Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO ECONÔMICO

A ética e o caminho das pedras

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

JORNALISMO ECONÔMICO

Elementos de Jornalismo Econômico, de Sidnei Basile, 256 pp., Negócio Editora/Editora Campus, Rio de Janeiro, 2002. Preço: R$ 45,00

Jornalista experiente e apaixonado pela profissão, Sidnei Basile reúne neste livro temas que interessam não apenas a estudantes mas também a tantos outros profissionais que buscam compreender como o noticiário de economia e negócios é hoje ferramenta fundamental para indivíduos, empresas e nações.

Originalmente organizado como texto de apoio para as aulas que o autor ministra
na Faculdade Casper Líbero, em São Paulo, Elementos de Jornalismo
Econômico
é um manual do ponto de vista do jornalismo com dicas
práticas em relação aos fundamentos gerais da profissão
e minucioso quanto aos aspectos técnicos e comportamentais do dia-a-dia
das redações. O livro discute assuntos pertinentes a qualquer
leitor de jornal ou revista. Trata didaticamente de questões polêmicas
como por exemplo a ética na cobertura de economia e a abertura do capital
das empresas de mídia.

 

(*)

Humberto Pereira (**)

Afinal, o que levou Sidnei Basile a terminar este livro com um posfácio em que invoca Dante Alighieri em sua viagem ao inferno, conduzido pelo poeta Virgílio? Pois o assunto anunciado no título é o jornalismo econômico, aparentemente sem parentesco algum com a Divina Comédia. A leitura do livro, no entanto, deságua com naturalidade nos nossos tantos infernos. Não como desesperança, sofrimento ou castigo moralista. Mas como desafio.

Originalmente, o texto foi elaborado para estudantes de jornalismo. Foi exposto, debatido e provado em sala de aula. Os estudantes são, portanto, seu destinatário principal. Organizado, agora, em forma de livro tornou-se instigante também para quem já é jornalista, para quem é político, educador, jurista, economista, leitor de jornais e revistas ou, simplesmente, cidadão. Ao tratar com experiência de jornalismo econômico, Sidnei expõe também sua concepção de jornalismo em geral. Ou, mais precisamente, de jornalismo sem qualquer adjetivo. Jornalismo que encontra sentido na sociedade livre e democrática, servo do direito do cidadão de ser informado e de informar. Praticamente em todos os capítulos o leitor é levado a imaginar como seria nossa vida sem notícias, sem aquelas informações que interessam à nossa cidadania. Sidnei Basile pertence a uma geração de profissionais que não precisa imaginar como seria isso. Ele conviveu com o cerceamento da informação na Folha de S.Paulo e, principalmente, na Gazeta Mercantil.

Por paradoxal que possa parecer, ele nos conta, foi justamente a censura do regime militar que ensejou o desenvolvimento do noticiário econômico no Brasil, já que o político era quase impossível. O direito do cidadão à informação de natureza jornalística, como direito, tem raízes profundas em costumes e necessidades que remontam aos primórdios da vida do homem em sociedade. Não foi inaugurado nos códigos modernos e não é tão jovem quanto a imprensa gutenberguiana. Se vivemos juntos, em sociedade, é essencial que tenhamos acesso, cada um de nós, ao que acontece, ao que se passa. Desde o aparecimento de um buraco na rua por onde transitamos todo dia, até as decisões dos líderes que escolhemos, até os grandes sucessos que podem de alguma forma mudar nossas vidas. O que há de recente são as instituições e os profissionais dedicados ao processamento e ao fluxo das informações. Os jornais, revistas, programas de rádio, de televisão, os sites, as grandes e complexas empresas de comunicação. Os profissionais especializados em colher e transmitir as notícias são os jornalistas. Arautos, pregoeiros, mensageiros seriam os ancestrais dessa profissão, embora a notícia tenha uma força imanente capaz de encontrar, de boca em boca, os caminhos para se difundir. Ou até o caminho de simples sinais.

Noé ficou sabendo que o dilúvio estava terminando quando uma pomba que soltou voltou com um ramo de oliveira no bico. Mesmo se tratando de narrativa mítica, a situação de Noé, na arca, nos mostra bem a necessidade da informação, no caso meteorológica. Um exemplo histórico, onde comparecem vários fundamentos do jornalismo atual, é o da batalha na planície de Maratona, em 490 a.C. Dario ataca os atenienses com chances quase absolutas de vitória. Tanto que mesmo em Atenas alguns cidadãos achavam que os gregos deveriam se submeter aos persas sem briga. Mas houve a batalha e os atenienses ganharam. Uma grande notícia! Atenas, a cidade, a 40 quilômetros de distância, tinha o direito e a necessidade de saber disso. Urgentemente. Um soldado anônimo correu a levar a informação que, num primeiro momento, podia ser resumida numa única palavra: Vencemos!

Caso houvesse acontecido uma derrota sua notícia deveria ser igualmente levada à cidade. Urgentemente. Porque o direito à informação não pode discriminar nem a vitória, nem a derrota. Tampouco o buraco na rua.

Ora, ao tratar do vasto segmento da cobertura econômica, Sidnei destila ao longo de seu livro exatamente a concepção de jornalismo atrelado à democracia. Assim, a sociedade devidamente informada é uma sociedade melhor. O papel que reconhece no jornalismo não é de poder, não é presunçoso. Mas é imprescindível para a qualidade da cidadania, é condição de saúde social e de liberdade. As tentações ao lidar com algo de tal forma importante são vastas também. Daí a postura de humildade que deve nortear o trabalho dos jornalistas. Mais de uma vez o texto faz referência à comparação do jornalismo com o cano por onde passa a água (a notícia). O jornalismo é tão-somente o cano.

Contudo, por mais nobre que seja quando concebido idealmente, o jornalismo não pode ser entendido como remédio messiânico para os males da sociedade. O jornalismo econômico, no caso, por mais puro e correto que fosse, não resolveria os problemas macro e microeconômicos do país. Ele é condição, não solução. O Brasil tem liberdade de expressão garantida na Constituição. Nem por isso estamos vivendo numa sociedade feliz e resolvida, o que seria um ponto de chegada a ser almejado. Tal como a democracia ? e de braços dados com ela ? o jornalismo é um processo penoso, maratona permanente de batalhas inéditas a cada dia. Por essa senda conseguimos entender o porquê do inferno do posfácio. Na verdade, Sidnei Basile invoca, não um, mas dois infernos. O de Dante, de onde aproveita a forma, e o de Sartre, para quem o inferno está aqui e são os outros. São todas as imperfeições, todas as armadilhas, canalhices, violências, falcatruas, mentiras, injustiças cada vez mais modernas e mais sofisticadas… com as quais realmente convivemos. E antes que se pense num bom rapaz terçando armas numa cruzada utópica e solitária é bom avisar que a selecionada e atual bibliografia oferecida pelo livro revela o mesmo tipo de preocupação com o significado do jornalismo nos países que mais cultivam os princípios democráticos.

Às vezes a própria sociedade não tem plena consciência do papel do jornalismo para sua sobrevivência. Mas não raro as forças prepotentes e criminosas demonstram, pelo avesso, que sabem bem como uma imprensa livre incomoda e ameaça. No capítulo sobre jornalismo econômico investigativo encontramos um caso em que a agressão à imprensa chegou às vias de fato: o assassinato do repórter Don Bolles do jornal Arizona Republic nos Estados Unidos. Bolles foi morto por um carro-bomba durante a apuração de um caso de corrupção. Seus colegas continuaram o trabalho afirmando que "eles poderiam matar o jornalista, mas nunca a investigação". A possibilidade de tal desatino está presente em qualquer sociedade organizada. Quando este livro foi escrito o repórter Tim Lopes ainda não tinha sido assassinado no Rio. Mas trata-se do mesmo fenômeno. Em outras palavras, se morre o jornalismo, ou mesmo se ele adoece, é a sociedade livre que começa a morrer.

O jornalismo econômico é tratado aqui do ponto de vista do jornalismo e não do ponto de vista da economia. Parece óbvio, mas não é. São inúmeros os cursos e seminários que pretendem ensinar jornalismo econômico a partir do entendimento do mercado financeiro, dos mecanismos das bolsas, do orçamento da união ou dos balanços dos bancos. Um equívoco. Claro que o jornalista que cuida de economia tem que saber dessas coisas como o colega que cobre futebol deve saber distinguir um médio-volante de um atacante. Mas para compreender sua própria especialidade o ponto de partida do jornalista deverá ser o conjunto dos fundamentos de sua profissão.

O mercado e os cidadãos

Elementos de Jornalismo Econômico não é um manual. Não impõe regras. Não dá receita com ingredientes e dosagens precisas, o que seria ilusório. Mas em seus capítulos práticos transmite uma sabedoria que só a experiência pode proporcionar. Por exemplo: O alerta para se evitar o engano entre milhão e bilhão, aqui tratado como "maldição". De fato. Quantas centenas, milhares de vezes, esse erro foi impresso e falado na mídia! Isso decorre do fato de nós jornalistas, no geral, sermos oficiais das palavras e não dos n&uacuteuacute;meros. Nossa tendência é mais literária do que aritmética. Por isso temos que ter cuidado redobrado quando tratamos de quantidades e grandezas. E no jornalismo econômico o profissional vai viver sempre às voltas com elas.

Outro exemplo precioso: quando fala de reunião de pauta (um dos passos mais marcantes para a consecução do produto jornalístico, em todas as áreas), Sidnei Basile faz uma declaração decisiva: reunião de pauta para ser produtiva e criativa tem que ser feita com humor, em ambiente de humor. E humor, bem sabemos, não é artigo encontrável em manuais ou prateleiras. Permito-me, aqui, um testemunho pessoal. Dirijo a redação do programa Globo Rural da Rede Globo há mais de 20 anos. Ao ler estes capítulos técnicos tenho a impressão de que Sidnei Basile passou por lá bisbilhotando nossas mazelas para redigir certas recomendações. "Não fique dependurado no telefone, por favor"… o que ele chama de "a pior praga de nossas redações, hoje em dia". "Excesso de números e estatística esconde uma falta de ponto de vista, de foco sobre o que se quer mostrar." Outra: "Evitar o excesso de criatividade. Os bons recursos de edição ajudam muito. Mas se ajudarem demais, acabam mesmo é atrapalhando." Isto em televisão, em que os recursos e efeitos eletrônicos são ilimitados, pode levar à total incompreensão do material editado.

Situado em relação aos fundamentos gerais do jornalismo, minucioso quanto aos aspectos técnicos e até comportamentais do dia-a-dia das redações, o livro finalmente nos desafia a pensar nas encruzilhadas pelas quais passa o jornalismo econômico neste começo de século. Tendo resgatado um pouco da história da informação econômica (vindo lá da bolha das tulipas que abalou a Europa, particularmente a Holanda, no século 17) e dedicando um capítulo à história do jornalismo econômico no Brasil, desde os primeiros esforços para traduzir o assim chamado "economês" até as atuais publicações especializadas, é nos seus capítulos finais que as cartas se embaralham. É a história, aqui e agora, tendo nós mesmos como protagonistas, atormentando empresas e profissionais que pretendem ver claro e ser vistos claramente.

Acontece que a informação em si virou um grande negócio que vige no mercado como qualquer outro negócio. Hoje, ela é produto de grandes empresas, de enormes conglomerados, onde convive com outros produtos tais como entretenimento, peças de relações públicas, publicidade e propaganda. Por sua vez, a imprensa (no sentido estrito) não é mais o veículo exclusivo a transportar a informação jornalística. Há o rádio, a televisão, a internet, o telefone portátil, a mala-direta, o telefax. Dando suporte a todas essas mídias (antigas e novas), além dos cabos convencionais temos a fibra óptica, o laser, os satélites. E há sobretudo as incontáveis possibilidades de combinação dessas coisas se complementando naquilo que se chama convergência de mídias ou de plataformas. A rapidez, critério que começou lá no vôo da pomba de Noé e nas pernas do maratonista, chega a desaparecer simplesmente pela eliminação do tempo que vai do momento do fato até seu conhecimento por parte do público. Ou seja, o rápido deu lugar ao instantâneo, o "ao vivo". No 11 de setembro de 2001, nós, os cidadãos do mundo inteiro, vimos, diretamente, os arranha-céus caindo em Nova York. Da mesma forma que já tínhamos visto, em 20 de julho de 1969, o homem pondo o pé na lua.

Diante desse cenário vertiginoso é natural nos perguntarmos onde fica aquela pureza da notícia a que o cidadão tem direito? Onde fica a notícia que tem a pretensão de informar sem necessariamente querer influir, manipular, divertir, vender toda sorte de produtos? São questões inevitáveis. Até que ponto a notícia pode se misturar com o entretenimento? Ou, até que ponto o entretenimento pode explorar a credibilidade da notícia para se "esquentar"? Quais as fronteiras devidas entre a notícia jornalística e a publicidade, o marketing e as relações públicas? Quais os condicionamentos que a ética do jornalismo tem que impor às empresas de comunicação e mídia que têm exatamente nele, jornalismo, um de seus melhores negócios? Enfim, o jornalismo deve ser feito para o mercado ou para os cidadãos?

Sim, é tudo muito complexo. Estamos longe dos velhos tempos em que o problema era simplesmente saber se o jornal era parcial ou imparcial. Mesmo assim não há senão uma saída. Sidnei Basile cita Bill Kovack e Tom Rosenstiel, pesquisadores da Universidade de Harvard, para quem "a primeira lealdade do jornalismo é para com os cidadãos". E mais: "Cidadãos não são clientes. São cidadãos. Notícias são notícias, e não serviços ao consumidor."

Pode não ser o paraíso (onde Dante Alighieri acabou chegando pelas mãos da bem-amada Beatriz), mas é o rumo. Para o jornalismo o rumo é sempre o cidadão. Que Sartre nos perdoe, mas o céu também são os outros.

(*) Título da redação do OI

(**) Jornalista, diretor do Globo Rural

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