Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA NA COPA

A ética e o jornalismo esportivo

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

MÍDIA NA COPA

Ivo Lucchesi (*)

O maior evento "esportivo" do mundo entra em sua fase final. É hora de balanço, não tanto pelo acontecimento. Deste especificamente já tratei nos dois últimos artigos [remissões abaixo]. Creio que tenha ficado claro, pelo menos aos olhares atentos que outra opção não resta, senão a seguinte conclusão: a Copa do Mundo foi transformada, como de resto quase tudo, em business. Como tal , é a lógica dos negócios que a move. Agora, o momento é propício para avaliação quanto ao comportamento do jornalismo (impresso ou eletrônico), responsável pela cobertura do futebol, ou do que deste pôde sobreviver nessa "competição".

A ética jornalística

Talvez, os fatos ocorridos nessa "Copa-fake" (e não foram poucos) possam servir para um reexame quanto à função que cabe ao jornalista. O fato de a Copa ser um grande negócio a movimentar bilhões de dólares não impõe ao jornalista que ele se comporte como mero "garoto-propaganda". Significa isto dizer que o jornalista tem o dever de, sendo medidador e formador de opinião, pontuar criticamente o desenrolar dos verdadeiros acontecimentos. Não minimizemos a importância do futebol (e do esporte em geral). Nele há elementos de fortíssimo apelo educativo, com relevantes reflexos na construção do caráter: a ética e a estética. Quando esses dois pilares sofrem a contaminação de meios e fins inautênticos, o esporte passa a ser o simples reduto de corpos a colidirem entre si, com o propósito beligerante de um exterminar o outro. Nesse quadro, a beleza estética e a conduta ética convertem-se em barbarização a serviço de interesses mercadológicos.

É inaceitável que a imprensa esportiva, com raríssimas exceções, em nome da salvaguarda corporativista, não denuncie clamorosas demonstrações de resultados arrumados. Várias equipes tiveram suas rotas radicalmente alteradas ou arruinadas, em função de "arbitragens" desqualificadas. Dos quatro semifinalistas, três chegaram a esse estágio, graças a declaradas injustiças contra equipes adversárias e, acima de tudo, contra milhões de espectadores. Brasil e Coréia foram as duas seleções mais contempladas pelos "arranjos". Turquia (na primeira fase) e Bélgica (nas oitavas-de-final) serviram de cobaias do "erro humano planejado", em favor do Brasil. Itália, Espanha e EUA receberam a passagem de volta antecipada pela mesma razão. Ou seja, até o presente momento (estou escrevendo o artigo antes do início das semifinais), somente a Turquia não teve nenhum "suporte artificial". Apesar do quadro posto, os jornalistas brasileiros se limitam timidamente, quando muito, a comentar, meio na galhofa, as severas denúncias que, em manchetes, seus colegas internacionais produzem.

No mundo inteiro, jornais estampam frontais acusações quanto à manipulação de resultados. Na imprensa brasileira, porém, o cinismo (ou infantilismo) parece reger e engrossar o coro da farsa. Pobre Tim Lopes! Por quem (e pelo quê) terá morrido? Seguramente, encontrou a morte pela irresistível paixão que impulsiona o herói trágico.

Será que os jornalistas esportivos, em algum momento, se dão conta de que apenas eles não tratam daquilo que fartamente é objeto de conversa em cada esquina? Mesmo torcedores aficcionados sentem a fedentina da "armação" a pairar na atmosfera dessa "Copa-fake". Todavia, por razões obscuras, sobre tal matéria nossos "diligentes jornalistas" nada declaram. Terão eles o alcance do que fazem (e não fazem), numa sociedade como a brasileira, tão frágil em olhar crítico e tão confusa em princípios éticos, ao silenciarem sobre a imoralidade presenciada por milhões de espectadores? Será que eles têm a dimensão do que significa, para jovens em formação, passar recibo em falcatruas? Ou estarão imaginando, ingenuamente, que, ao silenciarem sobre tais problemas, fortalecem o sentido da "brasilidade", acreditando que a vitória, seja como for, é um benefício para nós? A vitória enaltecerá a "brasilidade", mesmo sob o preço da degradação ética?

Como jornalistas podem cobrir o esporte, desvinculando-o de comprometimento com o sentido de verdade e de justiça? Denunciar a trama no qual está envolvido o esporte (e, em especial, o futebol) não o macula, redimensiona-o ao patamar devido. Ou, por acaso, julgam ser edificante, para os jovens, a lição na qual tudo é válido em nome de sermos "campeões"? Qualquer roubo e qualquer tramóia serão justificáveis e até meritórios. Será esse o exemplo dado?

Outros, tentando livrar a própria pele, recorrem a ditos simplistas e falsos: "O azar de um é a sorte do outro"; ou, "O que importa é o povo feliz!". Outros ainda são capazes de deformar (ou ignorar) o que a própria imagem não deixa dúvida. São mistificadores a serviço do que há de pior. Não satisfeitos, glorificam a trapaça e endeusam a mediocridade. Enfim, seria uma bela correção ética, se a Turquia conquistasse o título (a menos que também ela venha a ser beneficiada). Enquanto isso, Nike e Adidas disputam, palmo a palmo, cada par de tênis (e outras quinquilharias) no apetitoso mercado asiático.

Arrumação na "armação"

Apenas para reavivar a memória acerca do que desenhamos no artigo anterior, a "copinha" chega ao seu final apresentando perfeita simetria entre as marcas que efetivamente disputam a Copa. Das 32 seleções, 9 foram patrocinadas pela Adidas e 8 ficaram a cargo da Nike. As 15 outras seleções tiveram o sucateamento entre Puma, Hummel, Atletica, Le Coq Sportif, Kappa e Joma. Eis que o quadro das semifinais traduz as seguintes combinações, já anunciadas no último artigo: Alemanha (Adidas) x Coréia (Nike); Brasil (Nike) x Turquia (adidas). Por aí, pode-se perceber quem comanda o "espetáculo". Na Copa de 98, a combinação não foi diferente.

Felizmente, está por acabar mais uma "aventura" de um evento que foi incapaz de apresentar um jogo de futebol com real talento ou emoção, a despeito alguns narradores ficarem roucos de tanto histrionicamente inventarem "genialidades" em jogos que apenas eles vêem. Para terminar, como na "Copa armada de 78", criou-se a "categoria" de "campeão moral", sugiro, para a "copinha arrumada de 2002", o título de "campeão imoral"… Aguardemos o desfecho.

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ.

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