Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A versão do homicida

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

Alexandre Caetano

Causa-me profunda indignação a abordagem de determinados veículos de comunicação – em especial o jornal Folha de S.Paulo e o site Folha Online – na cobertura do bárbaro e covarde crime praticado pelo ex-diretor de redação do Estadão Antônio Pimenta Neves, contra a repórter Sandra Gomide. Neles, de forma repugnante, há uma insinuação explícita de que a vítima era, antes de tudo, uma alpinista social, que se aproveitou do interesse do apaixonado diretor para galgar posições e defenestrar desafetos nas redações por onde trabalhou, fazendo questão inclusive de afirmar o acesso e o prestígio que tinha com o diretor.

Lamentavelmente, Sandra Gomide não está mais entre nós para se defender de abordagens para lá de preconceituosas e difamatórias contra a sua memória. Não houve sequer preocupação em ouvir outras fontes, inclusive ex-namorados e colegas, que talvez tivessem versão diferente sobre o comportamento da jovem jornalista, sem se esconder no anonimato. De repente, uma versão acaba sendo reforçada, a daqueles que diziam que ela não tinha capacidade para chegar aonde chegou, dependendo só da mão "brilhante" e "genial" do diretor que por ela se encantou. A versão do homicida, que diz ter visto mais talento do que realmente existia nela.

São abordagens que acabam por reforçar antigos preconceitos, trabalhando com noções do senso comum ainda fortes em nossa cultura, ou seja, o universo dos chamados crimes cometidos em defesa da honra ou por violenta emoção. Afinal, num raciocínio como este, alguém até pode acreditar na fala de um brilhante jornalista que, como ele mesmo disse, teve sua dignidade de homem atingida. É como dizer que, se o sujeito era um desequilibrado, também é preciso avaliar o caráter de quem ele vitimou.

Isso pode levar a um raciocínio compensatório, atenuante inaceitável nesse caso. Seguir essa linha pode significar dizer que a atitude dele é condenável, mas seria compreensível, pois é resultado da perda de equilíbrio. Na minha opinião, esse caso deveria servir para se discutir a onipotência exercida por determinadas pessoas dentro de uma redação. Vejo que, nesse sentido, a jornalista Miriam Leitão foi muito feliz num artigo que escreveu sobre o assunto para o site Notícia e Opinião. É preciso discutir a falta de profissionalismo e estrutura de poder arcaica existente nas empresas jornalísticas, que acabam concentrando poder de vida e de morte na mão de determinados diretores e editores, que adotam comportamentos arbitrários e autoritários.

Comportamento primitivo

O comportamento do senhor Pimenta Neves não é único nas redações. Há uma série de tiranos que adotam comportamentos pautados muito mais em critérios pessoais do que profissionais. Se não temos hoje o dono do jornal, que numa empresa familiar à moda antiga adotava procedimentos provincianos, agora há seus capatazes e feitores, que agem de forma prepotente e arrogante, como muitos Pimentas por aí.

E se me permite o mestre Alberto Dines, discordo de seu artigo. Acho que houve e está havendo comoção pública em torno do caso. Graças principalmente à repercussão que TV Globo e O Globo deram ao assunto. Na internet, o caso tem sido debatido pelos formadores de opinião. Entre os jornalistas, nem se fala. O lado trágico dessa história, para mim, não é o fato de o senhor Pimenta Neves andar armado, mas sim as atitudes insanas que adotou e a forma perversa como agiu depois que Sandra Gomide terminou o namoro. De forma impune, ele perseguiu, difamou, ameaçou, agrediu e tentou destruir profissionalmente a jornalista. Adotou critérios jornalísticos, administrativos e profissionais os mais absurdos, como um coronel de província, sem que nada fosse feito ou alguém tomasse nenhuma providência. Ele era o senhor todo-poderoso da redação.

Sandra não é culpada de usufruir supostas benesses de uma relação que teve com um desequilibrado. O que, aliás, é uma avaliação muito subjetiva, por todas as circunstâncias e porque não poderemos mais avaliar seu trabalho sem o feitor por perto. Não é ela que está sendo julgada. Não deve e nem pode ser. As empresas jornalísticas é que devem rever suas estruturas hierárquicas, seus critérios profissionais e o poder tirânico que concedem a determinadas pessoas.

Usando as palavras do homicida num programa de televisão, a atitude dele foi a demonstração de um comportamento primitivo. Com todo o respeito que merecem os povos ditos primitivos, que não costumam matar por orgulho, vaidade ou ciúme.

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