Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A propaganda do general

Por Mauro Malin em 20/06/1997 na edição 24

O maniqueísmo, essa segunda natureza da imprensa – ultimamente à flor da pele no Brasil -, não poupa a cobertura das atividades do Grupo de Trabalho de Segurança Pública do Ministério da Justiça, incumbido de formular nova política para as polícias do país.

Passaram-se dois anos e meio da inepta intervenção do Exército no Rio de Janeiro, em meio a um clima de histeria erigido sobre os escombros deixados por sucessivos governos – Chagas 1, almirante Faria Lima, Chagas 2, Brizola 1, Moreira Franco, Brizola 2, principalmente este último, quando o vice-governador e secretário de Segurança, Nilo Batista, acabou assumindo o Executivo acuado por denúncias de envolvimento com bicheiros -, mas a cobertura ainda está mais preocupada com a opinião do general Nílton Cerqueira, secretário de Segurança, que defende a teoria do “combate”.

A comissão tem 18 integrantes, mas à saída de suas reuniões, em Brasília, os repórteres, com meritórias exceções, correm atrás do general. Claro, ele é que vai “esquentar” o lead. Entretanto, não seria difícil perceber que as propostas mais lúcidas não virão por aí.

O pressuposto doutrinário dessa atração pela farda é a aceitação da hipótese de que Forças Armadas possam combater eficientemente a criminalidade, assim como já se supôs que poderiam resolver os problemas da pobreza, do analfabetismo, da industrialização e de tantas coisas mais, inclusive a instrução moral e cívica.

Há aqui uma grande confusão. Uma inversão. Quando, na mais recente erupção, as Forças Armadas tomaram diretamente o poder e o exerceram durante vinte anos, açambarcaram tudo, sobretudo a segurança. Confundiram deliberadamente segurança com ordem, e ambas com guerra a um “inimigo interno” (podendo ser este, eventualmente, a maioria do próprio povo que as institui, desde que se contrapusesse aos “objetivos nacionais”). Não foi a competência das Forças Armadas que as qualificou para zelar pela segurança pública. Foi a ruína das instituições civis (em 1930, em 1937, em 1964) que lhes abriu as portas para mais esta ingerência.

O militarismo, aqui, tem mais de um século de militância ativa, e, atestam os bons alfarrábios, nasceu nos jornais, durante a Questão Militar, nos últimos anos do Império, sob instigação de Quintino Bocaiúva, de O País (Rio de Janeiro), e Júlio de Castilhos, de A Federação (Porto Alegre). Cristalizou-se, depois da revolução de 1930, numa frase inesquecível do general Góis Monteiro, que adorava dar entrevistas bombásticas: “Sendo o exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve criar-se no sentido de se fazer a política do exército e não a política no exército” (A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército, pág. 163.)

Muito bem. Referências históricas que nos situam num plano mais elevado do que o do tiroteio cotidiano da favela, do periferia, do asfalto. Mas o que motiva o general Nílton Cerqueira? Garantir a segurança dos cidadãos do Rio de Janeiro, custe o que custar? Ou, menos nobremente, perpetuar a vigência do militarismo no âmbito da segurança pública?

Não, senhores, nada de tão elevado. O general está preocupado com sua candidatura, em 1998, a novo mandato de deputado federal. Se e quando eleger-se novamente, há de agradecer a prestimosa colaboração da imprensa, incapaz de escapar de sua retórica e de sua prática arcaica. Quanto ao povo, amargará por muitos anos as conseqüências de mais este surto de “prendo e arrebento”.

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