremoto na Índia (onde chegou seis dias antes dos equipamentos convencionais) e, agora, para o Afeganistão. Não vai parar nunca mais.

Nova era

Transmissores portáteis que faziam o uplink direto da imagem para o satélite ? e que eram a grande novidade na cobertura da guerra do Golfo ?, hoje parecem instrumentos tão jurássicos quanto a Lettera 22 viajando de trem para perfurar fita de telex no outro país. Na verdade, é o rápido desenvolvimento de aplicativos como o videofone que está contando a história da cobertura jornalística na televisão contemporânea.

O estágio, neste momento, é o sonho dos futurologistas de apenas 5 anos atrás. Basicamente, a geração de uma imagem de TV depende apenas de onde um homem possa chegar carregando uma maleta com peso de 7 quilos. As barreiras da tecnologia, do transporte, da visibilidade e da instalação de grandes equipamentos estão praticamente superadas. A transmissão de uma imagem é quase tão fácil quanto um relato verbal.

É a guerra contra o Afeganistão, ou contra os redutos terroristas que os EUA elegerem, que vai contar essa história. Antes de começar, a guerra já eliminou a parafernália dos equipamentos de transmissão e inicou uma nova era nas coberturas de televisão, nas quais o diferencial não vai estar na velocidade (que aos poucos irá se igualando) mas na consistência com que o discurso é feito. Mais uma vez, a tecnologia estimula a sofisticação do conteúdo.

(*) Jornalista, diretor e produtor de televisão

    
    
                     

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