Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO GUGU

A TV cai de podre

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

CASO GUGU

Paulo Roberto de Figueiredo (*)

Na década de 70, o secretário de Estado americano Henry Kissinger, notabilizado pelo empenho em aprofundar o neocolonialismo e estabelecer de maneira global a exploração impiedosa dos paises mais ricos sobre os mais pobres; aconselhava, numa das reuniões para este fim, a seguinte receita:


"Devemos envidar o máximo empenho na promoção dos meios eletrônicos em detrimento dos meios impressos, pois consideramos que o cinema e, principalmente, a TV, infundem suas mensagens no povo sem permitir a estes qualquer reação, enquanto os meios impressos, mais detidamente, os livros, são muito perigosos, porque ensinam a pensar."


Mais do que a submissão econômica, que são perdas materiais, orientava aquele indivíduo para a apropriação das mentes e dos corações dos povos dos países periféricos, como o nosso, despojando-nos de nossas culturas e enfraquecendo nossas raízes. São as perdas espirituais, e estas ensejam o grau máximo de subjugação.

Reação espontânea

Ao que tudo indica, eles estão obtendo êxito neste projeto. Está a TV sempre aliada aos interesses alienígenas, formando verdadeiros exércitos de boçais. O povo brasileiro figura entre os que menos lêem livros, e isso é preocupante. Está provado que a leitura dos livros ativa determinadas áreas do cérebro, aprofundando a personalidade existencial, porque faz com que o leitor crie as imagens dos personagens e dos cenários. A TV, ao contrário, já os entrega prontos, e de acordo com os interesses dos veiculadores. O idiota, perdão, o telespectador só precisa engolir a mensagem. Dá-se adeus à capacidade de raciocinar, interpretar, discernir.

Note-se que os consagrados "fabricantes" de instrumentos de pensar, que são os escritores de livros, ficam escondidos até escreverem novelas para a TV. Ali os diretores burilam as histórias e inserem ingredientes para tornar as mensagens mais palatáveis, vez que não temos a cultura da leitura. Isso sem falar na propaganda subliminar, de cuja regulamentação nunca se fala abertamente e que, suspeita-se, esteja sendo utilizada em grande escala, inclusive no Brasil. Mas isso fica para outra oportunidade. Com certeza, aqueles que, contrariando a tendência majoritária, lêem livros receberam as primeiras e importantes condições de alforria espiritual.

Diz o ditado: "O pior cego é o que não quer ver." No nosso caso, "o pior cego é o que só quer ver televisão."

Sobre o episódio Gugu, não pensem que toda esta bulha, a indignação e os protestos tenham se originado em reação precipitada da sociedade. Foi uma reação espontânea de algo já deteriorado por conta própria. O episódio Gugu foi a gota que faltava para derramar o conteúdo contaminado há muito tempo. A TV brasileira apodreceu e está caindo sozinha.

Imprensa alternativa

Estamos diante de um quadro de verdadeiro descalabro. Porém, a realidade não parece tão nítida porque está sendo usurpada pelos que deveriam ser os guardiões da voz da sociedade. Outrora chamada de quarto poder, a imprensa já seria uma intrusa, desequilibrando a trilogia dos poderes democráticos.

Insaciável em sua ganância, a imprensa hoje quer o poder absoluto. Não é raro vermos, sob a complacência dos poderes constituídos, a televisão, a mais danosa entre os meios de comunicação quando mal utilizada, "acusar", "condenar" e "executar" pessoas, sem o direito mínimo de defesa, procedendo como um tribunal dos regimes de exceção. Ela se faz, sumariamente, de promotor, juiz e carrasco contra qualquer um que ameace os interesses, principalmente econômicos, seus e de seus aliados. E para garantia destes interesses, passa por cima de qualquer coisa. Ignora-se a ética, a moral, a liberdade e o direito. E passa por cima de todos estes mesmos dignos conceitos para defender seus apaniguados em interesses escusos. Tudo para garantia do que se propuseram desde o inicio: usurpar e espoliar a dignidade do Brasil e de seu povo.

A chamada imprensa alternativa veicula em inúmeras publicações, atestando o que digo, artigos de pessoas sérias, honestas, competentes, inteligentes e, sobretudo, nacionalistas e corajosas; e que, por não terem mácula moral para ser explorada pela grande mídia, são colocadas no ostracismo noticioso. Estes abnegados brasileiros são incansáveis denunciantes das atitudes criminosas e impatrióticas deste modelo de comunicação. Algumas destas pessoas têm sacrificado suas carreiras profissionais e, às vezes, até a credibilidade; sim porque esta grande mídia procura por vezes desacreditá-las.

Despotismo econômico

A denúncia mais contundente contra os efeitos nocivos da televisão brasileira, nos chegou através de um manifesto vigoroso de um dos mais eminentes prelados da alta hierarquia eclesiástica de seu tempo. Dom Lucas Moreira Neves, na época, cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, em artigo intitulado "J?acuse", publicado em 13 de janeiro de 1993. Portanto, há 10 anos:


"Do polêmico manifesto de Emile Zola estou plagiando somente o título e, se puder, a veemência. Fora isso, não pretendo revisitar nesta crônica o clamoroso affaire Dreyfus. O meu ?J?acuse? é assentado contra a televisão brasileira. E o faço como brasileiro preocupado com o meu país e como bispo responsável por grande número de fieis.

Não quero, de modo algum, generalizar. Estou pronto para excetuar da minha acusação o canal dedicado à educação e cultura e os programas que, nos diferentes canais, contribuem para o crescimento e a elevação cultural e humana da população.

Feito isso e tomado por testemunhas a sociedade brasileira, os pais de família e os educadores em particular, os pastores de igrejas e lideres religiosos, eu acuso a televisão brasileira por seus muitos delitos.

Acuso-a de descumprir sistematicamente as funções em vista das quais obteve do governo uma concessão: informar, educar, cultivar a consciência e divertir. Em vez disso, ávida somente de pontos no Ibope e de faturamento, ela não hesita em apelar aos instintos mais baixos do homem. Seu pecado mais grave é o que concerne à educação por ser esta a necessidade e a exigência, fundamentais no nosso país. Com raras e louváveis exceções a TV brasileira não só não educa, mas, com requintes de perversidade, deseduca. Abusando dos seus recursos técnicos, do seu poder de persuasão e de penetração nos lares do país inteiro, ela destrói o que outras instancias pedagógicas e educativas, a duras penas, procuram construir.

Acuso a televisão brasileira de ministrar copiosamente à sua clientela os dois ingredientes que, por um curioso fenômeno, andam sempre juntos: violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda (…) com sua enxurrada de pornografia, a TV brasileira está formando uma geração de voyeurs.

Acuso a televisão de nosso país de estar utilizando aparelhagens e equipamentos sofisticados com o objetivo de imbecilizar faixas inteiras da população. Uma geração de debilóides. O processo se torna consternador e inquietante quando, a pretexto de humor, um instrumento de educação, onde o mau gosto, a idiotice o achincalhe são dados em pasto às crianças, adolescentes e jovens em formação…, ao apontá-lo como verdadeira regressão, por meio de um repertorio de boçalidades.

Acuso a televisão brasileira de ser demolidora dos mais autênticos e inalienáveis valores morais, sejam eles pessoais ou sociais, familiares, éticos, religiosos e espirituais. Demolidora porque não somente zomba deles, mas os dissolve na consciência do telespectador e propõe, em seu lugar, os piores contravalores. Neste sentido é assustadora a empresa de demolição da família e dos mais altos valores familiares ? amor, fidelidade, respeito mútuo, renuncia, dom de si ? realizada cotidianamente, sobretudo pelas telenovelas. Em lugar disso, o deboche e a dissolução, o adultério, o incesto.

Acuso a televisão brasileira de ser corruptora de menores, em virtude de programas da mais baixa categoria moral, pelas cenas e pelo palavreado, em horários em que crianças estão diante da caixa mágica.

Acuso-a de atentar contra o que há de mais sagrado, como seja a vida.

Acuso-a de disseminar idéias, crenças, práticas e ritos dos mais estranhos. Ela se torna, deste modo, veículo para a difusão da magia, inclusive magia negra, satanismo e rituais nocivos ao equilíbrio psíquico.

Acuso a televisão brasileira de destilar em sua programação e instilar nos telespectadores, inclusive jovens e adolescentes, uma concepção totalmente aética da vida: o triunfo da esperteza, do furto, do ganho fácil, do estelionato. Neste sentido, merecem uma analise à parte as telenovelas brasileiras sob ponto de vista psicossocial, moral e religioso. Quando foi que, pela ultima vez, uma novela brasileira abordou temas de relevantes interesses sociais em geral? Qual foi a novela que propôs ideais nobres de serviço ao próximo e de construção de uma sociedade melhor? Em lugar disso as telenovelas oferecem à população empobrecida, como modelo e ideal, as aventuras de uma burguesia em decomposição…

Acuso, enfim, a televisão brasileira de instigar a violência: a televisão brasileira terá de procurar dentro de si as causas da violência que ela desencadeou… Ela não pode procurar álibis quando esta violência produz frutos amargos. Quem matou, há dias, uma jovem atriz? SerIa ingenuidade não indicar e não mandar ao banco dos réus uma co-autora do assassinato: A TV brasileira!"


Este manifesto foi publicado em 1993, e está claro que a televisão brasileira permanece a mesma: infausta. O regime vigente não é nem nunca foi uma democracia. Vivemos uma ditadura disfarçada, vivemos um despotismo econômico, o fator financeiro colocado acima de todos os valores humanos, sociais e espirituais.

Um direito

Não estou combatendo as figuras humanas, combato o que elas representam quando dirigem, erroneamente, este monstro que é nossa mídia. Que tanto pode ser grande benfeitora ou malfeitora da sociedade, dependendo do jeito que seja comandada e que interesses professem. Os homens são passageiros. Os vícios e as virtudes ficam. Não se combate o doente, mas a doença que dele se apossou. Não se glorifica o bom, mas a bondade que ele carrega.

A existência individual de cada um é frágil e efêmera. Mas a existência humana, a cultura humana e a força humanas são poderosíssimas e duradouras. Basta olharmos ao redor e vermos que somos capazes de coisas grandiosas e belas; ao mesmo tempo, de perversidades e ignomínias.

De que adianta combater apenas o tirano se há filas de pretendentes ao posto? Então, para que estes pretendentes não tomem assento é preciso que destruamos o "trono da tirania". E este trono, muitas das vezes, está dentro de nós. Como disse Gibran em seu O profeta:


"Se é um déspota que quereis destronar, verificai primeiro se seu trono erguido dentro de vós está destruído.

Pois como poderia um tirano dominar os livres e os altivos se não tivessem tirania na sua própria liberdade e vergonha na sua própria altivez?"


Somente quem realmente é livre e de bons costumes tem possibilidade de combater esta ditadura comportamental que está induzindo a maus procedimentos nossa sociedade. E nós temos este compromisso e estamos exercendo quando protestamos. Pelo bem da sociedade e honra à confiança ao princípio supremo, que é Deus.

Os homens, por si só, são vagos. Importantes e imortais são suas obras. Tanto as boas quanto as más. Onde estão as notícias sobre as contas CC-5 do Banestado que a grande mídia está escondendo? Existe uma CPI investigando, mas para grande parte da imprensa é como se não existisse. Preferem inflar escândalos paralelos para desviar a atenção. É para isso que querem essa tal liberdade?

Liberdade é um direito, e não algo que se encontra jogado por aí.

(*) Dirigente sindical

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