Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > exercício responsável de sua missão

A quem interessa o silêncio da mídia?

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

NOTÍCIAS DE UM SEQÜESTRO

Alberto Dines

Como todas decisões arbitrárias e antinaturais, a autocensura sobre seqüestros desaba sozinha ? empurrada por suas próprias contradições.

Washington Olivetto não teria sido libertado ileso e seus seqüestradores capturados sem um tiro se aquele corretor de imóveis de Serra Negra não estranhasse o comportamento dos moradores estrangeiros da chácara recém-alugada; e se uma vizinha do cativeiro no bairro do Brooklin, em São Paulo, não tivesse ouvido pelo estetoscópio que os pedidos de socorro da casa vizinha eram do publicitário.

Se estes dois cidadãos ignorassem o seqüestro, o nome e renome do seqüestrado, suas reações não teriam sido tão prontas e decididas. O próprio aparelho policial ? se restrito ao sistema de comunicação interna e sem a ênfase do processo de comunicação social ? talvez não tivesse agido com a mesma agilidade.

O jornalismo não foi inventado de um dia para o outro. Muito menos instituído por decreto. O jornalismo desenvolveu-se ao longo dos últimos quatro séculos partir das exigências da sociedade para ser informada a tempo de agir e reagir.

Estancar arbitrariamente o livre curso das informações ? sob qualquer pretexto ? equivale a obstruir o livre curso das decisões por parte da sociedade ou seus agentes.

Isso não significa luz verde para o sensacionalismo.

Isso não significa carta-branca aos irresponsáveis.

Sobretudo para os sensacionalistas e irresponsáveis nos meios eletrônicos de massa (rádio e TV) que, pela instantaneidade, podem interferir no curso dos acontecimentos, prejudicar diligências, colocar em risco a vida de vítimas e policiais.

A cobertura ao vivo do seqüestro do apresentador Sílvio Santos foi uma temeridade que poderia ter produzido trágicas conseqüências: Fernando Dutra Pinto estava com um monitor de TV acompanhando a movimentação dos atiradores de elite a poucos metros de distância. Assustado, poderia matar o refém.

Já o embargo noticioso em torno do seqüestro de Olivetto (adotado pelos dois jornalões de São Paulo junto com as mais populares emissoras de rádio e TV) pode ter prolongado o sofrimento da vítima e, obviamente, de seus familiares.

A questão é simples: a quem interessa o silêncio ? aos seqüestradores ou ao seqüestrado?

Imperioso recordar que este bando de bandidos sempre contou com o sigilo ou a cumplicidade da mídia (ou de grande parte dela). Caso contrário eles não teriam a ousadia de escolher o local do cativeiro a poucos quarteirões de um dos novos eixos da vida empresarial paulistana ? a Avenida Luís Carlos Berrini ?, num tradicional bairro de classe média e média-alta (Brooklin Novo). Não escolheram a periferia, preferiram o coração da cidade ? desde que olhos e ouvidos da cidade estivessem tapados.

O aluguel da chácara em Serra Negra só aconteceu em 11 de janeiro, 30 dias depois do seqüestro, assegurado o sigilo nos meios de informação e, como conseqüência, a tranqüilidade para a execução das etapas seguintes da operação.

É evidente que as famílias e amigos das vítimas, aterrorizados, preferem o silêncio. Ninguém quer correr riscos. As empresas de segurança estão preocupadas com o caso em si e não com a segurança pública: o seu negócio é resgatar o cliente com vida, de preferência sem pagar o resgate. Não estão interessadas em mobilizar a sociedade para a prevenção do crime. E um dos problemas maiores do crescimento da violência no Brasil é que ela foi confinada quase que exclusivamente à esfera policial, com participação insignificante das comunidades.

Desta vez não foram os sherlocks multinacionais que desvendaram o crime e resgataram a vítima. Foram os agentes da sociedade devidamente avisados por uma sociedade devidamente informada.

A impunidade com que agem os criminosos e a ousadia das operações de seqüestro ? como o de Washington Olivetto ? assentam-se na presunção do sigilo e da resignação. O gangsterismo nos anos 30 e a Máfia nos anos 40 e 50 só proliferaram enquanto imperou a Lei do Silêncio.

Se a mídia compreender o seu papel e os mediadores compreenderem que seus empregos dependem do exercício responsável de sua missão estaremos ajudando a resolver dois problemas: 1) a grave crise de credibilidade da mídia brasileira e 2) a onda de violência.

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