Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A reportagem morreu?

Por V.G. em 05/11/1997 na edição 33

O Globo Repórter de sexta-feira, 31 de outubro, é exemplo incontestável de que as escolas de comunicação, ao organizarem seus eventos, precisam urgentemente mudar de tema. Roberto Cabrini, num trabalho de sete meses, mostrou que quem morreu não foi a reportagem, mas a desgastada discussão sobre sua morte.

Cabrini conseguiu entrevistar a advogada Jorgina Maria de Freitas, acusada pelo Ministério Público de desviar U$ 600 milhões – é isso mesmo, seiscentos milhões de dólares -, do INSS, numa fraude de proporções gigantescas e, por conseqüência, implicações e implicados em várias esferas. Jorgina é foragida desde 1992, quando foi condenada pela Justiça, e está, hoje, segundo a reportagem, na Costa Rica.

O repórter ouviu a foragida, ouviu o promotor responsável pela acusação, ouviu pobres trabalhadores da baixada fluminense em cujos nomes a advogada solicitava, conseguia e não pagava, indenizações milionárias. E confrontou respostas. Dos dez casos vencidos na Justiça por Jorgina, em apenas um o cliente recebeu o dinheiro. Este cliente foi procurado, conforme a reportagem, mas não quis falar. Está sendo processado e deverá devolver ao INSS os R$ 1,6 milhões recebidos de indenização.

Os principais méritos do programa:

– Investir num caso durante sete meses.
– Recuperar um assunto (aparentemente) antigo e envelhecido.
– Ouvir – ou pelo menos tentar – todos os envolvidos no caso.
– Apesar da qualidade indiscutível do trabalho, algumas questões podem ser levantadas para debate:
– O Jornal Nacional de sexta-feira fez suspense sobre o caso, falando apenas em "novas e surpreendentes revelações de um assunto de 1992". A entrevista foi feita, como Cabrini registrou de forma discreta, no início de outubro. Certamente havia um prazo de segurança exigido pela foragida – que chegou a fazer cirurgia plástica – mas deixou-se entrevistar de rosto inteiro. Creio que tenha sido justo esperar. Mas o suspense não seria uma forma de sensacionalismo?
– A edição talvez tenha sido muito cinematográfica. Efeitos, trucagens, cenas gravadas a posteriori etc. , tudo isso funciona bem como espetáculo televisivo. Mas será justificável como jornalismo?
– Por fim, a questão central: o Globo Repórter viu a malandragem, mas não a explicou. O segredo das indenizações milionárias estava na correção dupla. No cálculo da advogada, ela corrigia o valor da indenização pelo salário mínimo e depois aplicava a correção monetária. Este o segredo da multiplicação do dinheiro. O programa se limitou a mostrar os dois lados: mostrou o promotor acusando-a de dupla correção; e mostrou Jorgina negando, dizendo que dupla correção só ocorreria se usasse o mesmo indexador duas vezes. Como ela corrigiu com dois indexadores (salário-mínimo e ORTN), segundo ela, não houve bi-correção. Quer dizer: o Globo Repórter mostrou os dois lados sem explicar ao telespectador que um lado estava correto (a versão do promotor) e o outro era ostensivamente falso (a versão da foragida).

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