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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > SOB CENSURA

A vitória do diretor de Redação

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

CORREIO SOB CENSURA

Gilson Caroni Filho (*)

Às vésperas das eleições que, a julgar pelas pesquisas, darão inédita vitória às forças progressistas, a democracia sofreu rude golpe. O Correio Braziliense, veículo que se destacou nos últimos anos por uma linha editorial altiva e independente, sofreu censura prévia. Como destacou Vítor Gentilli, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e editor-acadêmico deste Observatório, “é a primeira vez, desde a ditadura militar, que um jornal de grande porte é vítima de censura explícita, mesmo sob autorização judicial”. Ferindo, segundo alguns juristas, preceito constitucional, o desembargador Jirair Meguerian determinou “busca e apreensão com arrombamento ou entrada compulsória na sede, se houver necessidade de todos os exemplares da edição de 24/10/2002”.

O mais acintoso é que a censura prévia foi realizada pelo advogado da coligação partidária que a pediu. O governador Joaquim Roriz não só não disfarçou a satisfação com a ação judicial, como exultou com o anúncio da mudança da diretoria do jornal. Sem dúvida, a muitos incomodava a postura ética do diretor de Redação, Ricardo Noblat. Há algum tempo, publicamos, neste Observatório, artigo que apontava o Correio Braziliense como exemplo de veículo que não submete sua política editorial a interesses de anunciantes ou demandas de uma elite patrimonialista.

Sem se vergar ao pensamento único vigente em outros redações, todas as editorias primavam pelo registro preciso dos fatos conjugado ao aprofundamento analítico necessário. Era, como registramos à época, uma exceção que sinalizava um caminho a ser seguido. A trilha justa dos que aspiram por uma imprensa plural, de excelência inconteste e, acima de tudo, republicana.

Perdemos todos com o lamentável episódio. O jornalismo, como serviço público, é vítima da ação fascista de um governador que tem como prática política o loteamento irregular de terras e no lumpesinato pentescostal sua base de sustentação. Da periferia da capital da República, os desprovidos de cidadania são manietados pelos que necessitam da reprodução perene da miséria para se eternizarem no poder. Cumprem, no entanto, função pedagógica: a de mostrar que o Estado de Direito padecerá de profunda fragilidade enquanto a cidadania for apanágio de poucos. Mais que autoritarismo localizado, restrito à conjuntura brasiliense, o que presenciamos é a contraface da “modernização” tão incensada pelo jornalismo áulico nos últimos anos. O sagrado “aleluia”, que ressurge como versão profana do já esquecido “anauê”, não é outro lado do suposto avanço. É o subproduto que comprova sua falácia.

Ao parto da vitória dos que se comprometem em refundar o espaço republicano reagem, com odor de putrefação, as velhas forças conservadoras. Que não nos iludamos quanto à natureza do que assistimos. A diferença de métodos não pode ocultar a similitude das ações. Os que loteiam irregulamente o solo urbano da capital federal têm total afinidade eletiva com os que sucatearam o parque produtivo e submeteram o destino do país aos interesses do capital financeiro. Estão derrotados temporariamente, mas se valerão de todos os expedientes para sabotar as esperanças expressas nas urnas. Muito os ajudarão análises ingênuas que criem dualidades inexistentes entre aliados de longa data.

Muda a diretoria do Correio Braziliense. Ricardo Noblat deixa de ser diretor de Redação mas se eterniza como paradigma. Passa a ser sinônimo de jornalismo cidadão, imprensa ética, movimento de resistência. É o autor, junto com sua equipe, de um dos mais belos momentos do jornalismo brasileiro. Noblat caiu porque venceu. Parabéns, caríssimo companheiro de luta. Embora a travemos de pontos diferentes da trincheira.

(*) Professor-titular da Facha, Rio

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