Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > FOME ZERO

A solidariedade eletrônica

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

FOME ZERO

Humberto Crivellari (*)

Fome Zero. Lula hasteou a bandeira com sua já reconhecida competência e a adesão foi geral. Todo mundo gostou, todo mundo se envolveu, todo mundo aplaudiu. Aliasmentemente, como diria o saudoso Odorico Paraguaçu, nem todo mundo. Entrevistando, de forma brilhante, um colega economista, o jornalista George Vidor, da TV Globo, perguntou:

? O senhor acha que ao comprar alimentos em grande quantidade o governo cai causar um enorme aumento da demanda, provocando uma alta geral nos preços, e por isso a inflação vai voltar a disparar?

O entrevistado deu um sorriso de simpatia e retrucou não acreditar que isso fosse acontecer. Fantástico.

Quero registrar que a própria TV Globo não é avessa à solidariedade; desde que esta seja orquestrada por ela. Há muitos anos já se repete o Criança Esperança, conduzido pelo Didi Mocó (?), embaixador da Unicef no Brasil, diga-se de passagem. Durante o show, e depois dele, passa-se o pires eletrônico: para doar 10 reais disque …., para doar 20 disque …, e a partir de certa quantia é só enviar o endereço do heliporto que mandaremos buscar.

Não é a mesma coisa. A campanha da TV Globo é asséptica, tem um quê de distância, as crianças não existem para nós como indivíduos, a grana vai para instituições, e tenho plena convicção de que uma parte dela chega mesmo a beneficiar crianças. Aliás, nem são apenas crianças, são crianças carentes, dá até a impressão de que nem são brasileiras, são internacionais, merecem ajuda, mas a ajuda vai por telefone, a gente não suja as mãos nem perturba as vistas com espetáculos deprimentes de pobreza, digo, de miséria.

Além de banqueiros falidos

A campanha do presidente Lula é diferente. Desde o princípio desconfiei de que havia algo por trás dela. Conversei a respeito. Ouvi de alguns: “Isto de dar comida é demagogia!” Bem, pode ser que seja. Os tempos evoluem, as palavras também. Que sabe demagogia possa ser o novo termo para a antiga caridade. Outros, mais profundos e didáticos, afirmam: “Deve-se ensinar o homem a pescar, e não dar-lhe o peixe.” E outros: “A causa da fome é o excesso de natalidade; a solução é uma imensa campanha de anticoncepção.” Belas palavras, as deles; como disse Marco Antonio, no Julius Caesar, de Shakespeare, eles são todos homens honrados.

Bem, chega de tergiversar. Agora eu acho que cheguei à raiz da coisa: Lula não é trouxa e sabe muito bem que é muito mais fácil governar um povo do que governar um bando. Sabe também que um grupo de pessoas que não têm o menor amor pelo semelhante é apenas um bando, se não for coisa pior. Sabe que é muito difícil e demorado levar um povo inteiro a pensar em argumentos racionais, e é muito mais rápido e eficiente agir pela emoção, pelo sentimento, pelo exemplo, para criar um sentimento geral de solidariedade. Não a solidariedade asséptica por telefone.

Por isso, pegou seus ministros, e levou-os lá. Ao fazê-lo foi como se pegasse todos os brasileiros pelas mãos e os levasse lá. Comprometeu sua palavra e com ela comprometeu todo mundo. As pessoas ? e os jornalistas ? que estão achando sua atitude estranha vão acabar se acostumando, pelo menos. E vão compreender que solidariedade não é só para banqueiro falido, e que alimentos podem ser doados também, e não apenas dinheiro do Tesouro Nacional, via Proer.

(*) Neurologista em Belo Horizonte

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