Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A teoria das materialidades e a crítica à hermenêutica

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Jamil Salloum Jr. (*)

A Teoria da Comunicação pode ser vista, presentemente, afligida por uma ausência de coesão em estudos que, por vezes, se diluem em múltiplas concepções. É o que acha também o professor de Comunicação Roberto Elísio dos Santos, do Instituto Metodista de Ensino Superior, ao apontar a falta que faz neste campo um melhor delineamento de métodos, técnicas, pressupostos e princípios. Por outro lado, entendemos ser isso natural em uma área ainda tão jovem. Neste caleidoscópio teórico, surgiu, mais recentemente, uma concepção que veio abalar a TC até os fundamentos: a Teoria das Materialidades da Comunicação.

Tal concepção teórica tem sua gênese na revisão que alguns autores, lingüistas, literatos e semiólogos começaram a fazer da precedência que sempre se deu ao "significado" sobre o "significante", da essência em detrimento do suporte material. Jacques Derrida é um dos que desenvolveram esta idéia. Este caldo teórico começou a ser estruturado a partir dos anos 80. Atualmente, porém, o principal polarizador da Teoria das Materialidades da Comunicação é o alemão Hans Ulrich Gumbrecht. Preocupado com a estética do fenômeno receptivo, Gumbrecht tem extensa carreira acadêmica. Em seus estudos iniciais sobre literatura defendeu a necessidade de se extrapolar o texto como objeto último de sentido e considerar as condições externas e históricas capazes de reconstruir no receptor este sentido. E mais: que este, o sentido, poderia, quem sabe, ser formado a partir de fatores externos condicionantes, rompendo, assim, com uma interpretação unívoca e precedente.

Mas Gumbrecht foi mais fundo. Defendeu, para espanto de muitos, que a busca do sentido de um texto (seja verbal ou não-verbal) não era mais a preocupação e nem deveria se constituir em objeto de estudo! O que importa, segundo ele, é simplesmente descrever as condições históricas e materiais nas quais o texto foi produzido. O suporte material, enfim, determina o sentido. Aqui vemos uma estranha retomada da brilhante proposição de McLuhan, com seu "o meio é a mensagem". No entanto, para Gumbrecht, isto é mais do que uma constatação, poderia converter-se em paradigma normativo de pesquisa, o que, certamente, não o era para McLuhan.

Totalidade dialógica

Gumbrecht, para melhor fazer compreender sua teoria materialista da comunicação, começa por analisar as características da pós-modernidade, período de desintegração teórico-epistemológica, onde já não são mais possíveis pensamentos fechados e totalizantes. Propõe, assim, três características para definir este período histórico contemporâneo: "destemporalização, destotalização e desreferencialização". Na primeira, rompe-se com a concepção de um tempo linear e determinista, como se acreditava na modernidade; a segunda alerta para a impossibilidade de atribuir-se a uma teoria, qualquer que seja, uma noção universalista e final: abstrações absolutistas estão fora de questão; a última característica pós-moderna, a desreferencialização, promove a perda das certezas de outrora, instaura o campo da dúvida e engendra, de fato, uma postura mais humilde no pesquisador. Aplicando estas noções à TMC, Gumbrecht quer deslocar a preocupação da hermenêutica, desde sempre com o sujeito, para um campo não-hermenêutico, em que o sentido passa a ser determinado pelo objeto, e não mais pelo sujeito. Não podemos deixar de admirar aqui a magnitude da tarefa que o pesquisador alemão chama para si: "apenas" desconstruir a hermenêutica!

Para sustentar sua proposição ousada, Gumbrecht vai buscar o conceito de "acoplagem" proposto pelo biólogo Humberto Maturana, que estuda como se dão as interações entre dois sistemas (como o ato de pintar e o suporte material da pintura, o quadro, a aquarela etc.). Esta interação contínua, para Maturana, produz um "ritmo" que pode vir a ser determinante do sentido. Simplificando, mais do que as idéias abstratas do pintor, que as teria transferido ao quadro, é o "ato" de pintar que plasma o significado. Desloca-se, como já foi dito aqui, a paternidade do sentido pelo sujeito em direção ao objeto. Um exemplo já famoso é o de Friedrich Kittler, que sugeriu que certas idéias de Nietzsche poderiam ter sido influenciadas pela forma arredondada de sua máquina de escrever. Daí o "campo não-hermenêutico" de Gumbrecht, e saí o nome "Materialidade da Comunicação" para as idéias de que se tornou o principal defensor. As aplicações desta teoria são vastíssimas, cobrem toda a produção cultural e contemplam, ainda, o notável avanço eletrônico e informativo da atualidade.

É impossível resumir em um artigo como este a riqueza e a complexidade extraordinária que formam a TMC. Mesmo discordando das conclusões a que Gumbrecht vem chegando, reconhecemos a importância desta nova proposição no âmbito da Teoria da Comunicação. Com foi dito no começo, esta área permaneceu, e ainda permanece, prisioneira de um espírito "epistemocêntrico", sofrendo de um "metodismo" que pode ser paralisante, para usar dois termos propostos pela professora Lucrecia D’Alessio Ferrara, da USP. Este mal, aliás, é o mal de toda a ciência moderna, sob o antigo paradigma cartesiano. Engessamentos ideológicos são, principalmente, o que se deve combater, em qualquer área, por isso a diversidade de opiniões, uma ciência mais dialógica do que monológica, deve ser a meta daqui para a frente.

Isto não significa que autores do passado devam ser esquecidos e enterrados. Pelo contrário! Devem, isso sim, ser revistos, atualizados, rediscutidos. Mas o que queremos apontar é, sobretudo, a falácia da compartimentalização das disciplinas da ciência, compartimentalização esta que vem sendo combatida incessantemente pelos adeptos da teoria holística e, mais particularmente, pela multidisciplinariedade de Bassarab Nicolescu.

No que tange ao jornalismo, já não é mais possível acomodar-se às disciplinas exclusivas desta área, mas transcendê-las e correlacioná-las a outros campos de saber. Não só porque o mercado exigirá cada vez mais, mas porque é necessário sair de uma totalização monológica rumo a uma totalidade dialógica.

(*) Jornalista

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