Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNAL DE PIRACICABA

A saga de um matutino centenário

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

JORNAL DE PIRACICABA

Marcelo Batuíra da Cunha Losso Pedroso (*)


Prefácio de Pena, escudo e lança, de Samuel Prfromm Netto e Carlos Roberto Sodero Martins, Jornal de Piracibaba Editora/Edições PNA, Piracicaba, 2003


"A verdadeira liberdade ocorre quando os homens, nascidos livres,

Precisando dirigir-se ao público, podem falar livremente;

Aquele que puder e quiser falar, merecerá honrarias;

Aquele que não puder ou não quiser, poderá ficar em paz:

O que poderá ser mais justo do que isso?"

Eurípedes, As Suplicantes

"A ti, ?Jornal? da minha bela terra,

Que agora deste o teu primeiro passo

Nas vastas sendas que o combate encerra"

Francisco Lagreca, 1901, Poesias

Acorreu-me o Professor Samuel Pfromm Netto entusiasmado para me dizer: "Já tenho o nome do livro, vai se chamar Pena, Escudo e Lança, não lhe parece apropriado para resumir a história do jornal?". Corriam os últimos meses do ano de 1999, véspera do ano em que o Jornal de Piracicaba comemoraria seus 100 anos de fundação. Com o projeto auspicioso de escrever a história de um jornal centenário, o Professor Samuel Pfromm Netto convidou o Professor da ESALQ, Carlos Roberto Sodero Martins, para ser co-autor da obra.

Não se trata de um livro sobre um jornal, mas de uma cidade do interior paulista que adentrava ao século 20 abalada pelo assassinato do pintor Almeida Júnior, em novembro de 1899, às portas do Hotel Central, prédio símbolo da Piracicaba daqueles tempos. Era uma cidade com 41 ruas emplacadas, 10 anônimas e algumas projetadas. Nesse contexto surgiu o Jornal de Piracicaba, num sábado, a 4 de agosto de 1900. Ler esse livro é mergulhar na história do jornal confundida com a história da cidade; é adentrar, sem querer, mas com enorme prazer, nos usos e costumes de uma época que já passou; é ter na tela imaginária reproduzidas as vidas e passagens de nossos bisavós, avós e pais, é um retrato lúcido e vívido da cidade em que viveram, amaram, produziram e criaram raízes.

Esse livro é um convite ao conhecimento das personalidades célebres de Piracicaba, pois a história é feita por homens e livros, já dizia Monteiro Lobato. É com prazer que podemos ter acesso às notas biográficas de cada personagem que deu sua contribuição à construção da história da cidade, que é também o relato emocionante do desenvolvimento de um jornal do interior paulista. Vamos conhecer de perto o engenheiro Buarque de Macedo, quem teve a idéia inicial de fundar um novo jornal em Piracicaba, além de ser proprietário da Fábrica de Tecidos Santa Francisca, a qual fora adquirida de Luiz de Queiroz. E assim, Buarque de Macedo uniu-se a mais duas personalidades ilustres, Alberto da Cunha Horta e Antônio Pinto de Almeida Ferraz, o Antoninho Pinto, brilhante advogado e intelectual, a quem coube a redação do jornal e a elaboração do primeiro Editorial, verdadeira declaração de princípios que até hoje endossamos.

Nos tempos difíceis do início do século, o Jornal de Piracicaba teve à frente João Franco de Oliveira, quem, por 28 anos (1912-1939) emprestou sua colaboração e seu espetacular tino comercial para modernizar o jornal, principalmente sua tipografia, chegando a abrir uma papelaria e livraria, anexadas ao jornal. Nos prenúncios da Segunda Guerra Mundial, em março de 1939, um italiano, natural da Calábria, radicado em Piracicaba, compra o jornal de João Franco de Oliveira e dá início a uma nova fase do matutino. Era José Rosário Losso. A história não pára aí, mas é melhor lê-la nas agradáveis páginas desse livro.

Essa segunda edição, revista e ampliada, está sendo ansiosamente aguardada; pois, a primeira, com uma limitada tiragem de 500 exemplares, logo se esgotou! O que não era de se espantar, pois, no dizer do grande historiador Hernâni Donato, o Professor Samuel não deixou nada para os futuros historiadores! O Jornal de Piracicaba está em contínua e profusa modificação. Não se espera muito mais do que dele almejavam os fundadores: um jornal livre para leitores piracicabanos, mas é preciso não perder o controle do leme. Com esse intuito, na linha dos grandes jornais, o Jornal de Piracicaba constituiu um Conselho Editorial, cuja função é trazer o eco da sociedade para a imprensa escrita, traçar as diretrizes maiores da linha editorial, adequar o comportamento do matutino para com seu público e, sobretudo, manter vivo e pujante o ideal de liberdade, que sempre pautou o jornalismo desse periódico.

É também, um manual para o futuro do Jornal de Piracicaba. O erro é a sombra do homem, já asseverava Antônio Pinto de Almeida Ferraz, o primeiro editor do Jornal de Piracicaba, a falibilidade do matutino será sentida, estamos certos, com o passar dos dias, mas apelamos ao leitor cativo do jornal, para que a boa intenção também seja levada em conta, pois o processo de aprendizado dura a vida inteira… Não poderemos esquecer a lição deixada pelo grande jornalista Leandro Guerrini, ex-redator do jornal: "atualmente o jornalista tem que sentir os problemas da cidade, do homem atual, não pode mais permanecer na altura das redações. Deve sair à rua, pegar as notícias com o povo e saber transmiti-las a esse mesmo povo". Está aí a lição simples para se fazer jornal.

É um erro pensar que esse livro descreve apenas a história do Jornal de Piracicaba. Versa, isto sim, sobre a própria história de Piracicaba, em quadrinhos, se assim podemos parodiar o livro de Leandro Guerrini: História de Piracicaba em Quadrinhos, que nos dá uma visão cronológica da Piracicaba do século 19. Cuidam, os Autores, em pequenos tópicos, de fazer uma primorosa cronologia piracicabana. Começam onde Leandro Guerrini parou: de 1900 a 1999, cujo leitor vai, certamente, se identificar. Acreditamos que essa segunda edição vai resgatar o valor dessa obra, que, ao lado de Memorial de Piracicaba no Século XX, de Cecílio Elias Netto, contribui para documentar os fatos pitorescos e históricos de Piracicaba no último século.

Há fatos curiosos e fatos históricos, há notícias boas e temas constrangedores. É necessário aprofundar-se na leitura e descortinar os fatos corriqueiros pelos quais viveu Piracicaba. Há uma nota, no ano de 1977, de que, em 2 de outubro, falecia o grande escritor piracicabano Thales Castanho de Andrade; entretanto, mais do que uma mera nota necrológica, os Autores têm a pachorra de inserir um fato curioso, dão notícia de que esse renomado escritor foi o inventor do refrigerante piracicabano, a Cotubaina, dentre outras bebidas que se tomavam na época.

É um livro para se ler, para se guardar e para se consultar, indispensável ao piracicabano que deseja saber um pouco mais da sua cidade. Um livro de dois piracicabanos a reverenciar a memória de Piracicaba no século 20 e a saga de um jornal centenário.

(*) Diretor do Jornal de Piracicaba, advogado, administrador de empresas, doutorando em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Direito e Economia pela FGV.

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