Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > PRESIDENCIÁVEIS NA TV

A redenção da Globo

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

PRESIDENCIÁVEIS NA TV

Gilson Caroni Filho (*)

Há alguns dias, a suposta aparição da silhueta de Nossa Senhora na janela de uma casa, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, fez milhares de pessoas se deslocarem até o local. Conversões súbitas e milagres são fenômenos religiosos. Sobre eles de quase nada adianta argumentação racional. Mas a Igreja é cautelosa. O Vaticano só reconhece um fato como manifestação sagrada após ter esgotado todas as possibilidades de explicação científica. Os convertidos têm sua biografia examinada com lupa. Pode-se fazer todo tipo de acusação contra as instituições católicas, menos dizer que pecam por açodamento.

Não faz muito e, aqui mesmo no Observatório, constatávamos a postura antidemocrática da imprensa brasileira na cobertura da tentativa de golpe na Venezuela. Em artigo intitulado “Globo comemora a quartelada” [remissão abaixo], transcrevemos trechos dos dois principais telejornais noturnos da emissora. Neles Arnaldo Jabor e William Waack exultavam com o que parecia ser o fim do governo de Hugo Chávez. Caracas foi destaque em vários blocos. E serviu como gancho perfeito para que o eleitorado brasileiro ficasse atento aos riscos de se eleger um candidato oposicionista:

“Que sirva de alerta aos brasileiros neste ano de eleição”, recomenda o cientista político Fernando Abrúcio, em São Paulo. “É bom lembrar que é preciso colocar a democracia no lugar do salvacionismo. Mas tem que resolver a questão econômica e social, talvez com mais paciência e menos demagogia. O terreno é fértil para um discurso de salvação fácil. Mas é preciso evitar esse discurso, porque a resposta do salvacionismo não leva a uma melhor situação no Brasil, na Argentina ou na Venezuela.” (Jornal Nacional, 12/4). Na mesma edição, Jabor declararia: “Acho boa a queda de Chávez. Acordamos mais fortes hoje e eu já posso desbananizar a América Latina”. Sobre a reação popular que abortou o golpe e levou o presidente eleito a reassumir o cargo, o noticiário foi lacônico e a Venezuela, em poucos dias, deixou de ser notícia.

É verdade que a Globo não esteve sozinha na apologia à tentativa de quebra da legalidade. Os jornalões do eixo Rio-São Paulo seguiram-na com esmero. E aqui mesmo analisamos, na edição n? 169, editoriais e articulistas dos mais diversos veículos. Havia um consenso antidemocrático deplorável. O compromisso com um ordenamento institucional pautado pelas mais elementares normas de estado de direito era uma vaga petição de princípios a ser descartada editorialmente. Bastava que obstáculos se antepusessem aos beneficiários do modelo econômico neoliberal. Foi, como escrevemos á época, triste mas profundamente pedagógico. Uma verdadeira aula sobre mídia e relações de poder. Obviamente, pelo peso que têm, as organizações da família Marinho capitanearam o processo.

Pois bem, três meses depois a mesma emissora passou a ser alvo de elogios unânimes. Como têm destacado vários críticos conceituados de mídia, alguns aqui mesmo, do Observatório, o padrão de cobertura da TV Globo tem sido exemplar. Equânime no tempo distribuído e impecável no tratamento dispensado aos quatro candidatos. Há quem solicite mea-culpa dos que ainda não foram tragados pelo engodo. Fomos pródigos em denúncias e estamos sendo parcimoniosos em elogios. Será? A velha Globo, quem diria, acabou se transformando em veículo democrático? Tal como Greta Garbo que, por obra e graça de comédia conhecida, acabou no Irajá.

Que o departamento de Jornalismo da emissora anda pisando em ovos, não se discute. A transformação em S/A solicita cuidados muito maiores do que uma organização familiar. Uma audiência sustentada em credibilidade é o produto requerido em tempos de cidadania saturada de empulhação. Nunca negamos à Globo a capacidade de se adaptar a novas conjunturas. Antecipação às demandas de um novo bloco de poder sempre foi marca da casa. De sustentáculo da ditadura a avalista da transição negociada, o colossal monopólio jamais cometeu deslize que ameaçasse seu capital político. É, e por bom tempo continuará sendo, indispensável à hegemonia dos segmentos dominantes.

Mas não devemos cometer um erro básico: deixar que o desejo contamine a análise a ponto de termos uma percepção turva do processo. Confundir redefinição de abordagem com democratização de veículo é cair na armadilha da ilusão. Ignorar os vínculos com o modelo econômico excludente e a necessidade de manter intactas as estruturas de dominação é assumir uma postura ingênua ou disponibilizar-se como cooptável.

Ninguém duvida da competência dos repórteres e editores do jornal de maior audiência da televisão brasileira. Talvez, por terem internalizado a ideologia da empresa, não ajam de má-fé. Mas basta a análise de uma simples edição para percebermos como o jogo é jogado. Um bloco inteiro dedicado à segurança pública não é algo a ser subestimado. Historicamente é um tema que a direita capitaliza bem. Ainda mais quando dissociado da economia e da ausência do poder público. De um Estado deliberadamente sucateado para melhor atender às demandas do capital financeiro. Falar de poder paralelo e Elias Maluco sem dar destaque a cortes orçamentários nas áreas de saúde, educação e saneamento é distorcer a realidade. E a isso a Globo não tem se furtado. Desserviço público servindo como ocultamento de interesses privados. Até que apareça um relatório do PNUD e dificulte o embaralhar das cartas marcadas.

Na mesma noite em que o Observatório abria uma enquete sobre o jornalismo da Globo (23/7), o Jornal Nacional tratava de desmentir a avaliação dos mais otimistas analistas. Minas de alto poder destrutivo eram colocadas em candidaturas que não são, em princípio, palatáveis, para a banca internacional: Lula e Ciro Gomes. O primeiro lançava o programa de governo, enquanto o candidato do PPS fazia exposição sobre temas econômicos a empresários paulistas. A mesma emissora que alardeava, na primeira rodada de entrevistas, estar interessada tão-somente no “debate de idéias” repetia procedimentos de outras eleições.

Parecendo seguir orientações do comitê tucano para associar a imagem de Ciro a Collor, dava como destaque que o “coordenador-geral da campanha de Ciro Gomes recebeu empréstimo de PC Farias”. Obviamente que a chamada aludia a fato ocorrido em 1992, sem qualquer vínculo com a campanha do afilhado de Tasso Jereissati. Mas era o bastante para um estraguinho considerável ou de melhor exploração futura. Pode ser, dirá um leitor mais afoito em festejar a adesão da Globo ao mito da isenção, um esforço investigativo para dar mais transparência ao processo eleitoral. Nada deve ficar encoberto. Perfeito. Que se abram, então, espaços a Ricardo Sérgio (ex-coordenador financeiro de campanha do tucano José Serra) e sua atuação no Banco do Brasil. Isonomia na suposta roupa suja é fundamental.

O “melhor” estava guardado para Lula. O candidato petista fez longa explanação sobre a situação econômica do país e um discurso que o posicionava de forma inequívoca como o candidato da autêntica oposição. Cometeu um erro, talvez indesculpável, para uma liderança tarimbada como ele. No início da exposição procurou um tom mais descontraído, e disse: “Trouxe um documento para ler e para entregar à imprensa, e não estou com vontade de ler. Mas, de qualquer forma, como disseram aqui que sou estadista, e estadista tem que ter um comportamento…” Ou seja, uma afirmação que corrobora a desqualificação permanente que seus opositores atribuem a ele: não sabe o que é um estadista e não tem a menor noção da compostura solicitada a quem aspira a se tornar presidente. Esse foi o trecho de sua longa fala que maior destaque obteve. O resto ficou para segundo plano e com ressalvas.

Em trecho claramente editorializado, o Jornal Nacional destacou que “a premissa para crescer é diminuir a dependência de capitais externos voltados para a especulação”. E mais: “Lula não detalhou as fontes de recursos para implementar o programa, apontou apenas a redução dos juros, mas não explicou como conseguirá diminuir essas taxas.”

Na enquete, de pé no chão

Desde quando, em lançamento de programa, são detalhados aspectos operacionais? A intenção é claramente insinuar descompromisso e inviabilidade de um arrazoado que não passaria de propostas vãs. Se outra leitura for cabível, aceito sugestões. Ainda mais quando, na mesma edição, o candidato governista lança o que seria seu programa de governo para a habitação, afirmando: “Vamos promover a construção de seis milhões de moradias através do fundo de garantia, do sistema de poupança, dos orçamentos federal, estadual e municipal, do FAT do BNDES e de financiamentos externos também. Isto poderá reduzir o déficit de moradia no Brasil pela metade. Agora, a gente tem que prestar atenção também, portanto, nas moradias já existentes, principalmente nos conjuntos habitacionais. E financiar sua reforma, sua melhora e as áreas de lazer.” E não há qualquer comentário sobre a operacionalidade de tais propostas. Decerto quem, há oito anos, está na máquina deve saber do que está falando.

Nada do que expusemos acima é novo. O que espanta é a miopia analítica de alguns autores. A democratização dos meios de comunicação não é feita por deslumbramentos. A TV Globo pode vir a ser um dia referência de cobertura? Isso dependerá de forte mobilização de movimentos sociais organizados, da efetiva democratização de todas as instituições. Por auto-reforma, decidida em cúpula da empresa, jamais.

Quando encerrávamos esse artigo (quinta, 25/7, 20h) demos uma conferida na enquete do Observatório. Apenas 19,6% dos leitores achavam que o jornalismo da Globo melhorou em 2002. Para 35,7% não houve qualquer alteração. E, segundo 47,3%, o noticiário piorou. Parece que, ao contrário dos crentes de Ferraz de Vasconcelos, os leitores deste espaço democrático não confundem alterações de superfície com manifestação de santidade.

(*) Professor universitário

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