Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > QUASE CELEBRIDADE

A quem servimos?

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

QUASE CELEBRIDADE

Carolina Nogueira (*)

Desde que deixei as redações de jornais, há uns seis meses, estou ensaiando para me tornar fonte de informação. Sou assessora assistente de um senador, tenho acesso a algumas poucas informações, de vez em quando participo de uma ou outra reunião importante ? normalmente, quando o que importa de verdade já está totalmente resolvido. E confesso: sempre que posso, corro ao telefone e passo o que descobri, em primeira mão, a algum coleguinha mais chegado.

Às vezes acho ridícula essa minha ânsia por ver publicada, no dia seguinte e com outra assinatura que não é a minha, as informações que eu apurei, levantei, descobri. É o orgulho patético da mãe verdadeira que deu o filho para outra pessoa criar e fica assistindo, de longe e calada, ao sucesso que ele teve na vida.

Mas depois de alguns dramas de consciência ? e de perceber o quanto essa nossa profissão é realmente movida pela vaidade de saber mais, de descobrir antes, de anunciar em primeira mão ? me desculpei ao ver que não sou só eu quem faz isso. É todo mundo. Todos os jornalistas, estejam eles trabalhando em redações, em assessorias ou mesmo depois de terem abandonado a profissão.

Um amigo meu passou num concurso para o governo federal e está lá há quase dois anos, em cargo técnico. Por culpa de seu novo cargo, tem acesso a absolutamente tudo que diz respeito à pasta onde trabalha. E de lá, de sua mesinha burocrática, numa sala bem parecida com a biblioteca em que minha mãe trabalhava, não resiste aos telefonemas. Fala com gente que até Deus duvida. Dos maiores aos menores jornalistas deste país. E se diverte, como eu, ao ver suas informações publicadas na Folha, no Correio, no Globo.

Coloridos egos

Pior não é isso. Piores são os não-jornalistas que fazem igual. Uma amiga, que estudava culinária no Cordon Bleu, estava no café Les Deux Magots em Paris há uns dois anos, quando viu o Lula entrar porta adentro. Naquela época, ele não era presidente, nem era a grande aposta das eleições.

Ela reparou em cada passo do sindicalista, bem atentamente. Achou muito engraçado ele estar ali, naquele ponto famoso por ser freqüentado pela nata intelectual parisiense. Chegando em casa ? adivinha ? escreveu correndo para o Ancelmo Góis, que publicou a notinha em sua coluna (com chamadinha maldosa que dizia que o "Lula ainda mata o FH de inveja"). Não satisfeita, ainda guardou aquele pedacinho de jornal deste tamanhinho, e mostrava toda prosa a todo mundo que aparecia na casa dela. É mole? Até quem não tem nada a ver com a profissão se orgulha de ser fonte!

Serve de tema para reflexão: a quem servimos quando apuramos, investigamos, escrevemos? Ao leitor, que merece e precisa da informação? Aos coleguinhas, aos nossos amigos e parentes, que vêem nossos lindos nomes assinados no topo das páginas? Ou aos nossos enormes, floridos e coloridos egos?

(*) Jornalista

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