Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA

A TV também venceu a Copa

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

COBERTURA

Antônio Brasil (*)

Comemoramos mais um campeonato mundial. Sempre acreditei no Brasil, no seu futebol e na nossa TV. Apesar de tudo e de todos, continuamos vencendo. Adoro o esporte, carrego o peso de um país no sobrenome e sempre acreditei na TV como o nosso principal meio de comunicação. Ela um dia ainda vai ser tão boa quanto o nosso país ou o nosso futebol.

Neste momento, pela televisão, todos nos identificamos numa mesma paixão. É nesta hora que deveríamos pensar com um pouco menos de pessimismo sobre o país, o nosso futebol e, principalmente, a nossa TV. Adoramos falar mal dos três. O país está sempre em crise. O futebol brasileiro chegou a ser considerado "decadente" por boa parte da imprensa. A seleção brasileira se classificou aos trancos e barrancos. Chegou à Coréia para mais uma Copa totalmente desprestigiada, com um técnico chamado de "burro", sem o ídolo Romário e com vários bons jogadores "bichados". Não tínhamos a menor chance. Os favoritos, pasmem, eram os grandes argentinos ou os campeões, os franceses. Ao Brasil, caberia, no máximo, um papel de coadjuvante no grande espetáculo.

Falar mal do Brasil e de seu futebol é muito parecido com a mania nacional, implicância indisfarçável, de criticar ferozmente nossa TV. Ela é responsável por tudo de ruim que acontece com a sociedade, com nossa infância e nossa cultura. A TV e o seu subproduto maldito, a imagem, são ambos responsáveis pela degradação de nossos valores mais preciosos ? nos tornam indiferentes a tudo, meros atores em um verdadeiro simulacro de realidade que se tornou um decadente mundo pós-moderno. Nossa era está condenada a ser pior do que o passado pois abrimos mão de valores mais densos que valorizavam ideais consistentes como o patriotismo, o nacionalismo, as ideologias dogmáticas, a palavra escrita, os quais, em conjunto, eram responsáveis por uma cultura mais densa e consistente. Algumas guerras mundiais e alguns massacres de inocentes sociais justificavam tudo. Afinal, no passado, as pessoas liam mais, não eram seduzidas pelo poder das imagens, não assistiam à televisão ? logo, eram mais sérias e mais consistentes. O mundo piorou com o "emburrecimento" imposto pela televisão. Segundo muitos críticos da contemporaneidade, se hoje a TV deixasse de existir, estaríamos, muito melhores.

Para aqueles que não estão tão certos desse cenário, queria propor uma questão muito significativa para esse momento sagrado que temos o privilégio de estar vivendo em meio de tantas comemorações. Quem foi responsável por assistirmos às imagens dramáticas e históricas de mais um campeonato mundial para o Brasil? Embora seja difícil acreditar, não foi a TV Globo nem o Galvão Bueno. Quem nos proporcionou a magia de ver o Brasil vencer a poderosa Alemanha com imagens geradas ao vivo diretamente do outro lado do mundo foi… a televisão! É aquele mesmo meio de comunicação de massa que adoramos criticar, odiar, falar mal o tempo todo, que nos manipula impiedosamente e que simboliza o eixo de todo o mal que assola a sociedade.

A televisão, ao vivo e em cores, proporcionou a oportunidade termos orgulho de ser brasileiros, de ser felizes, mesmo que por apenas alguns instantes. Hoje assistimos ao campeonato mundial somente pela Globo. Pena. Mas alguém aí ainda se lembra como era só "ouvir" uma Copa do Mundo somente pelo rádio? Então, pare e pense. A TV não é tão ruim assim.

Criatividade e determinação

Agora que, humildemente, reconhecemos a violência da nossa imprensa em relação às críticas ao Felipão, aos jogadores e ao futebol, gostaria também de lembrar aos críticos de televisão que nem tudo está perdido. Nem tudo em nossa TV é busca de fama e sucesso a qualquer custo em reality shows importados e programas de quinta categoria, shows de baixarias no Ratinho, documentários de bichinhos exóticos ou fantásticos shows da vida com direito a matérias sensacionalistas e morte de jornalista. É nesses momentos, numa final de Copa do Mundo, que a Televisão com T maiúsculo mostra todo o seu potencial de unir o planeta. As estimativas mais realistas apontam para uma audiência de mais de 2 bilhões de telespectadores no mundo inteiro no jogo final da Copa. A maior audiência de toda a história da humanidade.

É nessa hora que devemos registrar que o Brasil não é só lembrado quando batemos recordes de violência, no desrespeito aos valores sociais ou durante nas secas e enchentes. Temos tudo isso de sobra, é verdade. Mas graças ao milagre da televisão, o Brasil, dessa vez, foi visto no mundo inteiro como exemplo de talento, dedicação, disciplina e determinação. Tudo aquilo que insistimos em negar diariamente nos noticiários internacionais. Culpamos a má vontade dos correspondentes estrangeiros, dos produtores de desenhos irreverentes como os Simpsons e, obviamente, a televisão. Tentamos negar que a TV não passa de um grande espelho. Graças à televisão conseguimos ver e mostrar o lado bom e ruim de ser brasileiro. Não somos sempre tão incompetentes e dispersivos como nos tentaram convencer. A TV também mostra que os alemães não são tão infalíveis como gostariam de ser, nem temos tanto medo de ser bem-sucedidos e felizes. Assim como nós, os alemães também cometem erros, possuem muralhas ou goleiros que desabam frente ao talento e à improvisação, desde de que bem organizados.

Sempre insisti: a televisão não é culpada pelos nossos males. Ela é simplesmente o reflexo do nosso desleixo com o país. Não adianta querer quebrar o espelho. Destruir a televisão não resolve os nossos problemas de falta de educação ou nem nos leva de volta a um passado que nunca existiu. Temos, sim, que assumir o controle do potencial do meio televisivo. Assim como o futebol, que andou meio largado e desprestigiado, devemos tomar a televisão em nossas mãos e torná-la mais útil para a sociedade. O futebol é importante demais para deixá-lo na mão de uns poucos cartolas tão ambiciosos como inescrupulosos. O futebol não é só mais um esporte. Assim como a TV, ele reflete nossa capacidade de fazer alguma coisa certa e de ser reconhecidos internacionalmente como um país bem-sucedido, um povo de sucesso. A televisão precisa da mesma cobrança por parte da sociedade. A mesma criatividade e determinação que mostramos no futebol seria ainda mais importante se utilizada num projeto de televisão mais responsável, concessão pública verdadeira e voltada para valores sociais mais dignos e transparentes.

Todos, incluindo os responsáveis pela TV brasileira, temos muito o que aprender com o futebol. Para ser pentacampeões, precisamos confiar tanto no talento quanto no poder de organização para vencer obstáculos. Não basta ter as idéias e os recursos. Os objetivos têm que ser mais claros.

Cobertura exclusiva

É por isso que um país ou uma sociedade que permite que o seu principal meio de comunicação, a televisão, ao transmitir o seu momento máximo de glória se torne único e exclusivo, possui razões de sobra para estar preocupado com o futuro. Ao excluir os demais competidores poderemos estar excluindo nossa diversidade. Assim como a televisão reflete o país, poderemos estar excluindo a nossa diversidade de pensar e agir.

Esta Copa demonstrou que a televisão é um meio demasiadamente poderoso para estar limitado ao controle de tão poucos. Se o futebol brasileiro pertence a todos e não somente a alguns iluminados da CBF, também devemos pensar que é chegada a hora de lutar pela democratização da TV brasileira.

Assim como mostramos ao mundo que temos o melhor futebol, é hora de lutar por uma televisão melhor, mais digna do seu povo e mais responsável com os seus objetivos. Se a nossa TV ainda não pode ser educativa, que pelo menos não deseduque ou não nos impeça de ser tão vitoriosos quanto a seleção. Depois de uma Copa do Mundo com direito a cobertura exclusiva, é hora de pensar nas eleições presidenciais. Assim como quis a Fifa, é chegada a hora do leilão. Quem se habilita?

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ.

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