Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SANTOS vs. MÍDIA ESPORTIVA

A vingança pelo futebol

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

SANTOS vs. MÍDIA ESPORTIVA

Odir Cunha (*)

Todo homem tem poderes inexplicáveis. Cristo, para mim, foi um homem especial que simplesmente usou ao máximo os dons que todos nós conservamos adormecidos. Não sou diferente (dos homens). Sinto que tenho poderes para o bem ou para o mal, independentemente da minha vontade. É algo incontrolável, que vem lá do fundo da alma. Como seres passionais, reagimos positivamente a quem nos faz o bem, retribuindo-lhes bons agouros, mas também produzimos fluidos negativos que pairam sobre a cabeça dos que nos prejudicam.

Obviamente me esforço para dominar essas faculdades excepcionais, que em caso extremo podem levar um desafeto à morte ou à invalidez permanente. Tenho, acima de tudo, um coração bom, que tenta perdoar as pessoas, por mais sacanas que sejam. Procuro, por exemplo, vislumbrar resquícios de caráter mesmo nas figuras mais ignóbeis do nosso meio jornalístico. Acho que, para manter um bom ambiente de trabalho, tento me enganar com as pessoas. O problema é que o meu coração não se engana.

Neste ano de 2002 sofri um grande dissabor como jornalista. Fui demitido de um jornal diário de São Paulo que eu sempre amei com a mesma força com que se ama um time de futebol ou uma escola de samba. E fui demitido covardemente após uma trama maquiavélica urdida por dois personagens mesquinhos e traiçoeiros: um deles palmeirense roxo e, o outro, um torcedor enrustido da Portuguesa.

Nada tenho contra Palmeiras, Portuguesa, São Paulo, Corinthians, ou qualquer outra agremiação.Todas têm sua história, seu carisma, seus momentos gloriosos. Tenho consciência de que se tivesse um pai fanático que torcesse por uma dessas equipes e se ele fosse convincente eu fatalmente também torceria por uma delas. Mas meu pai era um são-paulino democrático e eu, felizmente, tornei-me santista.

Sina repetida

Como santista vivi as maiores alegrias que uma criança e adolescente pode saborear. Vendo meu time enfeitiçar os estádios, conquistar os títulos mais inacessíveis e manter, por quase duas décadas, uma verdadeira constelação de craques, dos quais o maior era ninguém menos do que Pelé. Como reconhecimento à alegria que aqueles garotos, hoje respeitáveis velhinhos, me deram, há mais de 10 anos comecei a pesquisa para o livro definitivo sobre o Santos inigualável, que finalmente será lançado em abril de 2003.

Todos no jornal sabiam de minha declarada paixão pelo alvinegro praiano. Para mim, o Santos nunca foi só um time. Representa a fase de ouro do Brasil e do futebol brasileiro, simboliza a arte, a ousadia e a altivez que vêm do nosso povo, a democracia racial (o time bicampeão do mundo tinha seis brancos e cinco negros), materializa, enfim, o sonho de sucesso e perfeição que queremos para a nossa sociedade. E um sonho bem possível, porque o Santos nunca precisou de dinheiro e nem se valeu de jogadores estrangeiros para montar seus melhores elencos. Só de talento e de confiança nesse talento.

Digo "materializa", e não materializou, porque no Santos passado e presente se confundem. As fases mágicas do seu futebol sempre vieram nos períodos de penúria, nos quais o único remédio era acreditar nos pés de garotos formados no próprio clube, reforçados por um ou outro jogador quase anônimo contratado a preço de banana. Os grandes Santos nasceram assim, de graça e cheios de graça.

Isso aconteceu com o primeiro deles, que em 1919 levou três jogadores (Millon, Arnaldo e Haroldo) à Seleção Brasileira que conquistou o Sul-Americano, no Rio. Para quem não sabe, esta foi a primeira grande conquista do futebol brasileiro, e o Santos a equipe que contribuiu com mais jogadores para a Seleção, destacando-se o capitão, Arnaldo Silveira.

A sina se repetiu em 1927, com o incrível ataque dos 100 gols, a primeira linha a chegar aos três dígitos numa competição sul-americana. Omar (Siriri), Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista (Hugo) golearam os melhores times da época (entre eles o Corinthians, por 8 a 3), derrotaram por duas vezes o decantado Vasco, no Rio, e no Paulista de 1927 atingiram a média inacreditável de mais de seis gols por partida! Um detalhe: Araken estreou no time com 16 anos.

Veterano da grosseria

E que tal lembrar os "Meninos da Vila" de 1955 em diante? Primeiro chegaram Del Vecchio, Pagão, Pepe, depois vieram Pelé, Coutinho… e assim se formou o melhor time de todos os tempos. A mesma fórmula foi repetida em 1978, com os campeões estaduais Zé Carlos, Pita, Rubens Feijão, Nilton Batata, Juari e João Paulo. Voltou a prevalecer em 1995, com os vice-campeões brasileiros Edinho, Camanducaia, Marcelo Passos, Giovanni, Jamelli, e agora, em 2202, com Alex, Renato, Paulo Almeida, Diego, Elano, Robinho, num time arrebatador que volta a encantar pela mesma habilidade, ousadia e ofensividade de sempre.

Deu para perceber que há um elo entre o primeiro Santos e este último? Como explicar? Bem, se você acredita na força dos astros, saiba que um dos animais mitológicos do signo de Libra (o Santos foi fundado em 14/4/1912) é a Fênix, justamente a ave que renasce das cinzas. E que Libra é caracterizada pela virilidade, pela luta, pela conquista. O que mais, além desse espírito guerreiro e vencedor, pode explicar um garoto de 18 anos, como Robinho, criar a jogada do pênalti e, tal qual um veterano, pôr a bola embaixo do braço, colocar na marca de cal e marcar o primeiro gol da grande decisão?

Há muito mais entre a arquibancada e o gramado do que desconfia a vã filosofia dos cronistas esportivos. E ainda mais obtuso será esse cronista se estiver cego pelo fanatismo. Nesse jornal onde trabalhei o Palmeiras sempre ganhava o espaço nobre, na vitória ou na derrota. Na maioria das vezes não o merecia, mas esse era o desejo do editor, que traz no nome e no sotaque ítalo-caipira a velha origem do país da bota. Num sábado, por exemplo, jogavam Vasco e Santos, no Rio, e Palmeiras e Guarani, em Campinas.

O jogo dos verdes foi presenteado com 80% da página. Quando o repórter que cobriria a partida dos alvinegros reclamou da falta de espaço a resposta veio, mussoliniana: "É isso aí. E se falar mais alguma coisa diminuo ainda mais."

Não é de se admirar que, após cometer o erro de discutir futebol com tão pernóstica figura, fui obrigado a ouvir: "Quantos títulos o seu filho viu o Santos ganhar? O meu já viu o Palmeiras ganhar um monte." Tive que explicar-lhe que, democrático como o meu pai, nunca obrigaria um filho a torcer pelo mesmo time que eu. O Thiago é corinthiano e a Luana é são-paulina. Ótimas escolhas, por sinal. Torcer para o Santos é algo que não pode ser imposto. Vem de dentro. Apenas uma pequena porcentagem da grande massa de brasileiros tem esse dom. Mas é compreensível e a Bíblia já explicou: "Muitos serão chamados, poucos serão escolhidos." (São Matheus, Capítulo 22, Versículo 14). Mas Luana e Thiago não são fanáticos e, para o bem deles, sua felicidade não depende nadinha do futebol.

Quanto ao outro senhor responsável pelo meu infortúnio profissional, sua relação com o futebol é indefinível. Sei que gosta da Portuguesa porque logo que chegou à redação nos encontramos num plantão de fim de semana no qual Santos e Portuguesa jogavam, pela TV. Assistíamos à partida e eu já havia feito alguns comentários que denotavam minha paixão quando, para ser educado e puxar conversa, perguntei-lhe para que time torcia. A figura respondeu, entre dentes, que não gostava muito de futebol, tinha uma certa simpatia pela Portuguesa, mas detestava mesmo o Santos. Diante da falta de tato de meu interlocutor, ainda tentei elogiar a Lusa, mas nenhum outro som saiu da boca enrugada do meu velho companheiro.

O dom do renascimento

Diante dos fatos, ao ver minha longa folha de serviços prestados ao jornal interrompida abruptamente pelas figuras em questão, acabei involuntariamente acionando meus poderes. Em outras palavras, ao assinar minha demissão uma praga estava sendo lançada ? assim como esses sapos que são enterrados atrás dos gols. Controlando meus instintos sobrenaturais para que minha ira não prejudicasse meus inimigos em aspectos essenciais de suas vidas ? como a sagrada saúde ?, devo, inconscientemente, ter desviado esse indomável espírito de vingança para o futebol. E Palmeiras e Portuguesa pagaram o pato.

E olhe que minha namorada e seus filhos são palmeirenses, fui sócio do Palmeiras, e tenho esse sobrenome ? Cunha ? que não esconde minhas origens lusitanas das quais sempre me orgulharei. Porém, minha vontade-involuntária-interior foi maior e Palmeiras e Portuguesa vão disputar bons clássicos na Segunda Divisão. Para completar, terão a companhia daquele mesmo Botafogo que roubou do Santos o título de 1995, ajudado pelo comparsa Márcio Rezende de Freitas. Enquanto isso, os meninos Diego, Robinho & Cia brilharão para o mundo na Copa Libertadores, que outros garotos vestidos de branco já venceram duas vezes. Que alegria! Que sonho!

Veja, meu amigo, como é certo o ditado que diz "aqui se faz, aqui se paga". Confesso que digo isso sem nenhum prazer. A vingança faz mal e embrutece o homem. Sinto apenas comiseração pelos vencidos e, mais ainda, pelos vencidos que levaram seus filhos para o mesmo caminho de dor e humilhação.

Faltou falar do outro rebaixado? Sim, o Gama. Pois a este foi dado o poder supremo. Como assim?, perguntará você, arguto leitor. Ora, o poder supremo de, depois de rebaixado e subjugado, golear milagrosamente o Coritiba por 4 a 0 na última rodada, resultado que fez com que o futebol seguisse o seu destino e o Santos pudesse fechar o ciclo e permitir um último capítulo de ouro ao meu livro que, também misteriosamente, concluo justamente agora. Note que o Gama renasceu das cinzas para que o Santos, oitavo dos classificados, também renascesse sobre os favoritos e conquistasse o título mais indiscutível de todos os Campeonatos Brasileiros.

Percebeu que as asas da Fênix bateram o tempo todo sobre essa história? Por isso, meu amigo, nunca seja injusto ou sacana com ninguém, muito menos com certas pessoas especiais, como eu. Desrespeitar essa regra poderá lhe trazer grandes transtornos, principalmente se você for um torcedor fanático de um dos muitos times não-escolhidos. Nunca imagine um adversário totalmente vencido. Ele pode ter o dom de renascer.

Boas festas e um 2003 de primeira!

(*) Jornalista

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