Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A singeleza de um furo

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ENTREVISTA-BOMBA NA AOL
A singeleza de um furo

Era voz corrente que Octavio Frias de Oliveira não concedia
entrevistas. A única de que se tinha notícia recente
ocorreu no segundo semestre de 1988, quando o publisher da
Folha de S.Paulo reuniu, num fim de semana, em sua granja
em São José dos Campos (SP), um grupo de jornalistas
para uma conversa gravada – cujo teor, especulava-se, seria utilizado
num futuro livro de memórias ou serviria tão-somente
como registro histórico de sua trajetória até
então.

Fizeram parte daquele grupo de privilegiados entrevistadores Otavio
Frias Filho (diretor de Redação da Folha),
Carlos Eduardo Lins da Silva (diretor-adjunto de Redação
do Valor Econômico), Clóvis Rossi (editorialista
e repórter especial da Folha), Boris Casoy (âncora
do Jornal da Record) e Leão Serva (diretor do portal
iG), todos à época vinculados apenas à Folha.
As conversas se deram durante a tarde e a noite de um sábado,
e pela manhã e tarde do dia seguinte. Nada de concreto a
imprensa soube ou sabe do que foi dito e registrado naquelas tertúlias
jornalístico-empresariais.

Passaram-se 15 anos até que o jornalista Jorge Felix, da
AOL Notícias <http://noticias.aol.com.br>,
fizesse o que nenhum repórter fizera nesse período:
no início de outubro, solicitou uma entrevista com Frias,
hoje com 91 anos, o último tycoon da imprensa brasileira.
Seu pedido foi atendido com inusitada naturalidade ? e o repórter,
seu editor e a AOL puderam oferecer aos leitores uma matéria
jornalística da maior relevância pública. Um
furo, com todas as letras.

Eis o relato de Jorge Felix ao Observatório:


"Eu liguei para a secretária dele, dona Vera, e
pedi a entrevista. Ela disse que ele não costumava falar,
mas que eu enviasse um e-mail com o meu currÍculo resumido,
os principais temas da matéria e um pedido formal. Fiz
isso, disse que ele era uma personalidade na mídia, principalmente
depois da morte de três donos de jornais este ano, e que
nós, da AOL, achamos que era importante ouvi-lo neste
momento de crise do setor. No dia seguinte, dona Vera me ligou
e marcou para segunda-feira, dia 13, mas depois ligou de novo
e adiou para o dia 15, quando foi feita a entrevista.

"Não tive nenhuma dificuldade além dessa
e não cheguei ? para meu espanto ? a ter necessidade
de procurar alguém para me ajudar nas tratativas. Acho
que os filhos [Otavio, Luís e Cristina] nem ficaram
sabendo da entrevista.

Cheguei à sede da Folha na hora marcada, 16h,
subi e conversamos tomando café. Foi tudo bem descontraído,
um bate-papo sobre a mídia. Acredito que ele queria falar,
só não tinha sido procurado antes por nenhum outro
repórter. Às 17h em ponto eu saí de lá."


A matéria foi publicada em duas partes, nos dias 21 e 22/10.
Por sua importância no debate sobre o financiamento público
das empresas de mídia, e pela proeminência do personagem,
a entrevista de Octavio Frias de Oliveira à AOL e os links
originais são reproduzidos a seguir. (Luiz Egypto)

 

"O governo quer a mídia de joelhos"

Jorge Felix



Publicado originalmente no AOL Notícias, em 21/10/03,
em <http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/
2003/10/21/0004.adp
>


Ele é o último barão da imprensa. Neste ano
de 2003 viu seus congêneres morrerem: os donos de O Globo,
O Dia e Jornal do Brasil. O Estado de S. Paulo
há muito é administrado por herdeiros. Aos 91 anos,
o jornalista Octavio Frias de Oliveira, há mais de 40 anos
à frente da Folha de S. Paulo, é o único
dos históricos donos de jornais em atuação
no país.

Filho de família rica, descendente dos barões de
Itaboraí e Itambi, Octavio Frias de Oliveira teve uma adolescência
pobre depois que o pai e um tio quebraram e foi obrigado a empregar-se
como office-boy aos 14 anos. Aos 21, no entanto, já
era um próspero funcionário público da Receita
Federal. Depois, seguiu a tradição da família
e fundou um banco, o BNI, mais tarde comprado pelo Bradesco. Foi
com o dinheiro de uma aventura, a construção de uma
rodoviária em São Paulo, que ele e o sócio
Carlos Caldeira compraram a Folha de S.Paulo, em 1962. Com
mais de 50 anos, descobriu a carreira de jornalista e transformou
seu jornal em um forte concorrente do Estado de S. Paulo,
que fazia feroz oposição a seus negócios. De
lá para cá, o jornal cresceu, tornou-se um dos mais
influentes do país.

Simples, low-profile, "Seu" Frias, como prefere
ser chamado, recebe pouca gente no nono andar do prédio da
Rua Barão de Limeira. Quem tem esse privilégio nem
precisa usar crachá de visitante ou passar pela catraca.
Na ampla sala de reunião, anexa ao seu gabinete, mobiliada
com mesa com oito cadeiras, poltronas e decorada com capas históricas
da Folha, ele concedeu entrevista à AOL por quase
uma hora. Lembrou dos colegas donos de jornais mortos neste ano
e disse que assiste à maior crise financeira já enfrentada
pela imprensa brasileira.

Sobre a operação de socorro financeiro criada pelo
governo para sanear as empresas de comunicação com
dinheiro do BNDES, Frias disse que é contra. Segundo ele,
o chamado Promídia ? analogia com o Proer, o programa de
socorro aos bancos feito no primeira mandato do presidente Fernando
Henrique ? é uma estratégia do Palácio do Planalto
para comprometer os veículos. "O governo quer a mídia
de joelhos", afirmou o dono da Folha.

***

Como o senhor vê a discussão sobre um socorro especial
para a mídia por meio de empréstimos concedidos pelo
BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?

Octavio Frias de Oliveira ? Eu tenho receio. Eu tenho um
receio muito grande. Isso tende a interferir. Para falar claramente…
[Pausa, olhar perdido] nem sei se deveria dizer isso… [olha
no olho no repórter e fala firme
] em todo caso vou arriscar:
o que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não
uma mídia morta. Uma mídia independente não
interessa a governo nenhum. Dentro desse princípio é
difícil ver essa questão do BNDES. Por que criar um
sistema assistencial, preferencial para os jornais, para mídia?
Por quê? Se todo o empresariado está endividado, nunca
vi uma situação tão difícil em toda
a minha vida e estou apenas com 91 anos. Nunca vi uma situação
igual. Mas nós vamos sair dela.

O senhor acredita no espetáculo do crescimento?

O.F.O. ? Não, não. Isso está mais distante
do que se supõe.

O senhor é contra, então, que os jornais recorram
a esse socorro oficial?

O.F.O. ? Acho lícito que eles recorram, mas devem
ter o mesmo tratamento de todos os demais ramos da atividade industrial.
Não entendo porque distinguir a mídia.

O senhor certamente teve grandes encontros com personagens do poder.
Como foram os presidentes da República como interlocutores?

O.F.O. ? O que eu tive relações melhores foi
o Fernando Henrique, que foi nosso colaborador por mais de dez anos
escrevendo no jornal. Eu sempre me mantive afastado do
poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante
porque senão entra numa situação moral difícil.
A independência no Brasil é muito mal compreendida
ainda. Então não tenho histórias para contar
a este respeito porque sempre procurei manter uma distância
entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes
do país.

O senhor já teve alguma conversa com o presidente Lula?

O.F.O. ? Nunca tive nenhuma conversa com ele. Só
um incidente que houve aqui na Folha.

Eu gostaria que o senhor contasse a sua versão para este
episódio porque o senhor nunca falou e foi um encontro importante
com quem está hoje na Presidência da República.
Todo o meio jornalístico comentou muito sobre isso, mas pouco
se sabe do que realmente ocorreu

O.F.O. ? Nós o convidamos para almoçar aqui
na Folha [durante a campanha eleitoral], ele veio.
Na conversa, o Otavio, meu filho [Otavio Frias Filho, diretor
de redação do jornal
] perguntou a ele como ele
se sentia no que dizia respeito ao preparo para exercer a presidência
uma vez que ele não tinha curso superior. Ele não
gostou da pergunta. Achou a pergunta impertinente. Não entendi
porque tinha respostas facílimas a serem dadas, não?
E se levantou da mesa no meio do almoço e saiu. Eu tive que
acompanhá-lo até a porta. [Ri] Foi isso. Até
hoje não entendi. Depois eu sei que ele mandou recado para
esquecermos isto.

E o senhor esqueceu?

O.F.O. ? Eu, da minha parte, esqueço. [Ri]

Voltando à questão do BNDES. O jornalista Alberto
Dines, do
Observatório de Imprensa, chegou a comentar
que os jornais noticiaram o anúncio do socorro de uma forma
muito tímida. Como o senhor vê essa postura dos jornais?
Houve um tratamento privilegiado da mídia para com ela mesma?

O.F.O. ? É normal da parte dos jornais. Eu creio
que eles pretendem isso [o tratamento especial] e eu sou
contrário.

[Clique abaixo em PRÓXIMO
TEXTO
para ler a segunda parte da entrevista
de Octavio Frias de Oliveira ao AOL Notícias]

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